Confira aqui os olhares da Revista Filmes Polvo aos filmes em cartaz.Sinédoque, Nova Iorque, por João Toledo
O filme de estréia de Charlie Kaufman na direção se configura como algo, no mínimo, ambivalente. Se por um lado já esperávamos muito do que ele viria a propor em termos de experiência narrativa, por outro, ele surpreende pela construção imagética pouco afetada. Há, claro, uma exploração de elementos da ordem do absurdo em muitos momentos, mas que são tratados com extrema naturalidade, tanto imagética quando diegeticamente. O filme, portanto, enquanto não se joga do abismo da desconstrução temporal e extravagância narrativa, parece bastante seguro, firme. Observamos o dia-a-dia de Caden, vemos o mundo por sua perspectiva. Vemos o que ele vê e ouvimos o que ele ouve; isso fica claro no momento em que começamos a estranhar certas atitudes de outros personagens. Não estamos, portanto, diante de uma realidade objetiva, mas diante da realidade tal como é percebida por Caden.
Na primeira parte, quando acompanhamos o personagem em trajetória descendente, às voltas com os primeiros sintomas que lhe assustam, percebemos um filme bastante seguro de si, da exploração de elementos mundanos grosseiros pouco comuns no universo do cinema. Essa hiper-intimidade parece uma via interessante para penetrarmos na mente do personagem. Mas quando mais adentramos seu universo de angústia, pavor e loucura, de confusos processos criativos, mais impessoal se torna o filme, mais frio e desencontrado de afetos legítimos. Isso, no entanto, é passível de ser explicado pela própria ruína moral e afetiva de Caden.
Durante grande parte do filme, a sensação é de estarmos diante de uma obra sem foco, perdida em meio a um turbilhão sem fim de idéias sobre algum tipo de verdade por trás da encenação. Quanto mais o filme se acirra nessa busca por verdade, no entanto, mais artificioso se torna, mais cheio de camadas irrelevantes de repetições estéticas e narrativas, mais labiríntico e perdido de qualquer foco ou objetivo. No entanto, é aí, me parece, que surge uma novidade, algo que desperta interesse: trata-se de um filme chato, quase irritante a partir de determinado momento. Partindo de uma visão pessimista, pensando a vida como um longo processo de sofrimentos, angústias, mesmices, mergulhos no vazio, inutilidades, memórias gastas, pensando-a como uma narrativa sem foco, desprovida de sentido, de razão, podemos pensar que Sinédoque seja até bastante ousado.
Com seu personagem perdido na busca por maior verdade, perdido entre títulos provisórios e insistentes novas idéias para o final, o filme termina sem terminar, termina sem sentido, sem moral, sem discurso. Termina vazio. Se a todo momento ele parecia buscar se escorar na estrutura pretensamente perfeita, à la Charlie Kaufman, no fim ele revela que sua estrutura mero acúmulo de erros, uma desconstrução da própria imagem do Kaufman arquitetado. É claro, há um obsessivo cuidado com os detalhes que se cruzam ao longo na narrativa e deles emergem, sim, sentidos. Mas trata-se talvez de um anti-discurso, de um movimento desestruturador de sentidos. A primeira mulher de Caden, com seus quadros cada vez menores, parece metaforizar a significância da vida como é pensada pelo filme; uma janela mínima para um rosto entre tantos e tantos, um micro-protagonista no fundo insignificante. Todas essas idéias de fato convergem de uma forma muito bem projetada, mas se revelam um grande castelo de cartas, pronto a ser derrubado com um sopro apenas.
Filmes Citados:
Sinédoque, Nova Iorque (Synecdoche, New York, 2008/Charlie Kaufman)