
por Ursula Rösele
Diante das diversas propostas e tendências dos curtas-metragens brasileiros contemporâneos - ainda que se saiba das diferenças entre as curadorias que contemplam os diversos filmes exibidos anualmente na Mostra de Tiradentes – o interessante deste evento localizado em Minas Gerais, é a oportunidade de se acompanhar as produções a partir de olhares que compõem as sessões de forma harmônica, ainda que respeitando as diferenças e particularidades de cada filme exibido. Nesta segunda sessão de curtas, algumas palavras e sentimentos parecem perpassar essas obras, unidas num conjunto com similaridades possíveis de se perceber e também uma certa unicidade de construção estético-narrativa. O afeto as une, traçando um caminho ao longo da sessão que sugere a perda, as dissonâncias em relação ao mundo, a intimidade, os gestos de carinho que denotam uma precocidade bonita de se ver. Aos filmes, pois.
Sobe Sofia, de André Mielnik
No imperativo que dá nome ao filme, um desejo maior de uma ascenção que permite algumas libertações. Sofia sobe ao topo de seu prédio diariamente e, com todo um horizonte à sua frente, silencia suas dores e as sentimos de maneira por vezes metafórica (uma rotina fora de foco, uma solidão que a persegue), por vezes verbalizada através do encontro de um possível parceiro, para o amor, ou mesmo para possibilitar uma companhia que a alivie desse estar só constante.
Sofia quase não fala. Sua juventude não parece tão diferente das juventudes de todos, em que a escola por vezes é o pior lugar e o lar não promete o relaxamento pressuposto. Uma mãe, ao que parece, doente. Ainda mais silenciosa que Sofia, ela segue absorta numa espécie de inevitabilidade do fim. Esta mãe parte e Sofia, de costas, chora.
Este seu “subir” fica suspenso, não revelado. Mas ainda há, no início desta “sessão do afeto”, uma promessa de um outro lugar.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Feito Pedra, de Adélia Jeveaux
Em Feito Pedra, a noite vira dia e o dia é tempo de dormir. Uma estética que relembra algumas construções de Chris Marker – fotografias unidas de forma a quebrar a ilusão de movimento e um off que nos situa do estado de alma do personagem retratado – e registra uma moça, insone, que parece ausente do afeto do outro, e na condição de inadequação com o universo que a rodeia, dorme. Se funde ao espaço, como que buscando a tranquilidade que não encontra no silêncio noturno. Nas construções, na grama, no concreto, ela e o espaço são um só.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Obra-Prima, de Andréa Midori e Thiago Faelli
Obra-Prima adota o afeto com doçura, leveza, um ar cult de uma juventude contemporânea na qual os encontros são intermediados através de diversos meios anteriores ao face a face, como o registro de imagens de si por intermédio de uma câmera, um programa de edição de vídeo, a gravação de uma consulta médica.
A jovem busca o amor, o jovem busca se encontrar. Nessas incongruências de cada um, acabam por se conhecer. Ela de um prédio, ele de outro. Esse encontro é compartilhado pelos outros 23 moradores do prédio dele, através dos dvds que ela coloca de caixa de correio em caixa de correio, como que em busca de algo talvez nem muito claro para ela; um amor, uma identificação, sentimento muito comum nesse universo retratado por Midori e Faelli.
O rapaz que ela almejava atingir com suas imagens não era o que ela imaginava, mas a procura por ele a fez encontrar o jovem que se sentia muito inexistente, nas letras tortuosas do médico que olhava para suas pintas, responsáveis por diferenciá-lo dos outros.
Obra-Prima retrata um universo indie atual de maneira muito feliz, com direito a todos os clichês que o caracterizam; das cores, das roupas, da música que ressoa. Registra um encontro, também norteado pela sensação do não pertencer.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Pão dos Anjos, de Daniel Tonacci
Pão dos Anjos também parte de uma situação de afeto, já no terreno da intimidade de um casal, até uma instância complexa, da separação aparentemente inevitável daquele mundo construído pelos dois. O poeta Manoel de Barros e a música clássica tocada no piano norteiam esse caminho do amor ao adeus.
Barros tomou gosto pela palavra quando conheceu os livros do padre Antônio Vieira: "A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança."
Pão dos Anjos, portanto, não parece, como Barros, buscar uma verdade do amor. O curta trafega por uma lógica da paixão, da conexão e da tristeza do desencontro, num ritmo de poesia, que não se pretende somente bela ou reveladora de algo irrefutável, mas pairante desse lugar por vezes claro, por vezes turvo da relação a dois.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Carreto, de Cláudio Marques e Marília Hughes
O afeto em Carreto vem por via da inocência infantil, revestida de uma bela dose de saber precoce. O “carreto” é um pequeno garoto, que carrega frutas e frutos como maneira de garantir seu sustento. Num bailado suave, a câmera de Carreto passeia com aquele menino e olha pelos olhos dele para uma menina que não pode andar devido a uma deficiência e é neta da senhora para a qual ele trabalha.
Talvez pela consciência de uma vida toda por viver e pelo anseio que a liberdade causa nesses que ainda não perderam a capacidade de sonhar, este menino tenta dar asas para as pernas inativas da pequena garota. Em silêncio, tenta consertar sua cadeira de rodas, já quebrada, já inutilizada.
Não há barreiras ali, naquela longínqua cidade da Bahia onde a infância ainda se permite sorrir. O garoto deixa seus frutos e, em um carinhoso gesto, carrega com ele a garota a gargalhar, em cima das únicas rodas que ele via como possibilidade de libertá-la da imobilidade: o seu carreto. Doce, sutil, como a brisa.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Filmes Citados:
Sobe Sofia (idem, 2009/André Mielnik)
Feito Pedra (idem, 2009/Adélia Jeveaux)
Obra-Prima (idem, 2009/Andréa Midori e Thiago Faelli)
Pão dos Anjos (idem, 2009/Daniel Tonacci)
Carreto (idem, 2009/Cláudio Marques e Marília Hughes)