Curtas Série 5 - Mostra Foco: Quarto de Espera, Bailão, Faço de Mim o que Quero e Recife Frio

Quarto de Espera, de Bruno Carboni e Davi Pretto

por Ursula Rösele

 

Se há um termo que me ressoou ao longo de toda sessão 3 de curtas do CineBH (2009), este termo é: transtorno. Há uma inabilidade inerente, uma insatisfação que não se sabe muito verbalizar, que tornou a sessão quase insuportável – positivamente, se é que isso é possível. Em Quarto de Espera, como se imagina de tal condição ensejada pelo título (ainda mais uma cuja razão pelo esperar o espectador desconhece), basicamente nada acontece. Esperas em si contêm esse fardo do incômodo, do intolerável; não há muita necessidade de exemplificações.

 

Fato é que em Quarto de Espera há um rapaz com uma máscara de gás que, ou está em seu quarto, ou vagando por uma cidade cuja plástica realmente induz à sensação da falta de ar. Este rapaz busca oxigênio a todo tempo e só o que ouvimos dele é o som impaciente de seu respirar. A cidade parece evocar somente o desgosto e só o que resta a ele no encontro com outras pessoas é a agressão. O estado do filme, ainda que se denomine de “espera” parece de constatação enfurecida da incapacidade de alteração daquele estado. Falta ar, falta cor, falta lugar e, claro, falta diálogo.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

Bailão, de Marcelo Caetano

por Ursula Rösele

 

É delicioso poder assistir a uma expressão tão verdadeira não somente de uma memória de certa forma melancólica, mas ainda presente, desse grupo de homossexuais na casa dos 50, 60 anos, que conseguiu, nos dias de hoje, uma espécie de redenção do preconceito e prisão cultural vividos no passado. Expor uma situação que já foi bem mais delicada, mas ainda gera desconforto em alguns em plena praça de Tiradentes me pareceu o acerto desta curadoria. Bailão não é um filme que se pretende revelador de nada ou daqueles que levantam uma bandeira de revolta diante de um fato. Infeliz, porém fato. Houve atitudes preconceituosas mesmo na praça de ontem à noite, mas se pôde ver – e ainda bem -  uma abertura para algo tão natural e singelo que é uma bobagem temer e/ou reagir de forma negativa.

 

O afeto contido ali denota um certo alívio (nos retratados) pela possibilidade de vivência de uma orientação sexual que é a daqueles personagens, que não se furtam a olhar para a câmera e dançar ao redor dela – que, aliás, aceita de pronto o convite àquela dança e se infiltra no salão com muita naturalidade. Bailão, na realidade, é um olhar apenas, para algo que há, para algo que é sincero. Ao abandonar a estrutura tradicional de entrevista e de fato fundir imagens da cidade de São Paulo com os offs que lamentam a ausência dos que já foram e contam suas histórias, o diretor Marcelo Caetano dá vida a algo que é vivo ainda que tantas vezes proibido, que pulsa e ainda se permite despedir de uma forma tão delicada (a dança final entre o casal vista de cima da boate) que eu lamento por aqueles que se ausentaram da sessão.

 

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Faço de mim o que quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena

por Leonardo Amaral

O primeiro plano, no qual uma câmera está colada a um carrinho de Cds itinerante, mais do que iniciar um passeio, estabelece uma adentramento em um universo conhecido mas desapercebido. Escutamos as músicas de tecno-brega, e, goste-se ou não, elas estabelecem uma relação de bastante proximidade com aquelas pessoas que dançam em frente a câmera, que performam para ela. Faço de mim o que quero é um show, e em momento algum duvida disso.

Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena filmam mais do que um movimento, adentram uma cena: bastidores, públicos e artistas face a face, sem máscaras. Linda a cena em que vários frames em freezes apresentam um casal em conquista, ao som da música que fala sobre casais que se encontram em bailes tecno-bregas. Cada frame é um retrato, uma situação posada. O casal troca olhares, ele a toma pelos cabelos, eles deitam na areia, se beijam. Montagem que opta pela construção do movimento, princípio do cinema, que se dá de acordo com a música, com o ritmo. Em uma gravação de um programa de televisão, mais uma vez a construção, movimento de inclusão que passa pelos bastidores do programa, captação de todo o fenômeno, mas que o prepara da forma que ele realmente é, um espetáculo. Faço de mim o que quero é um documentário musical.

Ao final, durante os créditos escritos nos corpos de dançarinas, a representação do que representa o filme, a valorização do movimento, da sensualidade e da própria música. Faço de mim o que quero, bem diz o título do filme, a liberdade presente na frase é o retrato fiel a ele:  liberdade de deixar a câmera se levar por aquele universo, fazendo exatamente o que se quer, sem preocupações e conotações.

* Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho

por Marcelo Miranda

Num festival de cinema, nem sempre o cinema propriamente dito é a base central dos filmes exibidos – em Brasília, então, alguns temas costumam ganhar mais espaço que as suas formas. Eis que nos surge Recife Frio, novo curta-metragem de Kleber Mendonça Filho, exalando cinema, estética, experimentação, política. O melhor de tudo: todos esses elementos surgem na tela não como questões, mas condições dadas, prévias e bem resolvidas. Os procedimentos e artifícios de Recife Frio existem como fundamentação presente, sem necessidade de serem emulados dentro de sua estrutura. É cinema que acredita ser cinema e só existir como cinema.

Irônico isso se dar num filme cujo ponto de partida é um programa de televisão. A narrativa de Recife Frio existe a partir da falsa reportagem de um canal argentino sobre o misterioso evento climático que transforma a capital pernambucana numa espécie de extensão da Patagônia. Esse documentário será desenvolvido em cima de ideias prévias e clichês sobre a representação e o imaginário de Recife como sendo um polo turístico marcado pelo calor desértico. A partir desse dado prévio – já impregnado na mente de quem assiste ao filme –, Kleber faz troça sem cair na gracinha ou gratuidade. É a “armadilha” do filme: o humor vem não necessariamente de uma graça representada e encenada, ou na busca pela piada de timing “certeiro”. Ela toma forma no acúmulo de informações que circulam sobre o Recife, desconstruindo esse manancial de referências na chave da fantasia e com absoluta desenvoltura.

Recife Frio marca sua superioridade por ser um filme resolvidamente acabado. Diferente dos trabalhos vistos até aqui em Brasília – com melhores ou piores resultados –, o de Kleber Mendonça não tateia nem busca algum “resultado”. Ele é, existe e está definido: cada cena, plano, corte, som, tudo existe no filme, e ponto. A opção pelo “mockumentary” liberta o cineasta para mergulhar fundo na premissa e tirar dela o máximo possível de resultados pertinentes, alguns de excesso, outros mais ambíguos, todos inseridos na carne audiovisual do que nos é apresentado.

Kleber, também crítico de cinema, tem relação íntima com imagens de um modo geral. Ele pensa em termos de imagem não apenas os filmes que faz e assiste, mas principalmente o mundo que o rodeia. Fico sabendo, em conversa particular com o diretor, que os pinguins em Recife Frio foram filmados na África do Sul. Poderia ser algum trecho de algum programa do National Geographic, mas não é. Kleber, viajante contumaz, sabe a importância do registro e da infinidade de usos possíveis para o que se pode registrar em qualquer lugar. O uso disso pode ou não vir a existir. Importa mais que aquilo armazenado na câmera esteja potencialmente à disposição do artista. Crítico, o longa de Kleber, nasceu dessa relação: ao encontrar cineastas e jornalistas mundo afora, o diretor gravou as entrevistas que geraram o documentário. Noite de Sexta Manhã de Sábado brotou das imagens de uma mulher amiga de Kleber, filmada na Ucrânia, e de um homem amigo seu, registrado no Recife.

Da pulsão brotada dessas imagens captadas ora intencionalmente, ora por aparente motivo algum, surgem filmes. Vinil Verde, mesmo pensado totalmente sob o conceito da ficção, sem “imagens prévias”, é estruturado numa sequência montada através de fotografias. Eletrodoméstica dialoga com Vinil Verde pela presença quase absoluta da ficção, e sua presença do externo está na ambientação de um bairro tipicamente classe média: não precisam mais que dois ou três planos gerais para identificarmos todos os elementos característicos dessa realidade dada. É um procedimento dos que mais me fascinam, por exemplo, num realizador como Werner Herzog, com quem Kleber Mendonça nem parece buscar referenciais – ao menos não diretamente, dando predileções a nomes igualmente fortes, como Stanley Kubrick e George A. Romero, ambos muito bem “representados” em Recife Frio de maneira insuspeita.

A consistência com que Kleber consegue mexer esse acúmulo de elementos captados por suas câmeras faz dele um cineasta no sentido pleno do termo, quer seja, o realizador apaixonado pelo que está do outro lado da lente e que, num estranho “impulso controlado”, concatena e compartilha aquelas ânsias imagéticas como se não estivesse fazendo nada demais. É o cinema como molde de novos sentidos e experiências a quem faz e a quem assiste. O discurso cantado por Lia de Itamaracá no memorável desfecho de Recife Frio serve bem ao que Kleber Mendonça parece estar declamando em seu filme: “Minha ciranda não é minha só; ela é de todos nós”. 

*Visto no 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Filmes Citados:
Recife Frio (idem, 2009/Kleber Mendonça Filho)
Crítico (idem, 2008/Kleber Mendonça Filho)
Noite de Sexta Manhã de Sábado (idem, 2006/Kleber Mendonça Filho)
Eletrodoméstica (idem, 2005/Kleber Mendonça Filho)
Vinil Verde (idem, 2004/Kleber Mendonça Filho)
Quarto de Espera (idem, 2009/Bruno Carboni e Davi Pretto)
Bailão (idem, 2009/Marcelo Caetano)
Faço de Mim o que Quero (idem, 2009/Sergio Oliveira e Petrônio Lorena)

Leia novidades instantâneas em nossoblog.