Yeelen, de Souleymane Cissé

por Leonardo Amaral

 

Yeelen, traduzido, significa a luz, fundamento do cinema que, no filme de Souleymane Cissé, não é menos fundamental para todo o ritual que ganhará a cena. Vemos, no primeiro plano do longa, a aurora, o sol em sua imensidão é sobreposto pela montagem, por uma galinha amarrada a um pau-de-sebo enquanto sangra. Cissé faz um filme rito, um processo de iniciação do personagem que na infância carrega um cabrito para sacrifício para se tornar, após todo um trajeto de provação, em uma espécie de xamã, de griot.

 

O filme não é somente uma obra sobre o misticismo, é a própria mística encontrada no caminho, na paisagem, na cena. Yeelen, a luz, é um filme puro, um documento sobre o Mali, sobre a origem, a crença na tradição (bem como na imagem). Cissé constrói seu filme junto ao povo de seu país, os atores são os mesmos homens e mulheres que estão nas pequenas vilas tradicionais, em meio ao deserto de areia, todos eles partes e fundadores das tradições, está nas origens a fundamentação do filme, uma espécie de perseguição da verdade que somente pode ser encontrada por alguém que se reconhece ali: Yeelen é também um filme do reconhecimento, do olhar de dentro (ainda mais se pensarmos na África como o continente que se apresenta sempre pelo olhar de fora, por meio do choque, mesmo que retratada por um cineasta como Jean Rouch, que sabe reconhecer vários dos meandros que acompanham as manifestações culturais do lugar). Cissé não quer a manifestação da cultura, ele busca a construção do rito pelo cinema e não o seu registro.

 

Para conseguir todo essa consagração imagética, Cissé trabalha com atores não-profissionais (como falado acima) para obter o espontâneo, o verdadeiro, o potente. Diante de sua câmera, o ritual sem maquiagens, sem reconstruções: as imagens são fortes, como a galinha que realmente grita e pega fogo no começo, como também é impressionante o caminho do jovem que tem como missão passar por várias provas para se tornar o líder local, comandando todos os h0mens dali. Mais do que qualquer visão social (ou sociologizante), Cissé prefere realizar seu filme a partir daquilo que lhe é mais forte, mais pujante, ou seja, seus mistérios, sua magia. Mais do que qualquer discurso embutido, vemos um filme mágico, em tudo aquilo que essa palavra possa apresentar de significados.

 

*Visto no 13º Forum.Doc.BH.

 

Filme Citado:

Yeelen (idem, 1987 – Souleymane Cissé)

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