Terras, de Maya Da-rin

por Marcelo Miranda

O embate entre um posicionamento mais explícito e a descrição e exposição pura e simples é o que move o desenrolar das imagens de Terras. Na intenção de captar a ambientação física, afetiva e expressiva da tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, tendo por base as cidades de Letícia e Tabatinga, no coração da floresta amazônica, a diretora Maya Da-rin dá ao filme uma forma sempre tateante que coloca dúvidas ao espectador sobre o que se está, de fato, vendo e ouvindo.

São procedimentos sutis, que Maya evita deixar parecerem gratuitos. Sons invadem determinadas imagens, vozes dialogam entre uma cena e outra, texturas da natureza (chão, pedra, folha, árvore) parecem ter o mesmo tipo de formação e desenho visual, representando a ideia de coletivo apresentada pelo filme. Essa noção do conjunto, porém, está destituída de um olhar condescendente por parte da cineasta. Ela deixa que alguns entrevistados falem à vontade (ora mantendo a fala por minutos a fio, outras intercalando com os demais registros) e permite que surja desses depoimentos o que eles possuem de mais essencial.

A forma como Maya lança na tela a presença desses depoentes em Terras guarda ao menos três características muito caras ao tipo de cinema ao qual ela se propõe. Em primeiro lugar, não existe a identificação: nomes e profissões são omitidos, dando espaço, ao mesmo tempo, para o individual (porque quem fala é sempre único, nunca é apenas uma voz entre outras tantas) e ao conjunto (porque aquele que se dirige à câmera integra um universo bem mais amplo).

Em segundo lugar, Maya permite que esses entrevistados falem nos seus próprios ambientes. Não são eles a se adequarem ao que o filme propõe; é o filme que se adequa ao movimento desses personagens. Em táxis ou no meio da mata, as pessoas registradas pela equipe de Maya não abrem mão de seus próprios caminhos para falarem sobre eles mesmos. Há algo de muito político na definição dessa alteridade e de como ela, feita assim, é tão importante ao impacto provocado pelo filme.

Por fim, a presença corporificada dos entrevistados é um dado também de grande força. A índia, em especial, acumula em si – nos movimentos, nos olhares, nas pausas, no jeito ímpar como narra casos que lhe ocorreram ou lhe contaram – todo o manancial de relações que o filme estabelece entre diretora, câmera, ambiente, som, personagem e fala. A índia às vezes parece estar edulcorando uma história; em outras, ela soa profundamente sincera. Sob qualquer desses aspectos, o que vai importar é como isso bate no espectador e em como surge uma verdade daquele registro – não verdade no sentido de soar verdadeiro, mas aquele tipo de verdade no qual o conteúdo da fala ganha sentido a partir de tudo que o enquadra (gestos, no caso da entrevistada; liberdade do enquadramento, no caso da filmagem).

Estes corpos em seus espaços ganham na cena do baile uma intensidade quase táctil. Sem as falas das pessoas, vê-se apenas o rebolar, os pequenos embates físicos e afetivos, a música brega a modelar o ambiente, os flashes de um interstício na vida agitada da fronteira (que não pára nunca e mistura tudo, como se constata no bebê sendo amamentado enquanto ouve-se na trilha sonora uma composição de pura antologia).

No fim, Terras expõe em primeiríssimo plano os rostos de diversos anônimos, no momento mais próximo de um discurso demagógico que o filme possa ter. Maya Da-rin parece querer reafirmar, ali, o que passara o filme todo não explicitando. Se antes a ideia do único como parte do todo se dava pela concatenação de sons e imagens, aqui, neste desfecho, a possibilidade de um tom panfletário ameaça tomar conta do filme e empurrar para o lado as complexidades estéticas que até então desenvolvera de forma tão especial. Maya quase não evita o melodrama e o “coitadismo” nesses planos aproximados, mas consegue, pelo trabalho de som e a cena final propriamente dita, manter Terras como um atestado especial de um universo que, no filme, é regido por sua força do cinema como agregador de vida.

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Filmes Citados:
Terras (idem, 2010/Maya Da-Rin)

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