Morro do céu, de Gustavo Spolidoro

morro

por Leonardo Amaral

 

Gustavo Spolidoro tem em mãos uma bela combinação: personagens interessantes e um cenário espetacular. Estamos no interior do Rio Grande do Sul, numa cidade entranhada no meio das montanhas, de onde, do alto da casa da família Storti avistamos mares e mares de morros. Um filme de relevo, que procura adentrá-lo e compreendê-lo. Bruno Storti está ali, adensado à paisagem, em perfeita comunhão com o meio, seja na pequena oficina mecânica da família, ou entre os trilhos por onde não passa a locomotiva, passam pessoas, jovens que naquele lugar começam a entender melhor a vida, a conhecer as primeiras experiências do amor.

 

Morro do céu é um filme sobre o amor juvenil, ou melhor, da vida modificada por ele. A potência do longa está exatamente em não ser documentário, nem ficção, ser apenas um retrato de um jovem, um adolescente qualquer: “se quer ser universal, fale de sua cidade”. Bruno precisa passar de ano, e tenta ‘ficar’ com a menininha dos seus sonhos antes da chegada do carnaval. Morro do céu é o processo, o acompanhamento daquele cotidiano, tentando representá-lo de acordo com seu tempo: não por menos, temos uma câmera mais contemplativa, sobre o tripé, a captar as conversas dos personagens, retratos de uma vivência, a ser compartilhada com o espectador.

 

Há claramente uma decupagem e uma encenação proposta por Spolidoro, mas essa é de uma verdade impressionante, não só por os atores encenarem as próprias vidas, mas por existir uma possibilidade maior criada pela interação com a câmera de cinema. Há personagens, ficção que se imbrica na vida e vice-versa: aquelas pessoas dialogam, como se ali não houvesse um aparato técnico no exercício de captá-las. Eis a beleza obtida por Spolidoro: parecemos estar sempre em contato com a família Storti, seus amigos, sua cidade, a Cotiporã, onde habita sua ‘borboletinha”. Somos o vizinho mais próximo,convidados de honra, sentamos à mesa: a mãe de Bruno pergunta se ele está de paquera com alguém, ao mesmo tempo em que ele desconversa: somos os confidentes privilegiados daquela conversa, ao pé da serra, com montanhas e verdes das árvores a nos envolver.

 

Ao final, sonhos e decepções trazidos a conviver em um mesmo tempo: Bruno nos revela a vontade de ir à Itália (segundo o pai - personagem emblemático, retrato típico do gaúcho taciturno a beber seu chimarrão ao fim da tarde -, quase igual ao Rio Grande), e confessa ao amigo a tristeza de não mais poder ficar com a garota com quem gostaria namorar e para quem envia, em todas as noites, músicas pela rádio. Não estamos necessariamente diante de um realismo da câmera, mas o naturalismo que reside em Morro do céu nos encanta, nos arrebata, como se, de alguma maneira, quiséssemos continuar a viver junto aquelas pessoas, de participar da competição dos carrinhos off road a se encharcar de barro. “Morro do céu é aquela lugar que realmente está próximo do céu”, diz, ao início, um dos personagens.

 

Após o carnaval, da expectativa criada de algum envolvimento sentimental que acaba por não se concretizar: Spolidoro nos coloca diante dos pequenos dilemas de adolescente, mas que aqui nos é compartilhado de tal maneira que, ao final, dentro do trem, voltamos para a casa juntos com Bruno, a câmera nos une a ele, é o fim de uma trajetória, da qual, com certeza, vamos sentir saudades.


Filmes Citados:
Morro do céu (idem, 2009 - Gustavo Spolidoro)

 

 

 

* Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

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