Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez

por Gabriel Martins

Às vezes me parece que alguns cineastas brasileiros têm medo. Medo de arriscar, medo de errar, medo de inventar. E através deste medo, que muitas vezes pode mais uma confiança grande em um padrão – o que talvez seja a mesma coisa -, cineastas fazem filmes, muitos deles documentários, bastante padronizados. Em muitos momentos é preciso perceber que o material que existe nas mãos é bom por si só, seja um depoimento, uma imagem observacional, uma imagem de arquivo e etc. Confiar nesta imagem e na possibilidade de comunicação que ela tem por si própria é um ato de bastante afetividade e postura dentro do filme. O que se observa em Dzi Croquettes é essa falta de confiança, fazendo com que os realizadores Tatiana Issa e Raphael Alvarez dependam muito da opinião em depoimentos para a legitimação daquelas imagens (e pra muitas gerações como a minha, que não viram o grupo “ao vivo”, são só imagens).

Parece existir também uma espécie de compromisso com traçar uma verdade absoluta sobre o tema, deixando-o quase intocável. Quando diz respeito a um grupo ou pessoa que inquestionavelmente deixaram marcas na história do país, esse exercício se torna ainda mais confortável. A montagem de Dzi Croquettes investe na repetição de opiniões, como se precisasse do coro e dos diversos pontos de vista para nos dizerem o quanto aquilo ali era importante. Mais ainda, imagens deles dançando aparecem e paralelamente são comentadas por mais de uma pessoa, como se a imagem por si só não fosse capaz de encantamento. Imagens como a de Lenny Dale dançando falam muito por si só, exploram o estilo, reavivam repertórios tão caros no cinema como o cabaré, Fred Astaire e o próprio Chaplin. Ter esta imagem (a de Lenny exemplificando várias outras no filme) excessivamente comentada pelo outro não só esvazia o seu potencial próprio – resultado oposto do pretendido ao ter um comentário – como distancia o espectador de uma relação sua particular com a imagem. Aquele fragmento nunca consegue ser meu, tanto pelo pouco tempo que permanece em tela como pela invasão de cabeças falantes e vozes antes e depois dele, fazendo um sanduíche quase sem recheio.

E com isso o filme, por mais que traga muitos depoimentos, fotos (as de Paulette como destaque) e imagens interessantíssimas, nunca consegue atingir uma estrutura formal que enalteça toda sua riqueza de conteúdo. Vejo as imagens antigas em vídeo presentes no filme e como elas possuem – assim como vídeos antigos como um todo – um caráter melancólico, nostálgico, triste, principalmente quando se filma um evento artístico. Se pensasse mesmo em cinema, talvez este documentário perceberia como a fugacidade daquelas imagens simboliza a perda daquele momento no tempo mas, ao mesmo tempo, sua resistência como potência imagética - como era o grupo no contexto ditatorial. Em chave oposta, o documentário segue uma padronização nada ousada, investindo em uma recuperação histórica didática que ironicamente corrobora para o esquecimento da verdadeira arte do grupo no tempo ao investir somente no falado do presente. Formatado, exatamente com as Dzi Croquettes não eram.

*Visto no CineBH 2009.

Filme Citado:

Dzi Croquettes (idem, 2009/ Tatiana Issa e Raphael Alvarez)

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