Dia 5 – “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert (e um pouco de “O Homem Mau Dorme Bem”)

por Marcelo Miranda

Por vezes uma única cena – uma única tomada – é capaz de definir um filme inteiro. É Proibido Fumar, segundo longa-metragem de Anna Muylaert, tem um momento desses: depois do espectador acompanhar as situações centrais da narrativa, cheias de quebras de expectativa, há a dúvida sobre o destino de uma gravação em vídeo – e, consequentemente, o destino dos dois personagens principais, vividos por Glória Pires e Paulo Miklos. É então que a câmera – não o roteiro, não o elenco, não a produção: a câmera – mostra a que veio e, em dois lentos travellings laterais, notáveis pela forma como dão conta de todo um mundo de possibilidades a partir do espaço limitado de um apartamento de classe média, arregimenta um caminho até então em suspenso. Mas esse caminho escolhido pela câmera não necessariamente finaliza o filme: ele lhe dá um novo começo, que não será testemunhado pelo público, mas guardará em si seus próprios significados. Cinema como extensão da vida.

Já era um pouco assim no filme anterior de Muylaert, Durval Discos. Espécie de alienígena no cenário muitas vezes conformista do cinema brasileiro, o longa de 2002 desafiava sua lógica interna e também a lógica de quem o assistia, numa sequência interminável e assombrosa de situações originadas no cotidiano mais banal (um vendedor de discos de vinil que convive com a mãe). Em É Proibido Fumar, de novo temos uma personagem prosaica. Baby (Glória Pires) é solteirona e professora de violão, e essa caracterização típica será desencadeadora tanto do humor genuíno que exala do filme quanto das mudanças sofridas por Baby a cada novo imprevisto na sua até então monótona vivência.

Também como Durval Discos, haverá uma guinada. O mérito de Muylaert é tratar tudo na chave essencial das potencialidades do cinema como estruturas e formas de linguagem. É pertinente, aqui, fazer uma analogia do filme com O Homem Mau Dorme Bem, longa de Geraldo Moraes também exibido na competição do Festival de Brasília. Em ambos, o roteiro é fundamental para criar empatia em quem assiste: são “filmes de história”, moldados por tensões constantes e crescentes que dependem de total envolvimento da recepção para que a proposta se concretize. A diferença, porém, é evidente, bastando mínima olhada nos filmes.

Em Moraes, tem-se a linguagem adequada ao roteiro, e isso não soa positivamente. As imagens de O Homem Mau Dorme Bem não parecem concatenar umas nas outras, e definitivamente o motivo disso não está na escolha pela narração em fragmentos e sem ordem cronológica. Falta, de fato, a reflexão sobre o que se mostra e de como se mostra, e o que essa imagem representa dentro do quadro e de acordo com as imagens seguintes e as anteriores. O ponto central do enredo bolado por Geraldo Moraes reside num massacre cometido enquanto determinado personagem dormia. Só que a forma porcamente construída para representar este momento – cores esmaecidas, cortes abruptos, falta de coerência dentro da própria lógica até então construída no roteiro – não provoca o impacto que seria necessário a algum tipo de catarse que o filme demonstra buscar. Entende-se o que aconteceu, mas não há nada além disso, não sobra força que extravase a mera informação. Às vezes, no cinema, a “desinformação” informa mais.

É Proibido Fumar também se fixa no roteiro (cria da própria Anna Muylaert), mas não o utiliza como bengala. Estamos num apartamento de classe média de uma solteirona, e o jeito como a diretora enquadra esse espaço e faz a personagem interagir nele nos transmite naturalmente a “informação”. A cena primordial da virada do filme – a equivalente ao massacre de O Homem Mau Dorme Bem – é encenada por Muylaert com cuidadosa contenção. Mesmo quando essa cena volta (numa espécie de “exigência” do roteiro), a cineasta o faz utilizando o filtro de câmeras de segurança, dando nova configuração a uma representação já conhecida pelo espectador. A reviravolta está lá, e é primordial. Muylaert sabe a força carregada por aquele acontecimento e a demonstra sem encená-lo diretamente. A informação mostrada nem sempre é mais forte quanto a informação dada.

Toda a construção de É Proibido Fumar se dará nessas instâncias. A presença hipnótica de Paulo Miklos funciona tanto porque a câmera lhe permite expressiva movimentação dentro do exíguo espaço onde o ator circula no filme. Quando ele pára, a câmera pára junto e deixa surgir um envolvimento com aquele personagem, especialmente nas cenas em conjunto com Glória Pires. Talvez o filme apenas prescindisse de tantas pequenas participações especiais de rostos conhecidos (ri-se menos das situações apresentadas do que de determinados atores encenando tais situações). O que mais o torna um objeto audiovisual (e não um produto audiovisual) – por mais que, na superfície, ele não pareça tão rico como de fato é – está no traquejo de Anna Muylaert com cada elemento presente em cena.

 PS: Os curtas ainda não comentados aqui e presentes na competição de Brasília vão ganhar um texto próprio. Isso se deve ao excesso de atividades deste polvo, o que tem exigido a escolha de algumas prioridades na escolha de a quais filmes responder mais imediatamente.

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