
What do you think of me?, de Kika Nicolela
por Ursula Rösele
Em What do you think of me?, “Kika” se torna o dispositivo de sua própria obra. Através de um projeto itinerante em que a artista foi convidada a fazer cinco trabalhos na Finlândia, surge esta indagação, “o que você pensa de mim?”, em que a diretora se coloca defronte a câmera e a oferece a finlandeses que tinham a tarefa de não somente filmá-la, como tecer comentários a respeito da primeira impressão que lhes viesse à cabeça. Detalhe importante: tudo seria dito em finlandês.
O exercício de Kika explicita determinadas características do encontro entre diferentes culturas, permitindo que saiamos do terreno comum, ainda que norteado por comentários clicherescos típicos, como a cor de seus cabelos, seus olhos e ainda há espaço para um preconceito nem tão disfarçado, quando um homem (só ouvimos os offs dessas pessoas) compara a cor de seus olhos e cabelos com o café do Brasil, diz dela que possui traços indígenas, etc. O que o diferencia deste dito clichê, é a forma como as coisas se dão. Kika não compreende o idioma e reage provavelmente à expressão das pessoas e às – poucas – palavras que dão para compreender, como “carnaval”.
O imediatismo desses sentimentos é a essência deste curta, que explora as distâncias entre culturas e as possibilidades de proximidade que a câmera oferece, ainda que numa lógica do desconhecimento, em tempos de tão escassa comunicação que não intermediada por meios eletrônicos.
*Visto na 13a Mostra de Cinema de Tiradentes.
Sobre Distâncias, Incômodos e Alguma Tristeza, de Alberto Bitar
por Ursula Rösele
Uma câmera que registra, na ausência da presença humana, os traços do silêncio, das horas que passam e seus reflexos em objetos sem vida, porém, que refletem histórias e sentimentos passados, através de fotografias na parede, nas estantes. O ser ausente se encontra via representação e é o olhar da câmera que dá o tom desse silêncio cortante, único resquício de que ali, onde a vida já parece remota, há poesia, há movimento.
De alguma forma, Bitar realiza uma certa quebra nesse tempo tedioso que poderia ser evocado a partir da retratação daqueles vazios e sua estratégia é trazer elementos da natureza de extrema vivacidade (sol, nuvens, vento) para construir uma relação com o tempo que passa. O processo tem um tempo (real, minuto a minuto), o filme, após a montagem, tem outro. A câmera acelerada que parece registrar todo um dia, é a responsável por trazer àquele vazio a vida que nele falta: ali o passado parece dominar, portanto, através dos reflexos do sol nos objetos, do vento que move a cadeira de balanço vazia, as nuvens se deslocando do lado de fora, temos todo um ar de melancolia, porém, da presença do belo como que para homenagear esse passado remoto.
*Visto na 13a Mostra de Cinema de Tiradentes.
Calça de Veludo, de Ana Moravi e Dellani Lima
por Leonardo Amaral
O enclausuramento do personagem ao plano - quando esse insiste em se fechar em seu rosto, retirando qualquer possibilidade de que esse interaja com o entorno - quase sempre limita bastante a proposta de se filmar outrem naquilo que ele pode ter de mais interessante. Ao ir até a um bar da baixa Belo Horizonte (demominação dada pelo próprio filme), encontrar ali uma espécie de performer do cotidiano (em especial da noite), Ana Moravi e Dellani Lima acham o personagem para Calça de veludo. A partir de então, são as palavras desse personagem, Vidigal, que vão construir a diegese filmica. No entanto, colocações de outras imagens, efeitos estéticos que parecem querer mais, ir além,vão transformar tudo aquilo em algo bem menor, o personagem perde para a tentativa de efeito, ao invés de se construir junto à estética.
Vemos esse artista da rua, que se dilui diante de uma câmera que insiste no enquadramento de seu rosto, com exceção de quando ele fala (e fala de seus dentes quebrados) e a câmera se concentra em sua boca, como se quisesse ali se misturar às palavras para fazer parte de uma mesma coisa. No restante, seja nas imagens de fogos de artifícios a se arrebentarem no ar, seja na câmera que escapa do personagem, a constatação de que aquele ator colocado em cena tem muitos bons momentos, mas que Calça de veludo é exatamente isso, um filme de apenas bons momentos.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
A Montanha Mágica, Petrus Cariry
por Ursula Rösele
Na melancolia dos registros de Cariry, os rastros da infância desejada, em que o pai segurava suas mãos e o guiava em um parque de diversões, onde ele subiu tanto, tanto, tão alto, que caiu 15 metros. Há uma quebra de expectativa com aquele lugar que significa alegria, diversão, uma vez que a representação de Cariry nos conduz à percepção de um passado projetado, um olhar triste para o que ele queria que fosse e não foi.
Na realidade para além da representação fímilca, não era seu pai quem o segurava, mas seu padrinho. O olhar da câmera assume essa visão desencantada de sua infância, que poderia por ventura ser sua ou de outrém, nessa atualidade de produções cuja nomenclatura “ficção/documentário” de fato não passam de denominações para algo muito mais amplo e aberto.
É o olhar que, apesar de conter a tristeza do relato em off, solicita dos espectadores uma companhia naquele silêncio de um lugar de tantos barulhos, de tantos resquícios de infâncias muitas, que, com a ajuda da mise-en-scène daquela câmera que “passeia” por ali, evoca um ou vários passados de crianças que por ali caminharam, sorriram, deram as mãos num tempo que não volta mais.
*Visto na 13a Mostra de Cinema de Tiradentes.
Filmes Citados:
What do you think of me? (idem, 2009/Kika Nicolela)
Sobre distâncias, incômodos e alguma tristeza (idem, 2009/Alberto Bitar)
Calça de Veludo (idem, 2009/Ana Moravi e Dellani Lima)
A Montanha Mágica (idem, 2009/Petrus Cariry)
Olhos de Ressaca (idem, 2009/Petra Costa)