Confira aqui os olhares da Revista Filmes Polvo aos filmes em cartaz.Fragmentos (des)costurados de uma cidade
por Marcelo Miranda
A visão de um filme como 5 Frações de uma Quase História, por mais universal que ele seja, será sempre mais subjetiva a espectadores de Belo Horizonte. Afinal, é da cidade que se fala, por vezes até além do que sobre aqueles personagens obcecados que transitam pelas ruas. Esta é justamente a melhor das características desse trabalho coletivo da produtora Camisa Listrada. Não é por acaso que os mais instigantes dos cinco episódios exploram bastante a geografia e as peculiaridades da capital - no caso, Qualquer Vôo, de Cris Azzi, cujo protagonista anda por ruas, metrô, aeroporto e espaços isolados e menos conhecidos; e "ZYR 145", de Guilherme Fiúza, com uso muito curioso do parque municipal como local de irônico pastiche que beira o caricato chanchadeiro, utilizando ao mesmo tempo esse espaço conhecido dos mineiros como propulsor da ação, numa premissa de solidão e abandono capaz de dialogar com qualquer platéia sem jamais querer esconder onde, afinal, aquilo tudo se passa.
A estética pop, cheia de efeitos (aceleração da imagem, montagem frenética, supercloses que vão e vêm), claramente dialoga com tentativa de alcançar público amplo que potencialmente deve se interessar pelo tipo de filme que a produtora quer defender. Há clara referência a gerações, tendo como extremos, de um lado, a jovem Cynthia Falabella - e suas agruras amorosas - e, do outro, o altamente reconhecido Jece Valadão (morto em 2006), novamente no típico papel de canalha cafajeste mulherengo.
Só que o filme, por mais explícita seja sua boa intenção de explorar Belo Horizonte como palco de angústias que, como o diretor Lucas Gontijo já disse, "não é prerrogativa de grandes centros como São Paulo e Rio", esbarra nas típicas limitações de um trabalho comandado por mais que um ou dois diretores. Mais que isso: esforça-se para conseguir se manter estável ao longo dos cinco episódios narrados, que tentam dialogar entre si. O diálogo, porém, não parece existir. Os fragmentos são relacionados por entrechos em comum entre as histórias, mas jamais esses momentos têm relação com o enredo narrado além da própria costura ou do fetiche de formar um filme-mosaico.
A sensação é de que os filmes, de temáticas bastante próximas (basicamente a solidão urbana e as conseqüências disso), são amarrados menos por necessidades estéticas ou narrativas do que pela vontade particular dos realizadores em fazer, afinal, um mosaico. Daí a "acusação" de "5 Frações..." aparentar ser uma reunião de curtas: a amarração dos fragmentos não aparenta ter sido pensada cinematograficamente para além de ser, simplesmente, uma amarração.
O uso do espaço da cidade como concepção de imagem e tom, deixando que a intuição agisse mais sobre os realizadores do que ganchos de roteiro (algo iniciado, mas não tão desenvolvido dramaturgicamente, por Fiúza e Azzi), talvez resolvesse o impasse - mas é sempre questionável pensar o filme para fora do que ele efetivamente é na tela.
5 Frações de uma Quase História (Idem, 2008/Armando Mendz, Cristiano Abud, Cris Azzi, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia)