Rio de Mulheres, de Joana Oliveira e Cristina Maure

por João Toledo

O filme de Joana Oliveira e Cristina Maure é acima de tudo um filme que se enquadra. Se enquadra dentro do que se espera – ou se tem esperado – do cinema mineiro, dentro de paradigmas diversos de um cinema de olhar poético e sensível para a realidade. O filme se desenvolve muito ao redor das personagens, e nunca a partir delas. Ele circula as mulheres, mas não as aborda. A experiência estética deveria bastar, talvez? Mas talvez isso que se percebe aqui como problemático esteja menos no filme e mais em quem o observa. No entanto, um certo desgaste das estratégias de abordagem infelizmente torna a experiência menos particular na sua fruição, e o contexto torna o paralelo inevitável.

Há um discurso – que emana mais da montagem do que propriamente de uma articulação de câmera – que parece vender a idéia de um cotidiano de repetição e vazio; pesar o ritmo do filme parece ser a intenção maior dos fades que separam cada um dos dias da semana. Por outro lado, o filme não quer produzir discursos; ele se contenta em observar o mundo de suas personagens. Trata-se de uma vertente que não deseja se impor com suas pré-concepções e visões de mundo, e que almeja dar voz àqueles sujeitos normalmente ignorados ou negligenciados em alguma medida.

Ora, mas aquelas mulheres em nenhum momento reivindicam o poder de fala; elas não tomam a voz, não parecem particularmente desejosas de se expressar. E o filme, em meio a essa dupla negação, torna-se oco, desprovido de força e direção, de sentido e proposição, de expressão. Tanto é que se torna necessária – ainda que disfarçada de homenagem – uma sentença ao final, que nos revela o motivo da ausência masculina e da predominância de mulheres na comunidade.  E o desinteresse dessas mulheres pela enunciação parece se explicar pelo simples fato de elas não enxergarem (como não poderiam) nada demais em seu cotidiano, não vêm ali nem a poesia nem a estranheza – que se apresenta apenas no olhar estrangeiro, no olhar de quem chega com um projeto prévio cujo ponto de partida é justamente essa estranheza. Não se trata de fugir do próprio olhar; estamos, afinal, inegavelmente presos a ele. Talvez a questão seja de fato aceitá-lo e abraçá-lo como tal; ou seja, torná-lo visível, dar ao olhar sua devida voz.

É inevitável indagar sobre a motivação de Rio de Mulheres e seu processo de criação. Me parece tão claramente um filme movido menos por uma pulsão cinematográfica que por uma intenção sociológica. Quer dizer, a questão do Jequitinhonha tem estado em evidência e sido privilegiada por editais vários de estímulo à produção cultural – numa espécie de mea-culpa doente que tem a ver tanto mais com política que com produção artística, e que só faz tornar nossa cultura guiada e, por conseqüência, restrita, acuada, limitada. Ora, não bastasse essa guia invisível do estado, os artistas ainda dispensam sua voz na tentativa de imprimir uma certa pureza à observação passiva. Na época dos Lumière talvez fizesse mais sentido, ou fosse possível alguma pureza – o último pintor impressionista, diz Godard e retoma Aumont. Mas hoje? A imagem já não se separa da mercadoria tão facilmente.

Interessa-me compreender, pois, a mudez voluntária de certo cinema mineiro contemporâneo. Desses artistas, tão altruístas dando voz ao outro, me interessa saber se no fundo não se fundam em certo descaso pela realidade. Ser passivo é ser generoso? A intervenção é necessariamente egoísta e irresponsável? O cinema é impuro por essência – através de quê ele move ou transforma o mundo? Mas, acima de tudo, porque é que – sem perder a sagrada generosidade que lhes é particular – esses cineastas não reclamam de volta sua voz, seu olhar próprio (e não ausente), porque não visitam o outro atravessados por si mesmos?

Não seria a criação, afinal, um ato de nudez? Isso tudo me lembra o amanuense complicado de Cyro dos Anjos, a quem a vida fecunda, fazendo-lhe conceber qualquer coisa que mexe no ventre e reclama autonomia no espaço. O que é que tem fecundado essa nossa gravidez? De quem estamos grávidos? Quem é que fala por nós? Pra onde foi nossa voz?

*Visto no Forum.Doc.BH 2009.

Filme Citado:
Rio de Mulheres (Idem, 2009/Cristina Maure, Joana Oliveira)

Leia novidades instantâneas em nossoblog.