Dia 2: Curtas + “Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano”

por Marcelo Miranda

Curta: Homem-bomba, de Tarcísio Lara Puiati (RJ)

A mistura da propalada “cosmética da fome” com elementos de poesia são as principais características deste curta que, por mais bem-intencionado possa parecer, entrega-se ao fetiche de garotos armados em favelas (também referenciado, segundo reza a cartilha do bom-tom, como “um horror”) tentando atingir outras esferas que tirem do trabalho a pecha de “filme de favela”. Se ainda houvesse a tentativa de quebrar as regras desse tipo de filme, talvez a proposta pudesse extravasar a bondade intrínseca de falar da violência numa chave simbólica. Todo concebido em planos e contraplanos tradicionais, nos quais mesmo os diálogos entre os dois garotos perdem força por conta da encenação limitada, Homem-bomba está cheio de mensagens, licenças poéticas, fugas da realidade... Nada disso parece suficiente para tirar o filme da apatia.

Curta: Amigos Bizarros do Ricardinho, de Augusto Canani (RS)

O nova geração de realizadores mineiros tem sido marcada pela pecha de dar seguimento à videoarte de Eder Santos e Cao Guimarães, o que costuma gerar ruídos estranhos entre a recepção a determinados filmes e o que realmente foi exposto na tela. Síndrome semelhante sofrem cineastas gaúchos pós-anos 80 que se aventuram em alguma seara mais popular ou cômica: a comparação remete à Casa de Cinema de Porto Alegre – mais especificamente, a Jorge Furtado (se formos mais fundo ainda, a seu curta Ilha das Flores). Pois Amigos Bizarros do Ricardinho, mesmo que inadvertidamente, surge como uma espécie de resposta àquele cinema de associações típico de Furtado e companhia.

O filme de Canani tem o mesmo tipo de pegada – imagens e falas que remetem a outras ideias e a outras e a outras. Mas, diferente de Furtado, a conexão que o curta faz de um ponto a outro quase nunca parece se concatenar dentro de sua própria estrutura como algo “óbvio” ou revelador de alguma verdade. As situações em torno do personagem Ricardinho já nascem sob a noção da associação, a partir dos casos contados por ele aos colegas de trabalho. À medida que os acontecimentos vão se acumulando, o filme ganha organicidade incomum em trabalhos dessa natureza, transformando o humor engraçadinho e “bem sacado” da Casa de Cinema num humor simples e genuinamente hilário, cuja crença está muito mais na força do que está sendo contado do que necessariamente nas interrelações de um elemento com outro.

Canani também apresenta um curta feio, no sentido de que imagens, enquadramentos e edição de som não se caracterizam pelo maravilhamento estético, mas, sim, por um parentesco com o vídeo caseiro mais primitivo, aquele de quem se dispõe a narrar alguma história com parcos recursos. Nem foi o caso deste filme, que conta com bons apoios na finalização. Até por isso a impressão soa positiva: os divertidos absurdos narrados por Ricardinho são potencializados por essa “feiura” – o que não deixa de ser outro bom contraponto às “furtadices” do cinema gaúcho.

Longa: Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas (BA)

Um documentário marcado por presenças luminosas e ausências sedutoras. De um lado, praticamente toda a turma dos Novos Baianos (Pepeu Gomes, Moraes Moreira, Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor) rememora o período de quando formaram um dos grupos de maior sucesso na música brasileira, entre os anos de 1969 e 1979. Do outro lado, surgem os fantasmas: João Gilberto, espectro desde já referenciado no título do filme, figura meio fantasmagórica, deus que nasce como de um clarão dos céus, capaz de guiar os músicos baianos e desaparecer sem deixar rastros, incorporado em cena apenas numa foto; e Baby Consuelo, registrada em desgastadas imagens de arquivo, sorridente, provocadora, lasciva, talentosa, correndo, brincando, cantando, sempre no passado, nunca no presente.

Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano exala frescor muito grande por acreditar que um documentário também pode ser feito com a força de ausências. Se não há João Gilberto em pessoa, há a memória, há os pontos de vista de quem esteve com ele e por ele foi orientado. Se Baby Consuelo não autorizou o uso de imagens recentes suas (como nos é informado num letreiro), que ela se faça ativa de outro jeito, ganhando do filme atenção e carinho desmedidos. Essa é uma das principais características do longa de Henrique Dantas: não existe rusga suficiente para inviabilizar o vigor do registro nem a ânsia pela imagem, seja ela de quando for. Importa é essa imagem representar afeto, talento, criatividade, delírio. Tom Zé, absoluto simpatizante dos Novos Baianos, surge em cena com suas tiradas geniais, concatenando raciocínios que, se escritos, talvez não fizesse sentido. Falados e gesticulados por ele, ganham uma nova forma de absorção por parte do receptor.

Dantas aposta no desgastado esquema das cabeças falantes entremeadas por trechos de filmes e vídeos – uma espécie de panaceia do documentário brasileiro, como diz Eduardo Escorel em recente artigo na revista Piauí. Há de se observar como essa panaceia serve ao projeto. Em Filhos de João, o poder e a força do uso da palavra estão em prol dos próprios entrevistados. Eles falam deles mesmos, ora se referindo a si próprios, ora narrando casos relativos aos outros. Num looping, estarão sempre retornando àquela década em que dividiram uma fazenda e se sustentaram de música, partidas de futebol, maconha e bebida. Sem ignorar a presença dessas figuras fora do âmbito musical e no entorno que as cercava, tanto antes quanto depois (e daí vêm oportunos trechos de filmes baianos seminais, como Superoutro, de Edgard Navarro, Meteorango Kid, de André Luiz Oliveira, e Caveira My Friend, de Álvaro Guimarães), Dantas faz um trabalho quase literal de catação de cacos, encaixando aqui e ali o palavreado por vezes confuso – mas, na maior parte das vezes, profundamente encantador – desses hoje vovôs musicais da Bahia.

É um filme que sofre por suas limitações, várias delas relativas à caretice na forma. Mas mesmo essa caretice parece dialogar com a busca memorialístico-cultural promovida por Henrique Dantas. Está longe de ser um trabalho perfeito, muito menos marcante – ainda assim, dentro daqueles registros e de como eles vão sendo encadeados, sente-se a relação de humanidade estabelecida entre o realizador e seu(s) objeto(s) e o quanto disso salta para fora da tela. É muito mais do que vários documentários semelhantes que parecem muito mais bem feitos no jeito de se apresentar, mas escorregam na absoluta falta de tato ou conceito para se tirar algum sentido do que o realizador acredita estar buscando.

*Vistos no 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Filmes Citados:

Homem-Bomba (idem, 2009/Tarcísio Lara Puiati)

Amigos Bizarros do Ricardinho (idem, 2009/Augusto Canani)

Ilha das Flores (idem, 1989/Jorge Furtado)

Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano (idem, 2009/Henrique Dantas)

Superoutro (idem,1989/Edgard Navarro Filho)

Meteorango Kid (idem,1969/André Luiz Oliveira)

Caveira My Friend (idem,1970 /Álvaro Guimarães)

 

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