Pacific, de Marcelo Pedroso

por Ursula Rösele

A facilidade da captação de imagens nos dias de hoje é um fato irrefutável e claro, já óbvio, rotineiro. Nos tornamos feitores de pequenos filmes, vídeos caseiros, produtores de registros de praticamente tudo o que acontece ao nosso redor. Em Pacific, o diretor Marcelo Pedroso faz uso dessa característica contemporânea aliando o porte de câmeras por diversas pessoas que viajavam em um cruzeiro por Fernando de Noronha num iate chamado “Pacific” a uma montagem construída a partir da composição das imagens desses vários passageiros ao longo de suas férias.

O filme traz duas questões principais: o auto-registro é fato, sabemos; porém, quando aquelas imagens foram capturadas – ao menos segundo informações contidas no próprio filme – aquelas pessoas não sabiam que posavam para um futuro filme, mas para um registro caseiro, despretensioso, satírico. A segunda questão a se pensar se dá na junção dessas imagens, que – após a permissão de seus donos – foram montadas por terceiros, não participantes de nenhuma daquelas situações e/ou circunstâncias.

Temos, portanto, um filme que é resultado de um processo alheio a um roteiro, aparentemente surgido da percepção do diretor (imagino também passageiro do iate) daquela situação constante ali dentro - várias pessoas portavam câmeras a todo tempo. Outro ponto relativo a isso se dá numa realidade contemporânea: as câmeras nos permitem a eternização dos nossos momentos, mas a preocupação constante em torná-los eternos afasta aqueles que as capturam da oportunidade de realmente vivenciá-los. Nossos olhos se transformam na lente da câmera e deixamos de olhar como virgens da situação, para nos tornarmos constantes caçadores do plano ou do registro ideal.

Apesar da já curta metragem do filme (73 minutos), o assunto me parece muito passível do fácil esgotamento. Há, obviamente, momentos deveras divertidos (como o casal que faz mini clipes de performances próprias ao som de músicas de motel; o plano estático de duas mulheres encarando a câmera enquanto tomam drinques com guarda-chuva e, claro, as impagáveis performances dos funcionários dançando enquanto jogam vôlei, tênis, etc), mas acredito que as refleções que o filme proporciona certamente poderiam ser percebidas em um média metragem de mesmo tema como forma de evitar as repetições inevitáveis de “personagens” fazendo as mesmas coisas e contando as mesmas piadas, uma junção dos mesmos padrões narrativos – poses, filmagens para o espelho, imagens do mar, etc.

Um dado curioso de Pacific se dá pelo fato das pessoas que fazem aquela viagem parecerem vir da classe média, o que destoa obviamente de nosso ideário de consumidores clássicos de iates e cruzeiros. Essa aura – apesar de eu não fazer ideia de como se dão as atividades em um cruzeiro para os mais abastados – perpassa de certa forma por todo o filme e dá a ele um ar muito mais divertido, pois a concretização desta até então impossibilidade de realização de uma viagem daquelas está impressa em cada manifestação daqueles viajantes para as câmeras que os rodeavam a todo tempo. Para eles, havia a realização de sonhos, uma rotina que sugere uma outra condição social, o que, certamente, colabora para impulsionar ainda mais seus interesses de registro e de auto-mise en scène.

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Filme Citado:
Pacific (idem, 2009/Marcelo Pedroso)

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