Dia 4: “Recife Frio”, de Kleber Mendonça Filho

por Marcelo Miranda

Uma advertência: a quantidade de atividades e a estafa advinda delas num festival agitado sempre gera atrasos nas coberturas. Mais ainda quando o crítico em questão (neste caso, eu) está no evento a serviço “oficial” de um outro veículo, aproveitando as brechas para contrabandear uma cobertura específica (e bem mais abrangente e detalhada) para esta revista. Nem se está reclamando aqui, muito pelo contrário. Poder estar num festival como o de Brasília, convivendo intensamente com gente de cinema de todas as instâncias, é sempre um aprendizado único, do qual trabalho pesado algum é capaz de prescindir ou aborrecer. É sempre um prazer – mesmo que os filmes não raro gerem reações bastante negativas, mesmo broxantes (como, aliás, tem acontecido por demais).

Tudo isso para dizer que esta cobertura vai quebrar a cronologia. O verdadeiro “dia 4” deveria ser sobre dois curtas mais o longa Quebradeiras, de Evaldo Mocarzel. Porém, com a exibição de Recife Frio e o impacto provocado pelo filme, fica difícil não falar dele de imediato. É isso que se faz aqui: uma resposta urgente ao que nos foi apresentado no novo curta de Kleber Mendonça Filho – resposta esta que clama em existir antes de quaisquer outros comentários. Os demais filmes ainda virão.

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Num festival de cinema, nem sempre o cinema propriamente dito é a base central dos filmes exibidos – em Brasília, então, alguns temas costumam ganhar mais espaço que as suas formas. Eis que nos surge Recife Frio, novo curta-metragem de Kleber Mendonça Filho, exalando cinema, estética, experimentação, política. O melhor de tudo: todos esses elementos surgem na tela não como questões, mas condições dadas, prévias e bem resolvidas. Os procedimentos e artifícios de Recife Frio existem como fundamentação presente, sem necessidade de serem emulados dentro de sua estrutura. É cinema que acredita ser cinema e só existir como cinema.

Irônico isso se dar num filme cujo ponto de partida é um programa de televisão. A narrativa de Recife Frio existe a partir da falsa reportagem de um canal argentino sobre o misterioso evento climático que transforma a capital pernambucana numa espécie de extensão da Patagônia. Esse documentário será desenvolvido em cima de ideias prévias e clichês sobre a representação e o imaginário de Recife como sendo um polo turístico marcado pelo calor desértico. A partir desse dado prévio – já impregnado na mente de quem assiste ao filme –, Kleber faz troça sem cair na gracinha ou gratuidade. É a “armadilha” do filme: o humor vem não necessariamente de uma graça representada e encenada, ou na busca pela piada de timing “certeiro”. Ela toma forma no acúmulo de informações que circulam sobre o Recife, desconstruindo esse manancial de referências na chave da fantasia e com absoluta desenvoltura.

Recife Frio marca sua superioridade por ser um filme resolvidamente acabado. Diferente dos trabalhos vistos até aqui em Brasília – com melhores ou piores resultados –, o de Kleber Mendonça não tateia nem busca algum “resultado”. Ele é, existe e está definido: cada cena, plano, corte, som, tudo existe no filme, e ponto. A opção pelo “mockumentary” liberta o cineasta para mergulhar fundo na premissa e tirar dela o máximo possível de resultados pertinentes, alguns de excesso, outros mais ambíguos, todos inseridos na carne audiovisual do que nos é apresentado.

Kleber, também crítico de cinema, tem relação íntima com imagens de um modo geral. Ele pensa em termos de imagem não apenas os filmes que faz e assiste, mas principalmente o mundo que o rodeia. Fico sabendo, em conversa particular com o diretor, que os pinguins em Recife Frio foram filmados na África do Sul. Poderia ser algum trecho de algum programa do National Geographic, mas não é. Kleber, viajante contumaz, sabe a importância do registro e da infinidade de usos possíveis para o que se pode registrar em qualquer lugar. O uso disso pode ou não vir a existir. Importa mais que aquilo armazenado na câmera esteja potencialmente à disposição do artista. Crítico, o longa de Kleber, nasceu dessa relação: ao encontrar cineastas e jornalistas mundo afora, o diretor gravou as entrevistas que geraram o documentário. Noite de Sexta Manhã de Sábado brotou das imagens de uma mulher amiga de Kleber, filmada na Ucrânia, e de um homem amigo seu, registrado no Recife.

Da pulsão brotada dessas imagens captadas ora intencionalmente, ora por aparente motivo algum, surgem filmes. Vinil Verde, mesmo pensado totalmente sob o conceito da ficção, sem “imagens prévias”, é estruturado numa sequência montada através de fotografias. Eletrodoméstica dialoga com Vinil Verde pela presença quase absoluta da ficção, e sua presença do externo está na ambientação de um bairro tipicamente classe média: não precisam mais que dois ou três planos gerais para identificarmos todos os elementos característicos dessa realidade dada. É um procedimento dos que mais me fascinam, por exemplo, num realizador como Werner Herzog, com quem Kleber Mendonça nem parece buscar referenciais – ao menos não diretamente, dando predileções a nomes igualmente fortes, como Stanley Kubrick e George A. Romero, ambos muito bem “representados” em Recife Frio de maneira insuspeita.

A consistência com que Kleber consegue mexer esse acúmulo de elementos captados por suas câmeras faz dele um cineasta no sentido pleno do termo, quer seja, o realizador apaixonado pelo que está do outro lado da lente e que, num estranho “impulso controlado”, concatena e compartilha aquelas ânsias imagéticas como se não estivesse fazendo nada demais. É o cinema como molde de novos sentidos e experiências a quem faz e a quem assiste. O discurso cantado por Lia de Itamaracá no memorável desfecho de Recife Frio serve bem ao que Kleber Mendonça parece estar declamando em seu filme: “Minha ciranda não é minha só; ela é de todos nós”. 

*Visto no 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Filmes Citados*:
Recife Frio (idem, 2009)
Crítico (idem, 2008)
Noite de Sexta Manhã de Sábado (idem, 2006)
Eletrodoméstica (idem, 2005)
Vinil Verde (idem, 2004)

*Todos dirigidos por Kleber Mendonça Filho

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