Batatinha, Poeta do Samba, de Marcelo Rabelo

por João Toledo

O documentário sobre Batatinha, importante compositor baiano de samba, faz o que parecem fazer todos os filmes do gênero, ou quase todos: buscar no esquecimento o artista e alçá-lo à condição insuspeita de gênio absoluto, reivindicando sua posição de destaque na melhor prateleira da locadora cultural do Brasil. A crítica que se segue não vem com intenção de dizer que a história escolhe a memória de um país – o resgate, em centenas de casos, é essencial, e não é justo tirar-lhes a razão na raiz do projeto, mas é fato que o cinema não faz jus à realidade, e se beneficia de artifícios vários para inventar o mundo que lhe interessa.

Talvez por isso seja tão difícil fazer documentários sobre artistas – o altar nunca parece estar muito longe, e a emoção fácil vende com sucesso imediato a imortalidade com que a imagem – vã, vil – condiciona seu discurso. O cinema, em todo caso, não é mais um meio de expressão, mas um veículo de função maquínica no xerox mal feito que faz da realidade e xamânica na imortalização do infindável catálogo de artistas e obras “relevantes” que o mundo, por questão de honra aos filhos ilustres, necessita lembrar.

Me vem à mente quase involuntariamente o momento em que Walter Benjamin, em seu famoso ensaio sobre a reprodutibilidade técnica do cinema, problematiza a empolgação de Abel Gance quando este proclama que todos os grandes artistas e grandes obras, todos os mitos e lendas aguardam “sua ressurreição luminosa, e os heróis se acotovelam às nossas portas”. A incessante atualização do passado em um filme de resgate histórico reconfigura a tradição, recria (ou distorce) o mundo na imagem e na lembrança – mas, em maior escala, cria um certo esvaziamento das singularidades por mero acúmulo.

Esses heróis que se acotovelam – tornados em filmes – criam uma massa anônima, um enxame inexpressivo de sons que se sobrepõe ofuscando os discursos uns dos outros. Têm, em última instância, valor institucional – nem histórico, nem didático, tampouco qualquer grande valor cinematográfico. Por mim, basta que os esqueçam, ou que os lembrem dignamente; mas envergonha a memória de qualquer criador gracioso esse tipo de obra grosseira, de uma genealogia picareta disfarçada de intimista e pessoal.

Batatinha, O Poeta do Samba, percorre o passado através dos personagens que revisita e suas lembranças emocionadas. Só que ele faz essa revisita guiada pelos próprios filhos do sambista, num filme que parece às vezes – pela pieguice que não se desmancha e pelo tom saudosista e grandiloqüente – comissionado pela própria família do músico, que vindica nele uma fatia da memória popular brasileira. Pode até não ser, mas a presença contínua daqueles que dão seguimento à linhagem do tal poeta do samba sufoca qualquer espontaneidade e ranhura de discursos, criando uma constante teatralidade, um tom de inverdade profundo na emoção de superfície.

A julgar pelos entrevistados, trata-se do maior de todos os grandes. Não que não seja sempre assim, no sentido da exaltação, mas este filme se supera. No samba cantado, comungado pelos entrevistados, não há apoteose possível, porque não há beleza possível numa imagem falsa, que vende algo que não se apresenta. O que havia de maravilhoso na música de batatinha permanece oculto ao longo do filme. A poesia morre no título, slogan de um Brasil irrecuperado.

*Visto no ForumDocBH 2009.

Filme Citado:
Batatinha, Poeta do Samba (Idem, 2008/Marcelo Rabelo)

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