Sessão: Karim Aïnouz

por Marcelo Miranda

Sertão de Acrílico Azul Piscina

Num determinado momento de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, a câmera estática capta uma paisagem composta por um colchão, uma árvore e um bando de bois e vacas, todos inseridos na paisagem árida do sertão nordestino. De repente, após um tempo de contemplação, um homem surge no plano e toca os animais, fazendo-os se deslocarem lentamente de um canto a outro da imagem. Em Sertão de Acrílico Azul Piscina, há o mesmo plano, porém de duração menor, mostrando a cena já a partir dos bichos sendo espantados.

Essa pequena diferença no tempo do mesmo plano diz bastante destes dois trabalhos de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes – e os diferencia a partir de uma necessidade de que isso seja realmente feito. Num, a inserção de significados (o homem interagindo no meio); no outro, o desprendimento entre ambiente e “motivação”. Trata-se de dois filmes brotados numa mesma matriz: os registros da dupla de cineastas durante uma viagem sem rumo definido por diversos Estados no nordeste do país. Sertão de Acrílico Azul Piscina surgiu como um projeto desenvolvido para o instituto Itaú Cultural, logo ganhando vida própria ao percorrer alguns festivais de cinema.

É uma experiência de sensorialidade a partir de espaços e corpos acariciados pela câmera. Aïnouz e Gomes não criam qualquer tipo de relação lógica ou dialética para o que mostram. Acumulam as imagens uma após a outra, não necessariamente de maneira desordenada (porque inexiste uma ordem pré-estabelecida), mas de forma a tatear mais libertariamente algum tipo de organicidade provocadora de sensações. De um forró no qual dança um casal e seu bebê ao olhar enternecido de mulheres e homens a bordo de caminhões pela estrada, essa câmera tenta ser o mais afetiva possível, trazendo para o centro do plano esses ícones de uma natureza humana – e do humano inserido na natureza.

É diferente de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, que parte dessas mesmas imagens, mas articula (e, ao seu modo, controla) um discurso narrativo-emocional a partir delas. Continua não existindo uma ordem, mas já há um “motivo” a guiar o desencadeamento dos planos. É, talvez, um trabalho mais próximo do potencial da viagem dos cineastas – ou ao menos uma forma mais harmônica deles desovarem o material. Visto em perspectiva, Viajo... ganha esse peso, o que parece diminuir – mas bem longe de invalidar – o experimento de Sertão de Acrílico Azul Piscina.  

Seams e Paixão Nacional

A memória é elemento fundamental destes dois projetos de Karim Aïnouz. O média Seams resgata as lembranças e atitudes de suas tias-avós. É um filme profundamente pessoal, ao mesmo tempo em que capta todo um manancial de uma cultura do passado quase nada emulada no moderno século XXI. São depoimentos a respeito de amores, casamentos, negação de afeto, dúvidas, decisões de vida, proximidade da morte.

Ao mesmo tempo em que encara as lembranças de suas parentes, o próprio Karim encara a si mesmo, colocando no filme questões que parecem lhe angustiar sem que isso se torne uma questão interna. Está tudo lá, no desenrolar das falas e dos questionamentos do diretor. O que se desprende é um retrato ao mesmo tempo comovente e político de um estado de espírito – ou de vários estados de espíritos, sendo o de Karim um deles, expresso através de suas tias.

Paixão Nacional é outro exercício de busca de Karim Aïnouz, aqui falando ao estrangeiro num projeto realizado fora do Brasil (daí várias falas em inglês sem tradução). São imagens de onirismo paralelas a uma voz over que se desprende do que a câmera capta. Em alguns momentos já se pode sentir o cineasta que Karim se tornaria nos longas, em especial O Céu de Suely e seus trechos em super-8 – possivelmente o formato que remete à captação de memórias por excelência.

*Vistos na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Filmes Citados:
Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes / 2009)Sertão de Acrílico Azul Piscina (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes / 2004)
Seams (Karim Aïnouz / 1993)
Paixão Nacional (Karim Aïnouz / 1994)
O Céu de Suely (Karim Aïnouz / 2006)

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