Sessão de médias: "Áurea", de Zeca Ferreira e "Fora de Campo", de Adirley Queirós

Áurea

          por Rafael Ciccarini


Áurea é um filme sobre a música e o silêncio, sobre as ambigüidades guardadas na própria idéia da palavra show. Show, mostrar, apresentação que supõe um espetáculo e um público. Áurea é cantora da noite carioca e a acompanhamos em alguns de seus momentos, antes, durante e depois de uma apresentação na pequena casa em que se apresenta no Rio de Janeiro.

Em uma curiosa articulação de ficção e documentário, vemos uma espécie de auto-ficção, tendo Áurea como personagem de si mesma num conto de beleza e desolação, talento e decadência; a arte em algum lugar entre a paixão e necessidade. Áurea não é uma estrela, não é um nome conhecido, não chegou ao estrelato, mas segue fazendo o que sabe, o que quer e o que precisa fazer: realiza o seu show com toda a verdade e intensidade que lhe é intrínseca, ainda que com menos espectadores do que certamente mereceria.

A escolha pela hibridização, pela indeterminação formal entre realidade e encenação assumida, se mostra feliz e acertada, pois não interessa ao filme realizar uma espécie de denúncia formal do tipo “vejam como essa mulher talentosa tem uma vida difícil”, “vejam como o show-bussines é cruel e injusto”. Deixando essas questões implícitas, o filme aposta numa espécie de poesia do desencanto, em uma delicada homenagem via linguagem: a ficção como mais uma possibilidade de Áurea recriar-se a si mesma e fazer-se mostrar em sua potência trágica. O show, afinal, tem que continuar. E continuará.

 

Fora de Campo

 

por Rafael Ciccarini

Fora de Campo trata do futebol por uma chave não tão comumente explorada pelos filmes que lidam com o esporte mais popular do mundo: o dos “excluídos”, ou seja, jogadores de segunda e terceira divisões locais, times pequenos, sem dinheiro, mídia ou estrutura mínima que os suporte no exercício de suas profissões e paixões. Em verdade, nos mostra o trabalho de Adirley Queirós, esse é o cenário da grande maioria dos jogadores de futebol do Brasil: enquanto, pela mídia, vende-se o sonho de riqueza, fama, projeção internacional e toda a sorte de glamourizações, a realidade é bastante diferente para noventa porcento dos profissionais (ou quase isso) em atividade.

Feito para exibição em televisão, o média-metragem acompanha o cotidiano de alguns jogadores e equipes minúsculas, em especial uma que disputa as divisões intermediárias do futebol brasiliense. Entre os jogadores ouvidos e mostrados, nomes inteiramente desconhecidos do grande público se misturam a alguns outros que outrora tiveram maior projeção, ou seja, no mesmo campo de terra batida, no mesmo vestiário precário, no mesmo Clube onde passam meses sem receber um salário por si só já baixíssimo, se dividem aqueles que em outros tempos já contemplaram o sonho de perto com aqueles que muito provavelmente nunca sequer nele resvalarão, ainda que alguns mantenham tal esperança.

O filme adentra os vestiários, as preleções, as orações dos times, alternando artifícios do cinema direto com outros do documentário tradicional, conseguindo se resolver bem dentro de sua proposta. Se Fora de Campo não é brilhante em termos de articulação formal, é feliz ao tentar colocar em tela um futebol visto sob outro prisma, outra realidade, ainda que com pontos de toque curiosos entre esses “dois mundos”.  Ou seja, ainda que no universo da carência, da pobreza, da falta de estrutura, a dimensão da paixão não se perde por inteiro: de alguma maneira, a mágica que envolve esse esporte conseguisse sobreviver a qualquer coisa – e se fazer presente num cenário que lhe é francamente antagônico.

Em tempo de Copa do Mundo, palco das grandes estrelas, dos grandes patrocinadores e dos bilhões de dólares, torna-se ainda mais curiosa essa oportunidade de olhar para o outro lado, especialmente, como é o caso de Fora de Campo, esse olhar não se dê sob o prisma da mera denúncia sociológica ou sob o prisma de uma determinada luta de classes, mas sim uma tentativa de compreender o Futebol, esse mundo ele próprio, no que ele tem de mais duro, melancólico, desolador, e, ainda assim, fascinante.

 

Filmes Citados:

Áurea (Idem, 2009/Zeca Ferreira)

Fora de Campo (idem, 2009/Adirley Queirós)

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