Mamonas para sempre, o doc, de Cláudio Kahns

por Nísio Teixeira

 

Característica marcante dos últimos dez anos da produção cinematográfica brasileira, a produção de filmes, especialmente documentários, que retratam personagens da música brasileira, rock brasileiro incluso, tem sido uma constante. Depois dos recentes filmes sobre Titãs e Arnaldo Baptista, chega a vez do grupo Mamonas Assassinas, com Mamonas para sempre, o doc, de Cláudio Kahns. Ao contrário do filme dos Titãs, a produção de Kahns não prefere apenas editar as diversas e, às vezes, raras imagens de arquivo da banda – como o projeto inicial do grupo, a banda Utopia. Mas entremeia o filme com depoimentos de familiares, produtores e empresários ligados ao grupo, além de pequenas animações e efeitos sonoros para reforçar o espírito irreverente do Mamonas.

 

Assim, o início da carreira, a produção do disco, o auge do sucesso e, muito rapidamente, o trágico fim do grupo são abordados, incluindo-se aí a boa e inesperada recepção do grupo junto ao público infantil, a despeito da carga pesada de rock e palavrões da banda. Nesse sentido, o filme funciona bem, até por não censurar a enxurrada de palavrões que o empresário Rick Bonadio diz, inserindo seu depoimento bem no clima irreverente e esculachado dos Mamonas.

 

Mas, do meu ponto de vista, o que há de mais interessante no filme é perceber, pelos depoimentos e pelas aparições do grupo na televisão, como a fulminante trajetória de dez meses dos Mamonas se configura em um impressionante exame da indústria cultural fonográfica e audiovisual brasileira, em um período reconhecidamente delicado para essa indústria, que era a perda de mercado e a transição do vinil para o CD, de um lado, e a fase de “ibopização” automática das principais emissoras, às quais uma presença do grupo garantia picos de audiência. Assim, um dos méritos do filme não é simplesmente celebrar a memória de jovens talentosos que, lamentavelmente, pereceram no ápice de sua carreira, mas por expor, ainda que indiretamente, um pouco do modus operandi da indústria cultural brasileira.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

Filme Citado:

Mamonas para Sempre, o Doc (idem, 2009/Cláudio Kahns)

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