Mulher, de Octavio Gabus Mendes

por Rafael Ciccarini


Se, no cinema americano e europeu, a passagem à década de 1930 passou necessariamente por uma série de transformações ocorridas principalmente em função da chegada do som sincronizado, no Brasil tais transformações ocorreram de maneira peculiar, numa curiosa dialética de atraso e inspiração, força e fraqueza: uma espécie de altivez resignada, que deseja o nacional ainda que sob paradigmas estrangeiros e que, ainda assim, foi capaz de gerar filmes impressionantes.

Mulher é um filme de 1931, que está no meio do caminho entre o mudo e o sonoro, sendo, de fato, ambos: os diálogos se dão por intertítulos, ainda que haja trilha musical, à época realizada por Vitaphone e hoje re-sincronizada no processo de restauração. Ou seja, em uma época que em que cinema americano, por exemplo, já começava a redesenhar sua linguagem sob o paradigma do som, readequando uma já muitíssimo bem acabada carpintaria ao novo paradigma sonoro, o Brasil teria que se redescobrir no durante, partindo do inacabado, tentando equilibrar influências americanas e européias ao desejo de expressão do nacional. O cinema brasileiro, pois, chegava ao sonoro sem antes se definir entre a narração e a expressividade.

E reside aí talvez o maior interesse no filme de Octávio Gabus Mendes: em Mulher há um forte desejo de narrativa que, no entanto, nunca se concretiza de fato, deixando espaços, indefinições e arestas que, graças à força da imagem, à paixão expressiva sempre implícita, acabam por reconstruir o sentido do filme em chave poética no que o filme remonta, por exemplo, a Jean Vigo, que parece ser uma das matrizes expressivas de Mulher.

No filme, vemos as desventuras amorosas da personagem vivida por Camen Violetta, essa mulher plena de amor, desejo e dúvida, que encerra em si o mistério essencial feminino cuja força conflitará e causará rachaduras na tradição. Aliás, esse jogo entre o libertário e o aprisionador se dá, aqui, de maneira bastante peculiar: enquanto na dimensão da prosa o filme tem ares bastante conservadores, em suas aberturas poéticas emana um forte sentimento libertário. Ou seja, na dialética de Mulher, se o texto aprisiona, a imagem liberta.

O filme antevê, portanto, o que veríamos pouco depois em Ganga Bruta, tanto no que diz respeito a um Humberto Mauro, fotógrafo do filme, buscando encontrar poesia nos corpos e espaços angulados, quanto na própria carpintaria dramatúrgica (lembremos que Octávio Gabus Mendes seria o roteirista da obra basilar de Mauro). Cabe ainda aludir à montagem, que parece transitar entra a perceptível influência do formalismo russo e a tentativa de equilibrar e organizar a narrativa. Ou seja, em meio à titubeante progressão do enredo, criam-se espaços autônomos de construção de sentido, fazendo com que o filme funcione melhor quando fruído sob o prisma desses jogos de força sensoriais e expressivos do que como uma narrativa aparentemente clássica.  Enfim, um grande filme imperfeito, que nasce do impasse, da inadequação, da mistura entre uma certa ingenuidade empreendedora e um talento latente, cuja força ultrapassa as estruturas e que transforma limitação em potência criadora, o que, aliás, podemos dizer de boa parte dos grandes filmes brasileiros.

Filmes Citados:

Mulher (Otávio Gabus Mendes/1931)

Ganga Bruta (Humberto Mauro/1933)

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