
Dois Mundos, de Thereza Jessouroun
por Leonardo Amaral
A premissa do filme de Thereza Jessouroun é de partir do universo dos surdos para mostrar a relação deles com o mundo, com aquilo que não podem escutar, ou, no mínimo, pouco ouvem. O desafio é difícil, refletir em imagem a ausência dos sons. A opção de Dois mundos é pela sensação, nos planos de passos na areia, da onda, junto com os depoimentos dos personagens. A poesia das imagens por vezes se esvazia, mas as experiências narradas pelos surdos é a grande força do filme, como da menina que, após um implante auricular, começa a escutar os primeiros sons e nos compartilha a experiência, ou do rapaz que à noite é drag queen. Ele circula na boate, e a câmera, ao acompanhá-lo, ressalta melhor esses dois mundos do que as imagens que procuravam ser poéticas.
* Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.
CEASA, de Arnaldo Belotto
por Leonardo Amaral
Há um certo tipo de documentação audiovisual no Brasil que se propõe a filmar o trabalho com enquadramentos não-convencionais, como se quisesse encontrar lá um novo tipo de observação diferente, um novo ângulo sobre o fenômeno. Algo que remete a uma revisão de um primeiro cinema, mas diferente na maneira de se conflitar os elementos em cena. No entanto, essa observação, depois de alguns planos articulados na montagem, passam a ser uma visão quase vazia em relação ao seu objeto.
* Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.
Os Inocentes, de Davi Kolb
por Gabriel Martins
A estrutura de Os Inocentes trabalha a fragmentação de uma experiência. Se esta experiência é a de um momento, a da classe média ou a da própria praia, difícil dizer. Idéias se misturam, se complementam, e terminamos por ter composta uma obra de estranhamento completo com seus objetos. A dublagem contribui com isso, assim como a textura pictórica obtida no filme (pelo uso de, provavelmente, película 16mm). Irregular, Os Inocentes tem como seus melhores momentos o tempo passado com a família central – o carro e a praia, principalmente com a menina pedindo para o pai enterrá-la, são momentos particularmente felizes e bastante cômicos que contribuem para o sucesso do filme.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Avaca, de Gustavo Rosa de Moura
por Gabriel Martins
Idéias simples, minimalistas, são sempre instigantes. Ver como um grande número de mensagens e provocações são passadas em pouco tempo sempre encanta na constatação de como o cinema potencializa a vida. Avaca é um filme bastante tenso que inverte uma sequência com o fim de trazer desconforto ao espectador. Uma vaca é destroçada em um matadouro, mas o processo é mostrado em reverso, efeito “voltando a fita”. Gustavo Rosa filma a violência de um paradoxo, a reconstrução que surte efeito tão ou mais trágico que a destruição. Com isso, Avaca se torna incômodo, provocando um direcionamento na nossa percepção: vemos a carne tal como compramos em um açougue para, nesse reverso, ver progressivamente se reconstituir em um ser vivo. Uma bela idéia do básico que potencializa sua mensagem através de artifícios puramente fílmicos.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Reverso, de Francisco Colombo
por Gabriel Martins
Um plano sequência que busca uma substituição de identidades discutindo, com isso, uma problemática social. Se de um lado a estratégia sociológica inevitavelmente contida no subtexto soa um pouco óbvia, o exercício de linguagem de cinema proposto ali já demonstra um caráter mais interessante. A câmera, que passeia pelos personagens, sabe criar tensão a partir do tempo, explorando a situação pela sua claustrofobia através de uma tomada que não se acaba. Vai de rosto a rosto, esse filme de causa e conseqüência que, mesmo sofrendo problemas inerentes a uma possível mensagem que carrega consigo, tem na câmera uma potencializadora do suspense.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
O Plano do Cachorro, de Arthur Lins e Ely Marques
por Gabriel Martins
Curioso título, que entenderemos ao final do filme. Um cão observa dois homens brigando, briga que nasce no começo do filme quando um deles urina no outro. Este cão observa estarrecido – sim, existe esta e outras emoções no tal “plano do cachorro” – dois seres humanos transformados em animais, agindo como animais, bestializados a partir de atritos entre emocional e racional. Mas este último se esvai, e resta a perseguição. Cão atrás de cão, se tornam estes dois homens. Resta nada mais além do chão, do sujo e o patético: ironicamente, o humano.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes Citados:
Os Inocentes (idem, 2009/ Davi Kolb)
Avaca (idem, 2009/ Gustavo Rosa de Moura)
Reverso (idem, 2009/ Francisco Colombo)
O Plano do Cachorro (idem, 2009/ Arthur Lins e Ely Marques)
Dois mundos (idem, 2009 - Thereza Jessouroun)
CEASA (idem, 2009 - Arnaldo Belotto)