Curtas Série 6 - Mostra Panorama: Urânia, Pendular, Vigília do Amor, Avenca, História Triste de uma Praieira e Rio de Mulheres

Urânia, de Felipe David Rodrigues, Oswaldo Martins e Alexandre Faria

 

por Leonardo Amaral

 

Urânia é uma experiência de forma, seja através da palavra, ou esteticamente por meio das imagens, em planos fechados e animações. Urânia também seria o caminhar em direção ao misterioso,a um novo. Eis uma narração em off que acompanha a sucessão de imagens, palavras narradas (ou declamadas) pelo seu próprio autor, que é também um dos diretores do filme. Felipe David Rodrigues, Oswaldo Martins e Alexandre Faria tem o mérito de não realizar um filme que se escravize apenas à poesia, a imagem poética recursive, quase retórica. O curta trabalha na justaposição de imagens que não procuram ilustrar as palavras, não existe obviedades nessa experiência de cinema.

 

*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Pendular, de Julia Murat

 

por Leonardo Amaral

 

Pendular possui uma estrutura interessante: é claramente narrativo, vemos lá o casal em seus momentos de intimidade, vemos a evolução de suas ações, mas, ao mesmo tempo, essa narratividade se constrói nas síncopes, calmarias e exarcebações daquele momento. A montagem muitas vezes dá essa dinâmica, na maneira como corta e recorta aquela realidade diegética, mas, no curta-metragem de Julia Murat a construção está dentro do próprio plano, na articulação dessa mise-en-scène: a tensão sexual torna-se por vezes a tensão emotional, o conflito do casal, para, depois, tornar-se novamente lascívia. Essa nessa estrutura nitidamente pendular (como bem descreve o próprio título do filme) permeia todo o filme, a opção por essa forma para além da simples montagem afirmada acima dão força maior ao curta.

 

*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

História triste de uma praieira, de Ana Moravi

 

Por Leonardo Amaral

 

Ao colocar, no título de seu filme a palavra ‘história”, de alguma maneira, Ana Moravi remete a uma reminiscência, e não uma anedota, um dito popular. As imagens, expressas por sua estética que parece dar a elas um caráter ainda mais passadista, reforçam esse desejo de lembrar. Se pensarmos aqui na música inserida, por vezes constituídas apenas por ruídos, podemos começar a adentrar ainda mais aquele universo. Eis o ultimo dos elementos, a montagem, que procura estabelcer um ritmo ao curta, que casa com a música que escutamos, como se nos colocasse também presentes naquele universo, participássemos daquele momento, compartilhássemos daquela lembrança. História triste de uma praieira é a contemplação desse momento, por mais triste que seja.

 

*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Vigília do amor, de Camila Leite

 

por Leonardo Amaral

 

É possível fazer aqui uma problematização: até que ponto a montagem de Carlosmagno Rodrigues, que carrega em si toda sua estética bastante pecular, seu cinema do “eu”, não faz do filme de outrem um filme de Carlosmagno. É bastante forte essa vinculação, perigosa eu diria, exatamente por poder esvaziar o que o curta em si pode (ou poderia) ter de bom, de si próprio. Se pensamos ainda que no filme estão pessoas do convívio cotidiano de Carlosmagno, que são, inclusive, personagens recorrentes em sua obra, aproximação se mostra ainda mais possível.

 

Camila Leite aposta, ainda assim, nessa estética, por achar que ela é a melhor maneira de trazer para o espectador aquilo que deseja retratar cinematograficamente. Estão lá os elementos todos supracitados, mas está lá também os elementos que são exclusivamente da diretora. Ao que pese essa vinculação à fórmula pronta e fácil, momentos como a televisão em primeiro plano ao som de Ne me quitte pas, dão ao filme aquilo que ele ainda pode ter de idiossincrático.

 

*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Rio de Mulheres, de Joana Oliveira e Cristina Maure

por João Toledo

 

O filme de Joana Oliveira e Cristina Maure é acima de tudo um filme que se enquadra. Se enquadra dentro do que se espera – ou se tem esperado – do cinema mineiro, dentro de paradigmas diversos de um cinema de olhar poético e sensível para a realidade. O filme se desenvolve muito ao redor das personagens, e nunca a partir delas. Ele circula as mulheres, mas não as aborda. A experiência estética deveria bastar, talvez? Mas talvez isso que se percebe aqui como problemático esteja menos no filme e mais em quem o observa. No entanto, um certo desgaste das estratégias de abordagem infelizmente torna a experiência menos particular na sua fruição, e o contexto torna o paralelo inevitável.


Há um discurso – que emana mais da montagem do que propriamente de uma articulação de câmera – que parece vender a idéia de um cotidiano de repetição e vazio; pesar o ritmo do filme parece ser a intenção maior dos
fades que separam cada um dos dias da semana. Por outro lado, o filme não quer produzir discursos; ele se contenta em observar o mundo de suas personagens. Trata-se de uma vertente que não deseja se impor com suas pré-concepções e visões de mundo, e que almeja dar voz àqueles sujeitos normalmente ignorados ou negligenciados em alguma medida.

 

Ora, mas aquelas mulheres em nenhum momento reivindicam o poder de fala; elas não tomam a voz, não parecem particularmente desejosas de se expressar. E o filme, em meio a essa dupla negação, torna-se oco, desprovido de força e direção, de sentido e proposição, de expressão. Tanto é que se torna necessária – ainda que disfarçada de homenagem – uma sentença ao final, que nos revela o motivo da ausência masculina e da predominância de mulheres na comunidade.  E o desinteresse dessas mulheres pela enunciação parece se explicar pelo simples fato de elas não enxergarem (como não poderiam) nada demais em seu cotidiano, não vêm ali nem a poesia nem a estranheza – que se apresenta apenas no olhar estrangeiro, no olhar de quem chega com um projeto prévio cujo ponto de partida é justamente essa estranheza. Não se trata de fugir do próprio olhar; estamos, afinal, inegavelmente presos a ele. Talvez a questão seja de fato aceitá-lo e abraçá-lo como tal; ou seja, torná-lo visível, dar ao olhar sua devida voz.

 

É inevitável indagar sobre a motivação de Rio de Mulheres e seu processo de criação. Me parece tão claramente um filme movido menos por uma pulsão cinematográfica que por uma intenção sociológica. Quer dizer, a questão do Jequitinhonha tem estado em evidência e sido privilegiada por editais vários de estímulo à produção cultural – numa espécie de mea-culpa doente que tem a ver tanto mais com política que com produção artística, e que só faz tornar nossa cultura guiada e, por conseqüência, restrita, acuada, limitada. Ora, não bastasse essa guia invisível do estado, os artistas ainda dispensam sua voz na tentativa de imprimir uma certa pureza à observação passiva. Na época dos Lumière talvez fizesse mais sentido, ou fosse possível alguma pureza – o último pintor impressionista, diz Godard e retoma Aumont. Mas hoje? A imagem já não se separa da mercadoria tão facilmente.

 

Interessa-me compreender, pois, a mudez voluntária de certo cinema mineiro contemporâneo. Desses artistas, tão altruístas dando voz ao outro, me interessa saber se no fundo não se fundam em certo descaso pela realidade. Ser passivo é ser generoso? A intervenção é necessariamente egoísta e irresponsável? O cinema é impuro por essência – através de quê ele move ou transforma o mundo? Mas, acima de tudo, porque é que – sem perder a sagrada generosidade que lhes é particular – esses cineastas não reclamam de volta sua voz, seu olhar próprio (e não ausente), porque não visitam o outro atravessados por si mesmos?

 

Não seria a criação, afinal, um ato de nudez? Isso tudo me lembra o amanuense complicado de Cyro dos Anjos, a quem a vida fecunda, fazendo-lhe conceber qualquer coisa que mexe no ventre e reclama autonomia no espaço. O que é que tem fecundado essa nossa gravidez? De quem estamos grávidos? Quem é que fala por nós? Pra onde foi nossa voz?

 

*Visto no Forum.Doc.BH 2009.

 
Filmes Citados:

Urânia (idem, 2009/Felipe David Rodrigues, Oswaldo Martins e Alexandre Faria)

Pendular (idem, 2009/Julia Murat)

Vigília do Amor (idem, 2009/Camila Leite)

Avenca (idem, 2009/Erly Vieira Jr.)

História Triste de uma Praieira (idem, 2009/Ana Moravi)

Rio de Mulheres (idem, 2009/Christina Maure e Joana Oliveira)

 

Leia novidades instantâneas em nossoblog.