
por Ursula Rösele
Tsõ’rehipãri, Sangradouro, de Divino Tserewahú, Tiago Campos Tôrres e Amandine Goisbault
Parte integrante do projeto ‘Vídeo nas Aldeias’ de organização de Vincent Carelli, Sangradouro é um filme de nuances interessantes, aspectos de dualidade entre dois mundos e os processos complexos de suas colisões. Já em seu primeiro plano, uma projeção em uma parede reúne diversas crianças e adultos e uma legenda nos traz uma tentativa de tradução daquelas reações. O lugar é Sangradouro e seus espectadores são índios Xavante. Um dos diretores, o índio Divino, diz logo de cara: “as imagens nunca acabam. Fica a lembrança”.
As imagens se apresentam ali por uma razão que nós conhecemos bem: a tentativa de manter alguma coisa para quando não ela não mais existir. No caso, Divino tentou registrar estes dois lugares aos quais os Xavante parecem transitar, uns em negação do fim das tradições, outros, os mais jovens, em meio a uma fusão entre os costumes Xavante e a lógica urbana. Divino rememora a história deste grupo que, na década de 1950, uniu-se à missão catequizadora de padres Salesianos de Sangradouro.
Com o auxílio de imagens de arquivo, Divino vai construindo esta linha histórica até o momento atual pelo qual os Xavante passam. Ao perceber a câmera em determinado momento, uma criança diz : “você vai roubar a minha imagem”. Um resquício de crenças indígenas, nas quais espíritos podem tomar a alma de um deles, causar males, tornar necessária a interferência de algum curandeiro da aldeia, a presença de um membro mais velho do grupo. Mas não. A câmera está ali não para roubar a imagem, mas para tentar fazer dela um transporte para o passado.
Divino vai, sim, aos mais velhos e pede que eles representem rituais tradicionais dos Xavante. Em uma construção gradativa, ele abandona aos poucos o ambiente da aldeia e faz um raccord para uma imagem de um índio de óculos escuros, calça jeans, que ouve a música Eye of the Tiger. Ali se faz a junção entre este universo domesticador trazido pelos Salesianos e a cultura Xavante que parece esvanecer de uma maneira que nem a câmera parece conseguir recuperar seus resquícios.
*Visto no 13º Forum.Doc.BH.
O Migrante, de Carlos Machado
O Migrante se filia a um estilo tradicional de um certo tipo de documentário: aquele que passeia por lugares distantes e serve como reflexão de uma realidade específica na qual a lógica regente é a da sobrevivência. Em uma comunidade no Vale do Jequitinhonha – MG, diversos trabalhadores são obrigados a passar longos períodos fora de casa em busca de sustento através da colheita de cana.
Este migrante são muitos, como um deles mesmo diz, pessoas cuja “vida passa sem que se tenha uma história para contar; só cortar cana”. Diferentemente do filme anterior da sessão, Sangradouro, O Migrante segue em busca de uma identidade, de problematizações daquelas circunstâncias, não para recuperar um passado, mas para revelar uma realidade política de tanta escassez, que as circunstâncias daqueles personagens giram somente em torno da impossibilidade. Os pais, ao passarem mais da metade do ano fora, não são sequer reconhecidos pelos seus filhos mais. Além do viés político que o filme pretende abarcar, existe no fundo esta falta de estrutura, não somente econômica, como familiar também.
Carlos Machado, que, aliás, assina basicamente toda a produção do filme (direção, roteiro e montagem) viaja por diversas localidades unidas pelas mesmas questões: a falta de chuva, a família separada pelas circunstâncias financeiras e o medo de uma industrialização que os tiraria da única regra que rege suas vidas: máquinas de extração de cana cuja potência supera em números alarmantes a capacidade de extração pelas mãos humanas.
Mais uma vez o cinema funcionando como mecanismo de construção de ideias, de retratação de fatos que nos são distantes como forma de conscientizar acerca de realidades, na verdade, muito mais próximas que podemos imaginar.
*Visto no 13º Forum.Doc.BH.
Filmes Citados:
Tsõ’rehipãri, Sangradouro (idem, 2009/ Divino Tserewahú, Tiago Campos Tôrres e Amandine Goisbault)
O Migrante (idem, 2008/Carlos Machado)