

por Ursula Rösele
O cinema contemporâneo – e principalmente o brasileiro - tem se debatido como nunca no terreno complexo em que a realidade e a ficção se confundem. Termos como processo, dispositivo, ética, risco do real, etc, têm sido pontuados até aproximarem-se do esgotamento, e para dizer de alguns filmes que trafegam neste terreno, podemos pensar em Santiago, Jogo de Cena, Moscou, Filmefobia, Serras da Desordem, 33, Passaporte Húngaro, Jesus no Mundo Maravilha, Juízo – e poderíamos seguir citando esses filmes em que o gênero “ficção” ou “documentário” vira mera nomenclatura - denominação necessária, porém, nada redutora (e/ou reveladora) da amplitude que esses filmes podem alcançar.
Em A Falta que nos Move, apesar de poder-se construir um discurso de sua proximidade com alguns desses filmes - por partir de um dispositivo para caminhar rumo a este tão falado “risco do real” que Jean-Louis Comolli evocou em suas reflexões acerca do cinema documentário -, traz elementos que, unidos, são responsáveis pela criação de uma obra de extrema originalidade, estranheza, novidade. Esta falta de narrativa, do sexto personagem, de um roteiro seguido de maneira inteiramente fiel que parece mover a narrativa vem de diversos elementos neste universo em que ao menos a ideia de real está perpassada, como uma “aura Big Brother”, o encaminhamento do potencial máximo da encenação quase que na crença de que ao provocar a ficção ao extremo, acabamos, finalmente, por esbarrar nesse tal “real” tão buscado nas criações cinematográficas atuais.
O que há de curioso neste filme – um dos elementos diante dos vários que o permeiam – é a despreocupação em esconder os procedimentos por trás da produção. Logo em seu primeiro plano, temos uma rápida imagem do que parece ser uma sala de edição com algumas televisões e um off: “começou o filme”; e ao final, uma lista com os procedimentos de filmagem aparece na tela desvendando as estratégias utilizadas nas gravações. Uma casa no Rio de Janeiro é a locação na qual cinco atores passarão uma noite de natal esperando uma suposta sexta pessoa para um jantar. Ao longo das 12 horas em que os cinco dividirão aquele espaço, mensagens de celular chegam a todos eles com diretivas que nós espectadores desconhecemos. Na parede da cozinha há as receitas do jantar. Na dispensa, diversos papéis com o que parecem ser direcionamentos das cenas que eles interpretarão.
Mergulhamos, portanto, em um universo de profunda mise-en-scène, com um trabalho espetacular dos três (de quatro disponíveis) operadores de câmera que, conduzindo-as na mão, seguem atrás desses personagens o tempo inteiro. O filme é bastante decupado, repleto de cortes que – possibilitados pela presença das três câmera e movimentação dos operadores – conseguem registrar de forma intensa as ações e reações de praticamente todos os personagens ao longo do processo. Esta espera pela sexta pessoa desencadeia os eventos, uma vez que os atores não tinham informação alguma de quem viria e se alguém de fato os acompanhariam para o jantar.
A força motriz deste filme está centrada nos atores. Ao deixar claro o processo, Jatahy abre espaço para que possamos nos concentrar de fato nas encenações, como forma de percebermos, ainda que de forma difusa, os instantes em que este “real” à espreita dê as caras. A Falta que nos Move foi originado de uma peça de teatro dirigida por Jatahy com nome homônimo e o acréscimo “Todas as Histórias são Ficção”. Nela, os mesmos atores se viam no palco à espera dessa sexta pessoa que, por não chegar, faz do espetáculo não uma encenação de algo ensaiado, mas a ação e reação de atores e público diante da impossibilidade de começar o espetáculo.
Ao transpô-la para o cinema, Jatahy tomou o cuidado de fazer algumas mudanças (como o celular, os papéis norteadores) que dão ao filme o ar de cinema que o retira do potencial risco de parecer apenas uma peça teatral filmada. A referência do teatro é fortíssima, claro, evocando inclusive Tchecov, principalmente se pensarmos na obra recente de Eduardo Coutinho, Moscou. Por se tratarem de atores assumidos, os limites entre real e ficção tornam-se ainda mais complexos, pois sabemos que eles estão ali para atuar, o que dificulta a percepção dos momentos em que eles saem do terreno da encenação. Aliás, toda essa discussão atual sobre esses filmes comentados acima giram em torno desses limites – e outras complexificações, claro – mas no caso de A Falta que nos Move, temos à nossa frente a chance de acompanharmos um incrível exercício de encenação e esta cena de que falamos se transformar em algo para além dessas questões apenas. Se filmar é entrar em “fricção com o mundo”, como diz Comolli, Jatahy, ao realizar uma fricção do atuar com o ser, constrói um filme instigante, provocador desses limites que tanto nos confrontam e certamente merecedor de um olhares outros e mais atentos.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes Citados:
A Falta que nos Move (idem, 2009/Christiane Jatahy)
Santiago (idem, 2007/João Moreira Salles)
Jogo de Cena (idem, 2007/Eduardo Coutinho)
Moscou (idem, 2009/Eduardo Coutinho)
Filmefobia (idem, 2009/Kiko Goifman)
Serras da Desordem (idem, 2007/Andrea Tonacci)
33 (idem, 2002/Kiko Goifman)
Passaporte Húngaro (idem, 2003/Sandra Kogut)
Jesus no Mundo Maravilha (idem, 2007/Newton Cannito)
Juízo (idem, 2007/Maria Augusta Ramos)