
por Nísio Teixeira
O filme de estréia da Cinédia, Lábios sem beijos, dirigido por Humberto Mauro, mistura ousadia e delicadeza a um só tempo e em dose dupla, tanto no ponto de vista do enredo, como cinematográfico. E, no caso do Cine OP, com um atrativo a mais: a execução de uma trilha sonora ao vivo, propiciada pelo grupo francês DoubleCadence, formado por Céline Benezeth (violino), Maxime Roman (guitarra) e Marco Pereira (piano).
O filme é duplamente ousado e delicado porque tem-se uma cinematografia em que Mauro explora planos mais detidos e gerais, como vai caracterizar a sua fase sonora, mas também sequências mais frenéticas e movimentadas, bem como planos mais fechados. Em contraponto, também temos um filme mais urbano do que a ruralidade predominante em Mauro. Mas, da mesma forma que o anterior Sangue Mineiro, planos gerais belíssimos das cidades em que se passa a trama: Belo Horizonte, neste caso e Rio, no caso de Lábios sem beijos. Outra ousadia é detectada no enredo, no qual a mulher é apresentada de forma menos recatada e submissa que o conservadorismo das produções posteriores, em especial Ganga bruta, em que o crime passional é visto de forma quase natural. Ou seja, Lábios sem beijos encontra ecos de um experimentalismo europeu, ao mesmo tempo em que, do ponto de vista da trama, reverba ainda alguma coisa dos "loucos anos 1920", enquanto os demais filmes sonoros de Mauro já mergulham mais a fundo em um conservadorismo e positivismo evidentes após a ascensão de Getúlio Vargas no governo brasileiro, especialmente a partir de 1932.
Tudo bem que, em vários momentos, o flerte com o padrão de amor e mulher romântica estão ali, mas nem por isso ficam sacudidos por brincadeiras textuais e audiovisuais. Em um casal, o homem diz que seu amor será eterno como a cachoeirinha do regato - mas, em seguida, sem a parceira perceber, fecha a torneira do que era, afinal, apenas uma fonte natural de água. Em outro momento, outro casal, a mulher diz algo como a bela natureza que celebra o amor dos dois - até que um boi enfurecido desponta no belo horizonte e passa a persegui-los. O clima, aliás, é dado desde o início pelas belas cartelas de J. Carlos - uma delas diz que a história poderia se passar em Londres, "mas resolvemos filmá-la no Rio, apesar da chuva".
Chuva, aliás, que teve seu barulho muito bem coreografado pelo grupo francês, que nesse momento pediu a cumplicidade do público para pequenos tapinhas que, produzidos coletivamente, procuraram imitar os pingos que caíam no chão na tela do cinema. Apesar disso, o grupo usou, mas não abusou das onomatopéias (como a própria chuva, trovão e buzinas), preferindo apostar numa imersão perfeita ao filme por meio de uma trilha sonora delicada e eficiente. Encanto, aliás, absurdamente interrompido por um momento em que o filme pára (exatamente numa cena... de beijo) e alguém surge declamando um poema protoswaldandradiano obscuro, chatíssimo e, o que foi pior, longo. Por muito pouco o espetáculo não foi prejudicado pela infeliz idéia de parar (!) um filme (!?!) para um happening descontextualizado. Felizmente, acho que o espanto do ato tomou conta da vaia e o filme e o espetáculo musical pôde voltar ao seu ritmo, fazendo de Lábios sem beijos uma bela crônica de seu tempo (inclusive do cinema de seu tempo), talvez o melhor longa cinematográfico da Cinédia e um dos grandes momentos de Mauro.
Filmes citados
Sangue mineiro (idem, 1929) *
Lábios sem beijos (idem, 1930) *
Ganga bruta (idem, 1933) *
* Dirigidos por Humberto Mauro.