

por João Toledo
Pode ser extremamente tentador observar o longa metragem dos irmãos Pretti e primos Parente buscando desvendar o manancial referencial do filme, para enquadrá-lo dentro de um contexto e, assim, em tese, compreendê-lo. No entanto, essa tarefa ao mesmo tempo fácil e impossível pode esvaziar o que há de mais particular na criação dos irmãos tornando-o um retalho de pistas que no fundo nunca se somam. Trata-se claramente de uma obra profundamente marcada pelo cinema, por todo ele. E não apenas marcado por uma estética que se pega emprestado como quem adota uma imagem, mas por um pensamento estético que passa por uma política de cinema, por decisões que implicam em toda uma ideologia de seu próprio modus operandi. E isso, essas decisões de uma estética profundamente íntima, mas também sempre política, diluem a idéia da amálgama de referências, pois o filme se torna um filtro transformador, e tudo o que passa por ele perde sua origem e se torna destino.
Ainda que seja um longa, o filme se enquadra perfeitamente dentro de questões que permeiam o atual panorama de curtas brasileiros. A idéia de uma produção jovem que parte muito de si, que explora questões que lhe são caras, pessoais, íntimas, que olha pra si, para o seu universo - o que implica quase naturalmente uma transição para a frente das câmeras - é comum a toda uma recente produção. Não se trata apenas de um facilitador, mas de um desnudamento fundamental de um cinema que enfim reflete sua realidade, de uma entrega que apenas reflete o quão fortemente pessoal é sua busca. O processo dos personagens no filme não é apenas crível, é verdadeiro. A morte, desculpa narrativa para criar uma espécie de gatilho da odisséia, se justifica apenas no sentido de reforçar a proximidade dos quatro, de torná-los quase um só. E eles viram um só na medida em que se tornam filme, compartilham todo o processo, dividem autoria.
Trata-se, de alguma forma, de um filme mais vivido que atuado – parece-me quase certo que as cervejas foram todas tomadas, que não se trata de direção de arte, de construção, mas de processo. E o processo é essa entrega inevitável ao cinema do terceiro mundo, o cinema do precário que é sucata de tudo e é novo ainda assim, que é um mundo tão generoso, mas ao mesmo tempo árido, seco, cujo espaço para se compartilhar não possui qualquer conforto. Sua estética não dá ao espectador nenhum alívio, dá a ele um espaço para sentar no universo dos personagens, na sua paisagem dura, permite que compartilhe da busca com todas as dificuldades inevitáveis de uma aventura pobre. Sua riqueza é saber compreender a potência de seus recursos, e dos detalhes que compõem o trajeto. Nenhuma paisagem ali é pano de fundo, todo o espaço é vivido.
Na encruzilhada, onde os personagens precisam optar entre o caminho do desconhecido e o do cinema do terceiro mundo, quase não hesitam e caminham firmes e despreocupados para Ythaca, em direção ao rumo que já estava tomado desde o princípio, ao lugar que não importa, pois seu destino é, ele próprio, trajetória. Ythaca não é fim, não é ponto de chegada, não é conclusão. Ythaca é um sentimento, um encontro talvez. Do início ao fim, de um bar a outro, mesma cerveja, mesma precariedade, o que há de novo ali são todas as experiências, é todo o filme, o que eles descobriram, como se amaram, se perderam, se ferraram, é como foram abduzidos, e como descobriram um caminho, um caminho maravilhoso e único. Aquela encruzilhada onde uma placa aponta para Ythaca só existe para eles, e é só deles a escolha, é só deles a cidade, o bar. O filme é de todos nós.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Filme Citado:
Estrada Para Ythaca (Idem, 2010/Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diogenes, Ricardo Pretti)