
por Marcelo Miranda
O longa de estreia de Marcelo Laffite é muito fácil de desgostar. Sua montagem é truncada, a encenação por vezes é primária, algumas piadas não têm timing, a dramaturgia lembra (maus) especiais de televisão e os conflitos centrais são resolvidos com incômoda pressa. Mas, se olhado com um pouco mais de afinco, Elvis e Madona possui diversos pontos de interesse. Logo de início, basta ficar nos erros elencados acima: vários deles estão presentes também nas comédias mais interessantes e populares da pornochanchada dos anos 80, especialmente as cariocas. Era justamente esse descompromisso com a “qualidade”, em valorização ao desbunde visual e anárquico, o que mais refletia o estado de emoção da sociedade brasileira daquele momento – ou, ao menos, as sensibilidades de quem fazia cinema no período.
Uma outra questão a rondar Elvis e Madona e impossível de ser ignorada é a ousadia temática. Temos uma comédia de situações na qual os protagonistas são uma lésbica burguesa que sai de casa e vai trabalhar como entregadora de pizza na noite paulistana e um travesti ex-ator pornô, agora cabeleireiro e vítima de achaque de algum cafetão infeliz. Da combinação improvável, brota um romance, cujo ápice é a gravidez da lésbica. A certa altura, a personagem leva o “namorado” para visitar os pais de classe média, e o que se tem é uma das cenas mais políticas e corajosas do cinema contemporâneo brasileiro. Por mais tropeçada que seja a encenação de Laffitte, o diretor consegue dar conta de um manancial de relações e insinuações contidas neste encontro – em especial a falsa adequação do travesti, que chega vestido de “homem”, mas em momento algum consegue esconder toda a sua feminilidade; e o monólogo da mãe, interpretada por Maitê Proença.
É claro que, por si só, a temática não é legitimação suficiente para Elvis e Madona. O que mais encanta e surpreende no filme é como Laffitte desenvolve o ponto de partida. Temos aqui claramente um filme a favor de seus personagens, que os trata sempre como figuras palpáveis, aproximando-os do espectador por chaves assumidamente grosseiras, mas sem cair no pastiche puro e simples. As piadas (engraçadas ou não) nascem dos choques culturais entre as várias figuras em cena, mas nunca se devem à condição sexual deles – que seria o caminho natural de um trabalho como este. Hora alguma há questionamentos sobre suas orientações, nem isso se transforma numa questão (muito pelo contrário: os funcionários do salão de beleza são muito bem resolvidos, a ponto de soarem caricatos). Eles são o que são, e tanto as demais pessoas do enredo quanto o público precisarão aprender a conviver com isso durante a projeção.
O procedimento é muito diferente das “comédias globais”. Vide, por exemplo, a cena em A Mulher Invisível na qual Selton Mello tenta desesperadamente se livrar da voz de Luana Piovani, que insiste em atormentá-lo: ele se senta e começa a escrever sua própria história. Há uma confusão de sentimentos na relação com quem assiste: a cena é toda feita para rir, mas vemos ali, na tela, um personagem sofrendo neuroses das mais profundas. Ri-se dele, não com ele. É um momento especialmente cruel de um filme quase totalmente equivocado em suas escolhas estéticas e narrativas. É, em suma, um filme contra seu personagem.
Em Elvis e Madona, a questão gira sempre em torno de como resolver as crescentes confusões nas quais se envolve o casal central. Ainda que a opção de Marcelo Laffitte seja pela conciliação, o caminho até lá passa por algumas resoluções de tensão real e drástica, tudo apresentado com uma doçura muito particular. A entrega dos dois atores (Igor Cotrim e Simone Spoladore) é um ponto positivo da experiência, já que eles se desprendem de quaisquer imagens anteriores (especialmente Spoladore, em chave completamente distinta do habitual) para abraçarem as personalidades que encarnam.
O parente mais próximo de Elvis e Madona no cenário recente das comédias brasileiras talvez seja Casa da Mãe Joana, trabalho maldosamente subestimado de Hugo Carvana. Ambos dão uma boa sessão dupla de como fazer o elogio da malandragem e da liberdade em tom chanchadeiro, popularesco e com o mínimo de categoria e convicção.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes citados
Elvis e Madona (Marcelo Laffitte / 2010)
A Mulher Invisível (Cláudio Torres / 2009)
Casa da Mãe Joana (Hugo Carvana / 2008)