Os Inquilinos, de Sergio Bianchi

inqui

por Ursula Rösele

Um plano geral de uma favela de São Paulo. Geral, porém, neste plano não há espaço para o exterior àquelas casas emaranhadas que formam quase que um único bolo de portas e janelas fundidas. A cidade de São Paulo que iremos ver será mostrada ou pela TV, ou pelas janelas de ônibus que registram o caos urbano. Entramos em um espaço que se mostrará a periferia da cidade, localizada ao lado da favela que abre o filme e nos deparamos com uma casa de família, repetidamente referida como uma espécie de “relíquia” construída tijolo a tijolo por um filho e seu pai. o filho: Valter.

Valter mora com a esposa e os dois filhos. Sua rotina se resume a um café da manhã com a família, trabalho em uma empresa de maçãs e escola noturna. Em tese, poderia-se dizer que este é um filme sobre a vida de Valter, para além dos inquilinos que dão nome ao longa e parecerão tomar as rédeas deste tema. Na casa ao lado, um senhor mais velho mora com a esposa, que resolve locar um espaço nos fundos para jovens arruaceiros que fazem questão do estardalhaço ao chegarem em casa todas as noites.

Neste pano de fundo que registra os clichês da vida urbana de São Paulo e os desgastes da periferia dos menos abastados, há um filme curioso com  ares de um desajuste para além de quaisquer questões sociais, já abordadas em tantos filmes brasileiros, novelas, reportagens jornalísticas. Um registro aparentemente comum, banal, mas que concentra um olhar que não é nem de Valter, nem dos inquilinos, nem de um diretor com objetivos conscientizantes. É um olhar multifacetado, que dividiremos com todos aqueles que se posicionarem diante de algo: os ônibus pegando fogo nas ruas, a movimentação dos vizinhos, os corpos das crianças dançando. O tom dominante do filme é dado pelo olhar de um para o outro, pontuado por uma lógica do proibido, o que os coloca (os que olham) sempre em posição de voyeurs esgueirados pelas frestas de janelas, portas, grades.

Mas este olhar, de certa forma, é um olhar que invariavelmente se volta para Valter. Em determinado momento ele comenta que o que se diz de homens fracos é que suas mulheres são safadas, ou algo do tipo. Sua esposa, em resposta, diz que há mulheres que são boas e há as más. Os inquilinos são o assunto por trás de tudo que ocorre na rotina de Valter, mas é sua masculinidade a assombrada pela câmera de Bianchi e convocada à ação pela iminência constante de mistério e perigo que os inquilinos sucitam. Valter, deitado no sofá, ensaia um toque por dentro de seu short enquanto olha a mulher de costas. O movimento é brecado pela obsessão da esposa com os novos vizinhos. Ela fica em casa o dia todo enquanto ele trabalha, estuda e suas crianças vão para a escola, o que desencadeia intervenções estéticas que registram o delírio e os sonhos de Valter em torno de sua impotência em reagir ao que o incomoda. Através dessas incongruências na rotina deste personagem, o filme de Bianchi destoa de uma visão tradicional para o tema e caminha para uma espécie de crônica, com ares soturnos que sugerem, através de um suspense crescente frequentemente frustrado pela inexistência de clímax, diversas possibilidades de conclusão norteadas pelos devaneios e imaginações de seus personagens.

As coisas existem e são como são em Os Inquilinos e só nos resta fechar as janelas, ainda que com fechaduras tão frágeis e um cão tão dócil, que esta “proteção” beire o ridículo. Planos, por exemplo, que saem do usual e vão a closes desconcertantes nos corpos de garotas de uns 8, 10 anos que rebolam de forma precoce ao som de axé. De um olhar que não se quer moralizante, esta câmera – após termos sido alertados pelo alto som da TV daquela família a respeito de um assassino de garotinhas que estava à solta – se transforma numa subjetiva de um suposto pedófilo que olha com sede para aquelas crianças. Em Os Inquilinos, os espaços geralmente separam os personagens do mundo que só vislumbramos através de seus comentários. Não vemos a escola de Valter, mas a sala de aula. E de dentro dela, também cercada de janelas, há uma Cássia Kiss num estado curioso de suspensão, recitando poemas e tentando extrair de seus alunos algo além da relação inevitável com este mundo que assombra do lado de fora.

Nossa referência desse universo – para além de nosso conhecimento da situação social daquela classe retratada – é delimitada por aqueles personagens. Portanto, somos convocados a espreitar também, em todos os contraplanos dessas câmeras que representam o olhar direcionado, o que poderia haver de suspeito, de misterioso. Poderia-se dizer de Os Inquilinos ser uma espécie de “suspense do inevitável”, com toques hitchcockianos. Não há nada de particularmente interessante a respeito dos personagens, é a fertilidade de sua imaginação e a maneira como a câmera dá vazão a ela que os tornam curiosos. Isso se acentua ao final do filme que, após um crescendo desse dito suspense, alcança finalmente o seu clímax, com o assassinato violento do dono da casa alugada pelos arruaceiros.

A morte ocorreu de fato, foi violenta de fato, denota a violência daquela sociedade, mas não é ela o que de fato importa. As cartas estão dadas, mas a câmera de Bianchi parece mais interessada em olhar o olhar de seus personagens e suas idiossincrasias. Ela se volta à invasão noturna de Valter à casa do morto. Entramos, finalmente, naquele espaço tão comentado ao longo de todo o filme. Sangue no chão, traços da violência e o sorriso aparentemente inexplicável de sua mulher, como sempre,  à espreita na janela. Ao ver que agora quem lá está é seu marido, parecemos de volta à questão da masculinidade de Valter. Apesar de sua “coragem” agora levá-lo a um espaço vazio e sem perigo iminente, é ele o protagonista da invasão, do erro, o que parece excitá-los dentro dessa única lógica que parece nortesar os terrenos recônditos dos personagens: o proibido, o perigoso, que fica sempre ao lado da esfera do desejo.

Em Os Inquilinos, damos voltas nos devaneios e voltamos inevitavelmente ao mesmo lugar. No dia seguinte, o único dos rapazes que não fora preso volta à casa, munido de armas, com outros homens em igual situação. A dona da casa, que não havia surgido até o momento, lava o sangue no chão, como se tirasse uma sujeira qualquer. Valter vê aquilo e sai em meio à multidão. É o fechamento do “inevitável”. Haja o que houver, as coisas ali, continuarão como estão (ou como são?).

*Visto na 13a Mostra de Cinema de Tiradentes.

Filmes Citados:

Os Inquilinos (idem, 2009/Sergio Bianchi)

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