La Noire de..., de Ousmane Sembène

por Gabriel Martins

 

O filme de Ousmane Sembéne traz em si um discurso político de certo modo formalmente datado. Observa-se esta evidência em estratégias particulares: primeiro, pela maneira como o filme aborda direta e explicitamente suas questões, utilizando-se de uma narração em off que a todo momento nos fornece o ponto de vista da personagem; segundo, pela forma como o antagonismo por parte da família que abriga a personagem - principalmente na mãe da família - que claramente expõe o lado do “bem” e o do “mal”. Essa clareza de posicionamentos é justificada por um projeto político bastante evidente. O filme quer, diretamente, falar de “neocolonialismo”, de preconceito, de luta de classes e etc. Na opção por uma aproximação redutora enquanto ambigüidade na forma acaba por ter, no simples, uma abordagem bastante franca, cara a cara, algo necessário em alguns contextos e, mais especificamente, em determinadas épocas.

 

Para além do discurso mais óbvio, o filme traz em si algo de bastante verdadeiro em seu registro. A paisagem senegalesa tem força, “ameniza” o peso da ficção para exprimir algum tipo de honestidade do rosto, principalmente na mãe de Diouana e no seu filho. Trava, assim, uma luta entre identidade no trabalho (algo bastante presente no trabalho de empregada doméstica) e a identidade real – a máscara como elemento fundamental para a discussão em torno da visão burguesa francesa sobre a empregada africana (o objeto é para eles um enfeite).

 

Bela é a forma como Ousmane filma Diouana e o namorado na cama e ao andarem pela a cidade. Pela honestidade de certa maneira truffautiana destes momentos ele dá dignidade a seus personagens, algo extremamente importante para a ferramenta discursiva do filme. São rostos misteriosos, por vezes sérios, quase que em dúvida quanto ao que fazer (algo que acompanha a atriz principal Thérèse Mbissine em todo o filme).

 

La noire de... é uma obra que se de um lado descarta muitas sutilezas com o fim de evidenciar seu discurso político, de outro consegue exprimir uma verdade de seus personagens que é também, e muito, uma postura política. Nesta soma, tem-se uma média ou longa-metragem bastante honesto, produto de um cineasta que merece maior atenção e busca.

 

*Visto no 13º Forum.Doc.BH.

 

Filmes Citados:

La noire de... (idem, 1966/ Ousmane Sembène)

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