
por Gabriel Martins
Um assunto – talvez “o” assunto - em pauta no ForumDoc 2009 até então é a opressão advinda do desenvolvimento urbano. Está em Corumbiara, está em Um lugar ao sol e está aqui, em O areal. O documentário coloca de um lado o humano, representado pelos depoimentos, pelos rostos e pelas fabulações e, de outro, o concreto, a invasão provocada pela urbanização através da construção da ponte e da exploração do areal. O discurso funciona, principalmente dada a força das imagens das pessoas e a maneira como elas são registradas.
Personagens bem demarcados conversam sobre mitos, lendas e folclores que circundam a região. Falam de lobisomem, Matinta Pereira e etc. num jogo de acredito e duvido que, no mínimo, já designa tal importância à aura instaurada no local. A crença do documentarista Sebastian Sepúlveda é na verdade de cada personagem, e em como eles constroem seu relato. Isto é evidenciado pela bela montagem do filme, que parece instaurar pequenos momentos ficcionais pela precisa decupagem que, de tão rigorosa, parece funcionar como passagem temporal de um filme narrativo ou mesmo uma cena delimitada – a sensação é que em certo momento diálogos acontecerão e uma história se sucederá deste desenvolvimento.
Não se fala tanto desta questão formal, que muitas vezes guarda interessantes análises dentro da já freqüente discussão documentário/ficção. Mais que uma questão de atuação, me parece ser um reflexo de um rigor perante o objeto câmera, observando se ele evidencia uma espontaneidade de registro (câmera na mão e situações de momento, algo de caráter mais “documental”) ou se demonstra uma teórica encenação (câmera fixa ou com movimentos sutis, raccord, variações de ângulo). Esta opção formal do diretor nos coloca dentro da situação e do espaço, fazendo-nos participar de sua própria experiência de registro.
Algumas sutilezas internas em discurso claramente proposto. O areal mágico tem rosto. O areal explorado não tem rosto, ele é só ponte, caminhão e trator. Mas postura é também isso, peitar o seu discurso e sua vontade. É preciso pensar que o documentarista tem também um papel político de dar espaço ao invisível, ao que não tem o poder ao seu lado. A obra de Sepúlveda traz questões bastante pertinentes, passeando bem dentro de sua proposta discursiva. É interessante como, mesmo depois da destruição do areal, as pessoas parecem se adaptar a esta nova realidade, tendo ciência de possíveis problemas, mas tocando a vida como pode. Isso é bastante Brasil, este país que consegue soar bonito no trágico e que atinge, aqui, uma forma interessante – curiosamente nas mãos de um estrangeiro.
*Visto no ForumDocBH 2009
Filmes Citados:
O areal (The Sandpit, 2008/Sebastian Sepúlveda)
Um lugar ao Sol (idem, 2009/Gabriel Mascaro)
Corumbiara (idem, 2009/Vincent Carelli)