
por Marcelo Miranda
No cinema de Cao Guimarães, o encontro com o outro ou com um algo torna-se quase sempre a centro da atenção de quem assiste. Não interessa ao cineasta simplesmente registrar o que acontece à sua frente – ou à frente da câmera. Ele se interpõe no processo, “incomoda” a realidade, interfere nos aspectos mais banais de elementos aparentemente desimportantes numa primeira avaliação. O caso de A Alma do Osso é ainda mais especial, porque Cao vai até o alto de uma área de pedras para acompanhar o dia a dia de Dominguinhos, ermitão de 72 anos sem qualquer tipo de contato com o mundo exterior a ele.
A Alma do Osso jamais se torna um filme puramente documental que recorta algum fragmento do real, pois lhe seria impossível fazê-lo. A presença da câmera como elemento físico naquele ambiente tira do espaço a sua aura essencial e o faz objeto da criação e modelação de uma nova realidade – a realidade de dentro da imagem, aquela a qual testemunhamos de dentro do cinema. É uma questão ontológica: o filme apenas existe porque há essa interferência da câmera; ela é a intrusa que vai se posicionar diante de Dominguinhos e de tudo que o cerca e acompanhar cada movimento.
Torna-se óbvio, portanto, que mesmo podendo não ter consciência do que seja aquele objeto (a câmera), Dominguinhos se travista de uma outra persona pela simples presença de outras pessoas no seu espaço original. Alguém manipula o equipamento, alguém faz perguntas ao ermitão, alguém circula em seu território, alguém o mostra bocejando. Como Andrea Tonacci já disse certa vez, por mais que o objeto seja destituído de quaisquer vícios de olhar, logo ele deixa a inocência completamente de lado ao tomar consciência de que a sua imagem pode ser desvinculada do seu verdadeiro eu. Ou seja, o objeto documentado não precisa necessariamente soar autêntico ao estar de frente a uma câmera – afinal, jamais será possível comprovar sua autoficção, pela impossibilidade do registro sem o equipamento. A verdade será sempre a que está na imagem, por não existir fora dela.
A Alma do Osso incorpora todo esse processo nos seus arranjos estéticos, sem que isso se transforme numa questão de linguagem. Inexiste a noção de dispositivo, carta de intenções ou exposição de significados. Cao Guimarães chega pronto ao local, posta a câmera e a deixa rodar, em longuíssimos planos das atividades de Dominguinhos. Os créditos do filme, inclusive, se rendem ao ritmo do ermitão e só vão aparecer com quase meia hora de projeção. A primeira fala do personagem, apenas aos 45 minutos. E assim a relação câmera-personagem-espectador se desenvolve, sem qualquer tipo de compromisso em parecer algum tipo de registro totalmente autêntico e compromissado com uma realidade a qual não se teria acesso.
Basta, por exemplo, perceber como Dominguinhos, atento ao fato de estar sendo ouvido (e filmado), narra “causos” deliciosos, indo e vindo através de sua memória e da forma peculiar de falar. Ele mistura tempos, lugares, pessoas e elementos históricos, mas a essência do que ele diz é cristalina. As histórias – inclusive a que dá nome ao filme – são significativas sobre a forma como Cao se entrega àquela figura, mas não se rende a ela. O filme é de Dominguinhos, mas é também de Cao Guimarães. Seria hipocrisia fingir que ele não subverte o espaço do ermitão tanto quanto procura ser, ao máximo, fiel a ele. Contribuem para isso o excelente trabalho sonoro, a cargo da dupla O Grivo, e o rigor quase imperceptível com que o diretor faz os enquadramentos, ora valorizando a paisagem natural, ora se aproximando subcutaneamente a Dominguinhos.
No desfecho, filme e personagem se encontram, no embate do ermitão com a sua imagem. Ali, talvez por um instante mínimo, Dominguinhos retire a máscara da encenação e da autoficção, naturalmente criadas no confronto com a câmera, e, no correr de uma lágrima solitária naquele rosto cravejado das marcas de uma vida à qual não tomamos contato nem conhecimento, ele seja, enfim, profundamente autêntico. O filme é a verdade, seja ela qual for.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes Citados:
A Alma do Osso (Cao Guimarães/2004-2010)