

por João Toledo
Estamos dentro de um pequeno barco. À deriva ou em busca de algo? Trajetória oscilante, incerta, marcada de luz. Vai-se em direção à luz, ou é a luz que encontra, enfim, esse pequeno barco perdido num oceano de desterro, esquecimento ou dormência. O plano é ele próprio um filme, um cinema, uma síntese de um pensamento de cinema, e o mais fundamental é estarmos aqui dentro dele, é pertencermos, e não observarmos de fora, de longe, com a distância de quem investiga o passado. Ao longo do filme, o passado é todo vivo, todo presente – não se trata de um processo arqueológico que tem o cinema como ferramenta, mas de um processo de reencontro com aquela luz, com aquela imagem que ainda pulsa, plena de força política, estética, plena de cores que foram desbotando com o tempo mas que ainda clamam por brilho, pelo espaço branco de uma tela e pelo olhar atento de quem ama o cinema.
É impressionante perceber no filme o desinteresse por discursar sobre o passado ou mesmo por desvendar as circunstâncias que tornaram possível e conseqüentemente impossível a realização daqueles filmes, daquela forma, naquele tempo. A investigação passa por um retorno às imagens e são elas que discursam, sem muita mediação, sobre seu passado, elas mesmas apresentam sua força e denotam suas circunstâncias. Dos poucos entrevistados que ouvimos, não há qualquer esforço para que se crie uma distinção entre uma e outra voz; não há cartelas os diferenciando, e raramente a imagem de alguém ilustra a voz que narra um passado. Trata-se de uma voz apenas, uma voz única; eles ali são todos um, criando um discurso uníssono.
A voz do Guará em cena, do Bressane hoje, do Sganzerla no passado, a voz de Helena ou de Jairo diante de Mojica, são todas feitas da mesma mistura, do mesmo ímpeto produtivo que criou a Belair, que criou um novo cinema, absolutamente fértil em solo podre, arruinado. A Belair é uma contradição em curso, um cinema do impossível feito possível pela insânia de gênios. Aquelas pessoas que orbitaram em torno da produtora, tão diferentes, tão heterogêneos, conseguiram encontrar na amizade, no amor pelo cinema e na crença na transformação um espaço comum que os tornou uma voz que até hoje ecoa, por todas as imagens que restam, desgastadas, arruinadas pelo descuido com o passado.
E é especialmente bom ver que esse eco tem se tornado cada vez mais forte e esse passado cada vez mais presente. Trata-se, afinal, de um filme sobre o hoje, sobre a indistinção do tempo no cinema, sobre esse eterno presente que vive nos grandes filmes, nos filmes eternos. E é especial assistir a Belair - sobre uma produtora completamente desviante – em uma mostra como Tiradentes, uma mostra absolutamente propositiva, que aponta caminhos a partir de um jovem cinema que emerge em um contexto muito marcado por um cinema oficial, o cinema de incentivo fiscal.
Torna-se, portanto, menos amargo o retorno às lindas imagens de Sganzerla e Bressane quando assistimos a filmes como Estrada Para Ythaca, um cinema que extrai a mesma vitalidade das circunstâncias precárias que o rondam. Ao mesmo tempo, esse choque entre os dois filmes não leva a um estado de acomodação; Belair é um filme extremamente provocador, e, nesse sentido, motivador pois nos escancara a caretice que se tornou nosso cinema, um cinema sem identidade, sem expressão particular. Há exceções, sempre houve, e sempre haverá. O que fica de Belair é essa vontade de retorno às imagens, vontade de que elas estejam presentes fortes, que incitem nos realizadores do cinema brasileiro aquilo que existe neles de mais íntimo, de mais potente, de mais pulsante e vivo.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Filmes Citados:
Belair (Idem, 2009/Noa Bressane, Bruno Safadi)
Estrada Para Ythaca (Idem, 2010/Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti)