Série Cena Mineira – Mostra Panorama: Mulher-bomba, Moto.continuo, Narcolepsia, Bifurcation, Marisqueiras de Cabuçu, Kombucha, Polis e Bala na Cabeça

por Gabriel Martins

 

Encontramos hoje em destaque no cinema mineiro de curtas-metragens (e talvez de longas também) basicamente dois pontos, ou propostas, distantes. Um, segue um rumo mais próximo à pesquisa de linguagem, explorando vertentes como a vídeo-arte, vídeo-instalação e documentário experimental – se é que estas atribuições ainda fazem algum sentido. Na sessão Série Cena Mineira este “grupo” estava representado por Mulher-bomba, Moto.contínuo, Bifurcation, Marisqueiras do Cabuçu e Kombucha. O outro ponto seriam os filmes mais narrativos, propostas ficcionais engendradas por seus roteiros. Na sessão estavam representados por Narcolepsia e Bala na Cabeça. Polis, por mais que esteja mais próximo do primeiro grupo, é uma espécie de caso à parte na sessão (algo a ser discutido posteriormente no texto). Aos filmes:

 

Mulher-bomba busca ser uma espécie de filme-manifesto, uma resposta à violência através de uma imagem carregada de simbologias. Convive ali na representação daquela mulher diante de um céu não só uma ironia da simbologia bela das cores que levam a um fim trágico como o próprio jogo final, terminando por contrastar a morte com a paz. Igor Amin, que cada vez mais afirma seguir uma vertente “multimídia” – no sentido em que pensa o audiovisual como uma amálgama de referências do contemporâneo para além da tela -, faz aqui uma pílula intensa que, por mais que seja inferior a outros trabalhos seus mais expressivos como Diver Grandpa, revela uma grande vontade de criar imagens.

 

Algo que acontece em Mulher-Bomba e se repete em mais dois filmes da sessão é a apreensão do mundo através da abstração e repetição. Isso acontece em Moto-contínuo e Bifurcation. Com estas estratégias, os cineastas parecem reproduzir uma constante do mundo contemporâneo – máquinas, processos contínuos, rotinas – fazendo, através da observação repetitiva de processos, uma evocação à liberdade criativa plástica. Bifurcation flerta abertamente com tomadas de posição da arte contemporânea – muito fortes a partir dos anos 60 – em que o processo de construção e as propriedades físicas constituintes da obra (na pintura e escultura isso é mais concreto e palpável, obviamente) eram seu próprio foco. No cinema isso provavelmente se reflete na relação de composição de imagem, ela como individual e além da construção de sentido contínuo de cinema clássico. Vale dizer, entretanto, que existe, mesmo sendo uma provocação, certo esgotamento deste tipo de proposta no cenário atual. Talvez após um grande número de estratégias próximas a estas nos últimos anos o cinema peça hoje algo além, algo novo, talvez um próximo processo difícil de dizer, no momento, qual é – resta descobri-lo.

 

Embarca um pouco nesta vertente o filme de Sávio Leite, ainda que resguarde mais valores do documentário e da imagem enquanto experiência passageira de seu autor. Infelizmente o filme perde na sua curta duração e na estratégia de obscurecer parte do quadro, efeito que parece meio deslocado enquanto tentativa de afirmação de algo. Parece-me pouco o tempo de processamento de imagens, o que deixa um vazio na soma da experiência desse filme que, diferente de outros do próprio diretor, não transmite emoções nem no processo de construção e nem na própria imagem, no registro daquelas situações. Um surto, que soa como um grande condensamento de idéias e registros que talvez fossem mais interessantes com um tratamento – e isso não quer dizer ritmo - mais calmo.

 

Marisqueiras de Cabuçu, filme que tem flertes com o cinema de Cão Guimarães, tem como proposta o encontro com as mulheres que dão título à obra. É um encontro distanciado fisicamente o que dá um posicionamento curioso ao diretor. O olhar de Gabriel Sanna define claramente o lugar seu de compositor de imagens e observador, compondo belos enquadramentos (principalmente quanto utiliza de reflexo e horizonte). Um exemplar que, mesmo não sendo tão impressionante como outros filmes de orientação próxima, lembra que ainda é possível fazer do simples o belo.

 

Chegamos ao outro “grupo”, com Narcolepsia. Esta comédia de personagem consegue seu bom resultado muito pela personalidade de Gilberto Scarpa, figura altamente carismática que consegue levar o básico da idéia original a outro patamar. Seu personagem sofre da doença título do filme, que o faz dormir em várias ocasiões inusitadas - todas filmadas de maneira bem cínica. E debruçando-se nessa idéia de humor de situações e na performance de seu ator principal, o filme de Walfried Amaral consegue ter um bom resultado dentro dos limites de sua proposta.

 

Já em Bala na Cabeça o resultado não é tão positivo. Composto de fragmentos e retrocessos na narrativa, Cristiano Abud acompanha a agonia de um homem que tomou más decisões em sua vida em seus últimos momentos e agora se encontra em situação limite. O filme, bastante devoto ao seu processo de montagem, acompanha o off do personagem deixando-se levar pelo ritmo que ele impõe. Talvez o principal problema do filme está na maneira como não apenas parte do seu roteiro, mas tem a necessidade de voltar a ele o tempo todo. É um problema que acompanha diversos outros filmes (não só mineiros) e que parece ser uma constante repetição paradigmática que é inclusive defendida por muitos núcleos de produção.

 

A supremacia do roteiro, quando é um bom roteiro, pode gerar filmes de resultado satisfatório, de sucesso em júri popular e forte comunicação com o público. Mas eles serão isso, filmes bem resolvidos que dificilmente conseguirão ir além da sua estrutura, até porque eles parecem estar confortáveis em se prender nelas. No filme de Abud isso está claro na relação estabelecida entre o elenco, que parece estar sempre a favor de alguma mensagem superior trazida nas falas em off de seu personagem principal. Ainda que traga em si elementos interessantes como a fotografia de Luís Abramo, que joga com a luz e a câmera rompendo com uma iluminação convencional, tem-se no todo um projeto preso em uma estrutura que, ao contrário de Narcolepsia, pouco favorece o projeto.

 

De um lado, liberdade técnica e plástica, observação do mundo e, por vezes, alguns esgotamentos de proposta. De outro, projetos enterrados dentro de paradigmas que pouco flertam com um prazer de filmar o real, mas que tem grande comunicação com o público. Onde estaria o meio termo?

 

Polis, com tudo que tem de bom e ruim, parece transitar num caminho entre os dois lados. Claramente está mais próximo de um cinema contemplativo e de pesquisa, por assim dizer, o que seria o nosso primeiro grupo. Repetindo parte da proposta de Arquitetura do Corpo, Marcos Pimentel filma agora as cidades, tentando se dar conta de um panorama possível exprimido pela repetição e mecanização. Ele é o homem com uma câmera (Vertov está nos agradecimentos), mas também traz em si um quê de A greve, na sobreposição de sentidos que faz com o jogo de sua montagem. O interessante é que demonstra um enorme senso plástico para observar a realidade, deslumbrando-se com tudo que vê à sua frente e filmando com uma atenção enorme, realmente “vertoviano”.

 

De outro lado, é preciso pensar em como essa forma de filmar distanciadamente dos fatos, obviamente apontando questões como a globalização, o capitalismo e a aglomeração desta polis, faz com que Marcos talvez sufoque uma redenção ou libertação possível no filme. Ele quase traça esse percurso quando começa a filmar um pai com o filho brincando na ponte e casais beijando. Se investisse nesse momento, poderia fazer uma interessante sobreposição de sentidos e mostrar que é possível, com toda repetição e mecanização, ainda existir humanidade em meio ao excesso desse “tudo” que é uma cidade grande. Não faz isso, misturando a imagem da ternura à imagem do desumano. Fica para se pensar aonde exatamente pode-se chegar com essa estratégia.

 

Este é o nosso panorama, um espécime do que Minas parece ter a oferecer no agora. Nosso cinema, caminhando, certamente ainda está longe do que pode ser. Temos cineastas interessantes, muitas coisas acontecendo e um cenário crescente que promete persistir nos diversos circuitos. Resta nos olhar mais, nos pensar mais e ver uma possibilidade de ultrapassar paradigmas que talvez estejamos criando em alguns nichos, e isso vale para os dois grupos. Este panorama talvez não demonstre nem um terço do que aconteceu de melhor no cinema mineiros nos últimos tempos, mas certamente diagnostica muita coisa a se pensar. Pensemos pois, rumo a um contexto menos individual e mais colaborativo.

 

*Vistos na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Filmes Citados:

Mulher-Bomba (idem, 2009/ Igor Amin)

Moto.continuo (idem, 2009/ Marcelo Braga e Eduardo Zunza)

Narcolepsia (idem, 2009/ Wilfried Amaral Weissmann)

Bifurcation (idem, 2009/ Alexandre Milagres)

Marisqueiras de Cabuçu (idem, 2010/ Gabriel Sanna)

Kombucha (idem, 2009/ Sávio Leite)

Polis (idem, 2009/ Marcos Pimentel)

Bala na Cabeça (idem, 2009/ Cristiano Abud)

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