
por Marcelo Miranda
A primeira série de curtas-metragens da 5ª CineOP foi a típica sessão de um festival na qual o dedo da curadoria faz toda a diferença. A cargo de Cássio Starling Carlos e César Guimarães, a seleção dos trabalhos foi acertadíssima na forma como os colocou todos juntos, valorizando o conjunto para muito além dos trabalhos isolados. Isso porque a maioria dos curtas aqui apresentados dificilmente se sustentariam sozinhos ou inseridos numa sessão menos cuidadosa, podendo ser facilmente engolfados por projetos minimamente superiores.
Numa edição da CineOP em que se relembra o cinema brasileiro dos anos 30, marcado, entre outros elementos, pela ascensão do som e dos diálogos nos filmes, a Série 1 de curtas veio oportuna ao apresentar uma diversidade de experimentos nos quais som e imagem funcionam como “entidades” que dependem um do outro sem necessariamente se renderem entre si. Em todos os oito filmes, tenta-se desvincular o que se ouve do que se vê mantendo um sentido amplo de entendimento. É a busca por uma terceira via de sensação e emoção: o espectador ouve uma coisa, assiste a outra e “junta” os dois sentidos. Nada de muito novo pelo menos desde Eisenstein e suas teorias nos anos 20, mas algo sempre instigante de se acompanhar e refletir a respeito – mais ainda num universo audiovisual contemporâneo em que certa fatia de produtores e espectadores ainda exige “respeito” ao real e à sincronicidade.
É curioso que o menos interessante filme da seleção seja “Silêncio, Por Favor” (Filipe Matzembacher), em que a temática da surdez busca introjetar no público as sensações de quem não ouve, mas termina por se render aos mais típicos lugares-comuns desse tipo de proposta de “imersão” no universo particular dos surdos-mudos. Quem ainda aguenta cortes bruscos no som para representar a perda da audição?
Por outro lado, “A Banda” (Chico Lacerda) radicaliza seu próprio procedimento ao cortar completamente qualquer tipo de som ao longo dos 20 minutos de filme. O que temos são apenas as imagens de uma parada gay em Recife nos seus detalhes mais intimistas e cotidianos – gente dançando, pulando, namorando, se agitando, descansando. Dois aspectos destoam “A Banda” do restante da sessão: primeiro, a crença total no material captado, explicitada na longa duração do filme e na falta de pudor em colocar na tela gente comum e fora de qualquer padrão universalizante de beleza (nisso, vem à mente a pequena obra-prima “Faço de Mim o Que Quero”, de Petrônio Lorena e Sérgio Oliveira, também de Pernambuco); em segundo, a criação de pequenos achados visuais, nos quais a câmera trabalha como reveladora de objetos e corpos, criando falsas impressões sobre o que vemos para logo em seguida desmontar as nossas crenças; há ali um claro questionamento do verdadeiro sentido que se dá a determinadas imagens e de como olhamos para elas achando estarmos certos do que elas nos mostram. Sem som, é necessário apenas abrir os olhos.
“O Homem Dela” (Luiz Joaquim), certamente o projeto de maior afetuosidade no trato de sua linguagem dentre os exibidos na sessão, utiliza pinturas de Edward Hopper e música de Billie Holiday para criar um improvável (e, na forma como Joaquim o faz, absolutamente coerente) diálogo entre os dois artistas. É aquele típico projeto mágico: não existe nada demais; trata-se de algo que qualquer leigo senta no computador de casa, faz e lança no YouTube. É na sensibilidade do realizador – o tempo de cada quadro de acordo com a voz da cantora, os sutis efeitos de animação, a própria “viagem” que o filme proporciona – que reside o efeito estranho causado por “O Homem Dela”.
“Orawa” (Felipe Barros) é outro filme a proporcionar forte experiência de embate som versus imagem. O que se assiste é indefinido nos primeiros minutos, enquanto uma composição erudita pode ser escutada claramente. Linhas se encontram e se separam, hiatos num espaço misterioso se abrem, algo acontece. A câmera dá rápidos e discretos movimentos laterais que revelam os braços de um maestro, e o espectador percebe estar testemunhando um concerto do lado contrário ao tradicional e num ponto de vista mínimo e profundamente expressivo. Bravo.
Os meios de comunicação ganham espaço em dois trabalhos. “Frequência” (Jader Maia) utiliza o rádio como forma debochada de expressar outro sentido às suas imagens, que captam o dia a dia de uma grande metrópole (no caso, Belo Horizonte). A tentativa de humor do que se fala no dial nem sempre é funcional, e o uso do preto-e-branco apenas dá um ar de sensacionalismo ao que se mostra. É estranho. Já “Poética” (Sidney Schroeder) tem a televisão como mote e brinca com superposições de imagens “cultuadas” – filmes clássicos, por exemplo – dentro do quadrado de transmissão da TV. É tão crítico quanto ingênuo, mas funciona dentro de suas próprias limitações.
O mesmo se pode dizer de “Exercício de Fotografia” (Paula Um Mi Kim), em que se reproduz uma brincadeira de pantomima sem maiores novidades. O uso talvez abusivo de legendas – na ânsia desesperada de provocar humor com piadas escritas, e não encenadas – quase destrói o filme. Resta um pouco de ingenuidade na simples tentativa de se fazer esse exercício, algo claro desde o título.
Por fim, “A Paroxítona de Ofélia” (Rogério Farandola) consegue ser bastante inventivo numa bizarra animação, em que o uso de letras, sons e imagens (quase todas nonsense) ganham sentido amplo a partir de uma premissa estapafúrdia (o amor “ortográfico” por uma prostituta). Entre tosquices, cultura pop, analogias apocalípticas e referências sexuais, é um trabalho positivamente maldito, o mais ousado da série, ainda que não seja tão rico na problematização entre som e imagem que permeou todos os filmes.
FILMES CITADOS
O Homem Dela (PE, Luiz Joaquim)
Silêncio, Por Favor (RS, Filipe Matzembacher)
A Banda (PE, Chico Lacerda)
Orawa (SP, Felipe Barros)
Frequência (MG, Jader Maia)
Poética (RJ, Sidney Schroeder)
Exercício de Fotografia (SP, Paula Un Mi Kim)
A Paroxítona de Ofélia (RS, Rogério Farandola)