
por Rafael Ciccarini

Em uma seleção feita de altos e baixos, certamente esse filme coreano se coloca, honrosamente, na prateleira de baixo. Ainda que tenha seus momentos, é um filme envelhecido (como sua protagonista), cuja longa duração e lentidão de seu andamentos jamais são justificados expressiva ou dramaticamente, pelo contrário, só colaboram para a sensação de tédio frente a tanta obviedade e redundância sentimentalista sob o véu de “poesia” e “sensibilidade”.
Em Poetry acompanhamos Mija, uma avó solitária, que vive e cuida de seu ensimesmado neto e divide seu tempo entre as tarefas domésticas e o trabalho de enfermeira, que faz para complementar uma renda consideravelmente pequena. Em busca de algo que a faça sair do estado de melancolia e solidão em que se encontra, matricula-se em um curso de poesia. Nesse meio tempo, enquanto anda pelas ruas, presencia uma mãe desesperada à beira do corpo da filha – que havia se suicidado.
Adiante, sabemos que tal garota era vítima de um grupo de colegas, que constantemente a estupravam na própria escola. E mais, Mija fica sabendo, por um dos pais dos colegas, que o neto é um dos envolvidos. Tentando evitar um escândalo envolvendo polícia e imprensa, os pais dos rapazes querem fazer um acordo financeiro com a mãe da garota: ocorre que Mija não tem condições financeiras de arcar com o acordo. Além disso tudo, é diagnosticada com Alzheimer.
Ocorre que Poetry fica perdido no meio do caminho entre um filme de gênero (drama) e o famigerado “filme de arte”. Nem investe com força e coragem nas questões que potencialmente se desprenderiam do roteiro, nem tem força poética suficiente para dar calor aos seus tépidos 140 minutos de duração. O filme, curiosamente, parece com seu próprio personagem, que a todo tempo pergunta aos colegas e professores: “como fazer uma poesia?”, “como ter inspiração”? O filme é como Mija: deseja o tempo todo ser evocativo e inspirado, mas não consegue sair de sua melancólica apatia.
Paralelamente à trama, por exemplo, somos submetidos a intermináveis sessões de leituras de anotações, confissões e esboços de poesia dos colegas de turma de Mija, em cenas que se pretendem sensíveis, como se Lee Chang-dong tivesse fôlego para, além na narrativa principal, conseguir momentos de singularidade e beleza a partir de relatos daquelas pessoas. No entanto, se a própria narrativa não consegue manter sua força, os relatos paralelos, expositivos e entediantes, são ainda mais cansativos, funcionando contra o próprio filme.
Se o filme tem um ou outro plano marcante – e tem – ele fica perdido em meio à ausência de uma mise-en-scene minimamente rigorosa. Sem uma amarra estética mais firme, as imagens vão se perdendo uma a uma, no vazio do “plano bonito”, na armadilha do símbolo fácil. Há que goste, creio. O próprio cinema coreano tem um representante bastante análogo a esse exercício de apatia cinematográfica, Kim-Ki Duk, que tem, por sua vez, número considerável de fãs. Cada um com seu cinema. O meu, diga-se, está bem longe daqui.
*Visto no festival de Cannes 2010.
Filmes Citados:
Poetry (idem,2010/ Lee Chang-dong)