As Bellas da Billings, de Ozualdo Candeias

por Leonardo Amaral

 

Ozualdo Candeias talvez seja, dos autores da boca do lixo, aquele que mais tenha na montagem a sua cena. Na verdade, há uma conjunção, já que a mise-en-scène do cineasta-caminhoneiro-poeta esconde em sua fórmula não-purista, desordenada, um apuro técnico impressionante. Na obra do diretor figura um certo lirismo das coisas e representações simbólicas bem mais complexas do que se apresentam à primeira vista. James é o personagem que carrega livros debaixo do braço, que se acha um bacana na cidade de São Paulo, com sua camisa do Snoop (com os dizeres libertários de feel free), o boné All star: tudo isso é um mix de ironia, crítica, constatação e apreensão de um tempo.

 

Falamos de uma São Paulo habitada por uma família italiana na qual tudo é clichê, desde a velha mama com sotaque exacerbad, ao macarrão que se acumula na tela, que se multiplica em enormes vasilhas, em penicos e tonéis. Buñuel já sabia que é no exagero e na comida que está a crítica social e também o mote para a recriação espacial do fora de senso. James e as irmãs, os namorados das irmãs, o amigo violeiro, todos comem a comida (de boca aberta), a mesma que ao final, como bem diz o narrador, acaba indo para o lixo, para a boca, como bem fora o filme.

 

Aliás, é assim que ele tem início, no documento: vemos fotos e imagens de Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, José Mojica, todos habitantes da boca, amigos de Candeias. O autor caminha entre amigos, anda por terreno conhecido, faz um filme dos arredores da cidade de São Paulo, flagra a cidade em seu cotidiano, enquanto instaura a mise-en-scène dos atores nesse palco citadino. Almir Sater canta enquanto é cercado pelas pessoas. Ozualdo procura o rosto anônimo, seja da criança com a orelha rasgada e costurada por um curativo, do homem normal que pára para assistir, ou mesmo do velho senhor que, ao invés de um trocadinho pelo show, prefere colocar no boné de James uma crítica aos poderosos, ao mandar os artistas irem para a sede do governo, ao congresso, ao lugar do dinheiro fácil; o pobre contribuinte só pode mesmo assistir e aplaudir a anedota sacana cantada pelo violeiro.

 

As belas da Billings é, como em outros filmes, o lugar das experimentações de cinema de Candeias, que suprime a fala para tornar o diálogo sustentado por uma música, ou usa o primeiro plano para colocar nesse mesmo enquadramento não somente um personagem, mas dois, três, cinema de subversão da linguagem. O moralismo do longa é cambeta, como assim é (e deve ser) a estrutura narrativa no ‘cinema marginal’. Nos filmes de Ozualdo, a cidade não é só cenário, assim como nos filmes de Carlão (e ai podemos lembrar de Alma corsária), São Paulo é também um personagem, acorda junto com o deficiente físico que toca pandeiro no largo do Paissandu em busca de trocados, ou Jupiá, também com problemas nas pernas, que canta em busca de dinheiro, mas canta principalmente para o filme. As belas é o filme daqueles que estão à margem, em especial cinematograficamente, e é por isso que Candeias vai buscá-los.

 

Ozualdo investe na força de personagens. As belas da Billings é essa presença em cena, com investimentos no que tem de mais precioso dentro da mesma, ou seja, a contraposição, a ambigüidade: as atuações vão do totalmente contido e minimalista ao exagero total, com os atores rindo em cena, enquanto que, a câmera, inquieta e também atriz, brinca em seus zooms, muitas vezes sem qualquer tipo de pudor, como aquele que corre em direção às partes intimas de Aspázia.

 

Os filmes de Candeias são essa mistura total, em que convivem lixo (o filme sempre perambula por ele), livros de Kafka e Bukowski, o sertanejo de Sater com sons do que parecem ser alarmes de filmes de ficção cientifica, uma espécie de cidade em que aqueles personagens são tão possíveis, acima de tudo, verdadeiros. James e os outros estão em todas as esquinas, perspicaz é Ozualdo Candeias, sempre capaz de encontrá-los.

 

*Visto no 13º Forum.Doc.BH.

 

Filme Citado:

As belas da Billings (idem, 1987/Ozualdo Candeias)

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