
por Nísio Teixeira
Querida mãe
Após a sessão de Mulher, de Octávio Gabus Mendes, uma fina sintonia sobre a condição feminina completou a programação de sábado no Cine Vila Rica, com dois documentários médias-metragens recentes. Em ambos, a mulher protagonista ante desafios e questões existenciais provocadas por mudanças em seu corpo. Em ambos, relatos confessionais e abertos de situações privadas e, até mesmo íntimas, exemplificadas pelo uso de imagens pessoais – como fotografias e Super 8 - e, em contraponto, a passeios e trajetórias públicas reconfiguradas por essas mesmas questões e desafios.
No primeiro deles, Querida Mãe, uma mulher escreve à mãe compartilhando alegrias e incertezas de sua gravidez. O média-metragem recorre a fotografias familiares e imagens de ultrassom em contraponto a imagens de passeios e trajetórias de uma filha à sua mãe, procurando um relato pungente e emocionante sobre o vai e vem de suas preocupações. O que talvez também pode ser entendido como a busca de um entendimento da condição da mãe, através daquela que antes filha, agora atinge essa condição. Tudo num ciclo contínuo interessante pois, na verdade, todo o texto é retirado de cartas de 1966 da mãe da diretora à sua avó... “e é quase tudo o que sei sobre minha mãe”, frisa na curta e enigmática sinopse do filme.
Zona Desconhecida
Já Zona Desconhecida abre com um aparente exercício de Pilates, mas, aos poucos - inclusive, mais uma vez, com o uso de film footages em Super 8 da família – vamos também entrando, no universo familiar e delicado de Mara Rodrigues, vítima de um acidente automobolístico que a deixou tetraplégica e que, anos depois, viria a ser a vereadora mais votada no Brasil e defensora do uso de células tronco embrionárias para pesquisa. Esse adentramento é gradativo e representa, de certa forma, o próprio ritmo da diretora, na verdade a terapeuta de Mara, ela própria condensando, às vezes em rápidos planos de filme o resultado de anos de esforço e treinamento.
Essa, aliás, acaba sendo uma diferença essencial aos filmes: embora as protagonistas exponham seus dilemas e nos comovam com seus relatos, Querida Mãe opta pelo tom mais confessional pois é a própria protagonista quem nos apresenta suas questões. Já em Zona Desconhecida podemos dizer que esse processo acaba sendo dividido, pois não só Mara expõe suas questões, percursos e desafios, como também a própria diretora não se abstém de falar de sua própria relação com a amiga, paciente e com o próprio filme, equilibrando um pouco mais o tom da narrativa. Dois panoramas distintos e interessantes da mulher à flor da pele.
Filmes citados
Mulher (idem, 1931/Octávio Gabus Mendes)
Querida mãe (idem, 2009/Patrícia Cornils)
Zona desconhecida (idem, 2009/Ariana Chediak)