
Homem Doin, de Fausto Junior
por João Toledo
Homem Doin já denota em seu próprio título a ideologia cinematográfica que rege seu projeto, se é que se pode chamar essa ideologia de cinematográfica. Trata-se de uma animação de apelo popular, guiada por uma mistura entre o popularesco, folclórico e uma idéia de humor absolutamente apelativa e vazia de qualquer pensamento sobre o mundo. Um homem feito de amendoim, que possui um pênis de amendoim, se apaixona por uma mulher feita de milho. Não há nada além disso a ser dito. O desdém que o filme provoca não tem qualquer relação com sua (falta de) qualidade técnica/estética. O tosco não condiciona defeito. O vazio de sua proposta, sim.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Pescaria de Merda, de Coletivo Santa Madeira
por João Toledo
O filme Pescaria de Merda traz uma questão (e não necessariamente um problema) inevitável que vem da gênese do seu projeto. Existe uma intenção de discurso político que independe do filme – poder-se-ia haver um excelente filme que documenta o processo de catar objetos no rio pinheiros e expô-los numa vitrine no centro da cidade, mas não há um projeto estético que rege o filme. Há ali uma documentação aleatória de um processo que parece importar muito mais enquanto ato do que enquanto imagem, e o resultado disso é um filme em que se trabalha muito a imagem na montagem, explorando o registro ruidoso e acentuando essa característica para criar perturbação. No entanto, a perturbação é tão óbvia quanto o discurso, e a força de impacto de seu resultado (pessoas se defrontando com os objetos lançados no rio) não chega a nós. Entre o espectador e momento real, existe a mediação de imagens pouco provocadoras, ou provocadoras de uma maneira banal.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Alguém Tem Que Honrar Essa Derrota, Leonardo Esteves
por João Toledo
O filme de Leonardo Esteves se inscreve muito fortemente sob o signo de um certo cinema, marginal, sucateado, que entrou em combustão espontânea na década de 70. O problema é que existe aqui uma simulação de várias das estratégias deste outro cinema, deste outro tempo, que não necessariamente são hoje conseqüências das dificuldades que envolvem o processo de produção. A falta de sinc sonoro, a dublagem propositalmente deslocada, os rompimentos espaciais dentro de um mesmo momento cênico, o próprio uso do preto e branco, são todas coisas regidas por uma repetição nostálgica que homenageia de forma leviana.
Existe, sim, a idéia de discutir o cinema contemporâneo e mesmo a “derrota” de um projeto estético que foi abortado por um momento triste da história, mas é uma discussão que não propõe nada. Cria momentos realmente interessantes, especialmente engraçados, mas se perde em seu próprio passadismo, em sua melancolia escusa.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Pastoreio, de Alexandre R. Garcia
por Leonardo Amaral
Na cidade de Curtiba, pastores tocam ovelhas pela cidade, pelas ruas e parques, a cidade pára (literalmente) para a passagem dos animais. O filme são essas situações e o estranhamento por elas causada, mas também o registro do cotidiano desses homens fora de sua atividade. Alexandre R. Garcia vai até a casa deles, não existe necessariamente depoimentos, ao contrário, são captadas os instantes e as pequenas falas do cotidiano. Pastoreio trabalha em cima desse estranhamento, do mistério daquelas ovelhas que passeiam pela cidade. Não existe explicação, elocubrações acerca da profissão e situação estranha, esse é o grande mérito do curta.
*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes
Fome de Bola, de Isaac Chueke
por Leonardo Amaral
A princípio, Fome de Bola seria um filme sobre o clássico entre Santa Cruz e Sport, mas, com o decorrer do curta, torna-se algo sobre a própria cultura futebolistica de Recife, com a construção de vários personagens, como o ex-jogador do Ibis (pior time do mundo) Mauro Shampoo, que atualmente trabalha como cabeleireiro. Em que pese um certo tipo de conotação irreverente nas entrevistas, o filme - ao adotar uma estética bastante amadora, com câmera na mão o tempo todo, entrevistas típicas de reportagem de TV - também demonstra um tom bastante verdadeiro e carinhoso em relação ao que procura registrar. E quando filma a partida em si, não sai tanto de sua ambientação, torna-se um filme muito interessante, por ter um olhar que foge ao ângulo convencional para retratar o jogo numa ambientação bem mais cinematográfica, intercalada com entrevistas com os torcedores durante lances crucais do jogo, com imagens dos rostos e da torcida a cantar e uma narração da partida no rádio que trazem um caráter ainda mais lúdico para o curta de Isaac Chueke.
*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes Citados:
Homem Doin (Idem, 2009/Fausto Junior)
Pescaria de Merda (Idem, 2009/Coletivo Santa Maria)
Alguém Tem Que Honrar Essa Derrota (Idem, 2009/Leonardo Esteves)
Pastoreio (idem, 2009/Alexandre R. Garcia)
Fome de bola (idem, 2009/Isaac Chueke)