
por João Toledo
Cidade dos Mascarados, de Emanuela Yglesias
Curiosa a sessão proposta pelos curadores da Mostra de Tiradentes. Ela se inicia com um filme cuja motivação central é perpetuar tradições regionalistas, Cidade dos Mascarados. Logo em seguida, Raz, um curta onde existe um claro choque entre modernidade e tradição. Mais tarde, filmes como Flash Happy Society e Ziguarte apontam para caminhos absolutamente opostos aos traçados pelo curta de abertura, desligados de qualquer tradição. Todos eles, de alguma forma, têm como elemento central essa relação conflituosa com o mundo moderno, e partem dela seja para buscar resgatar a memória que se perde, seja para tentar encontrar no hoje as chaves para desvendar e questionar os caminhos que trilharemos a partir daqui. A sessão parece propositalmente acentuar esse conflito, chamando atenção para os dilemas do contemporâneo a partir das escolhas de realizadores, sem homogeneizar um olhar sobre o mundo a partir de filmes que dialogam. Uma sessão de certa forma misteriosa, aparentemente esquizofrênica, mas positivamente curiosa.
Cidade dos Mascarados é um documentário simples, que parte de um objetivo e o deixa claro ao longo do filme; o de preservar a memória de uma manifestação festiva, uma tradição eminentemente popular sobre a qual não existe qualquer registro. Há uma construção de montagem – que salta entre um e outro entrevistados, entre momentos da dança, do ensaio e da construção da festa – que não prende à formalidade de um documentário tradicional, mas certamente não há grandes intenções formais no filme, não há grandes ambições cinematográficas. O cinema está ali a favor de seu projeto, de seu tema, de sua tentativa de resgate, e não o contrário. Ainda assim, um curta que mantém algum cuidado em sua relação com o cinema, mas não chega a constituir um olhar rico e propositivo. Mantém-se restrito à proposta, nada muito além disso.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Raz, de André Lavaquial
André Lavaquial, realizador cujos personagens parecem sempre se construir a partir de uma relação musical muito forte e os conflitos proporcionados pelos espaços, nos apresenta um jovem rapper que carrega seu aparelho de som por toda parte, e faz dele uma espécie de continuidade de si, uma forma de se traduzir para o outro. A música, aqui, é condição necessária para a constituição da personalidade, ela é intermédio entre o garoto e o mundo, salvação da opressão do universo por onde ele transita. E é uma relação a todo momento interditada, a todo tempo abortada. Há uma trajetória que o leva a novos encontros, com outros caminhos de expressão. O filme, de certa forma, abusa das mudanças focais que isolam subjetivamente o garoto do universo que não o acolhe, abusa também do labirinto humano que o envolve e o engole, simplifica sua relação com o mundo através de vícios visuais, mas também cria momentos potentes que acirram o enigma intraduzível que move o garoto. Ao fim, um garoto perdido entre aquilo que sente e o que a nova/antiga música produz nele.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Flash Happy Society, de Guto Parente
Flash Happy Society produz a priori um efeito curioso no espectador de cinema brasileiro por seu título em inglês. Nada mais conveniente, no entanto, em um filme que investiga de alguma forma uma sociedade tomada por ideais esvaziados, valores de superfície. Trata-se, como diz o próprio realizador, de um documentário de ficção científica, um filme que cria atritos na imagem a partir da manipulação de tempo e som, acentuando a estranheza da situação a partir desse tensionamento do registro. É curioso ver de longe a imagem suplantando a experiência, e a felicidade e beleza se tornando pré-requisitos para a memória construída de uma experiência. Guto Parente constrói um potente espaço de comentário tão somente a partir do que lhe proporciona a imagem real, um retrato do absurdo.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Cheirosa, de Carlos Segundo
Cheirosa é um curta-metragem que começa bem, cria toda uma expectativa em torno de sua construção e frustra ao demonstrar a que veio. Porque em certo momento ele revela que toda a cuidadosa relação com a linguagem cinematográfica, a construção clássica de rigorosa decupagem, aliança entre enquadramentos e montagem conseguindo produzir efeitos de humor desemboca numa cena de diálogo supostamente engraçado entre a dona do carro e um motoqueiro malicioso no sinal de trânsito. Toda aquela construção está em função desse momento de humor. A imagem que se cria em torno do texto, ou para o texto. Um grande potencial desperdiçado na despretensão e humor vazios. Não mais que um exercício de cinema, um exercício bem feito, porém sem qualquer força.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Ziguarte, de Carlos Eduardo Nogueira
Um filme absolutamente alienígena dentro de todo o atual panorama de curtas. Ao mesmo tempo em que poderia ser facilmente enquadrado dentro de uma proposta estética que remete a um cinema americano contemporâneo de grande manipulação visual, extraindo do filme qualquer índice de realidade – tendo como expoentes 300 e Sin City –, Ziguarte expõe um conflito com seu próprio verniz absurdo a partir da auto-ironia que sua imagem produz. Trata-se de uma criação visual disparatada e extrema, reflexo de uma idéia de perfeição e fuga que regem determinada camada social mais elevada da sociedade, uma criação profundamente alegórica e ridicularizante, às vezes até mesmo preconceituosa, desse universo.
A imagem produz atração e repulsa, adota e assume seu próprio ridículo, cria momentos vários de comentários a partir de metáforas visuais e parece ao longo do filme se encaminhar para uma idéia de moral que se fecha mais ou menos claramente dentro desse comentário social radical. No entanto, à medida que o absurdo se acirra, o comentário moral se torna mais distante, mais intangível. Ele é agressivo, parece ofender, mas não se sabe exatamente como. Cativa justamente por ser tão estranho, tão distante de ser desvendado. Um absurdo visual, rico e podre, contradição coerente. Realmente bizarro.
*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes
Filmes Citados:
Cidade dos Mascarados (Idem, 2009/Emanuela Yglesias)
Raz (Idem, 2010/André Lavaquial)
Flash Happy Society (Idem, 2009/Guto Parente)
Cheirosa (Idem, 2009/Carlos Segundo)
Ziguarte (Idem, 2009/Carlos Eduardo Nogueira)