Mostra Curtas Brasil –3: “Superbarroco”, “Osório”, “O Menino que Plantava Invernos”, “Sumi”, “Triangulum”

Superbarroco de Renata Pinheiro

por Marcelo Miranda

 

Lembranças, alucinações, surrealismo, sobreposições, tudo se mistura numa massa só neste curta alucinado e alucinante, que começa de forma tradicional e torna-se um verdadeiro sonho em forma de película. Por alguns instantes fui remetido a Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel, menos pelos desdobramentos do que pela aura de inquietude, de uma mentalidade sendo projetada na imagem, da sensação de que absolutamente qualquer coisa poderia brotar da tela. Há planos de cuidadosa plasticidade (o personagem se banhando), em que os ângulos da câmera tentam transmitir as sensações mais íntimas. Muito da força de Superbarroco deve, para além da direção de Renata Pinheiro, da entrega de Everaldo Pontes como o protagonista, um misto de insanidade e ingenuidade, uma figura que encarna a tragédia de corpo e mente mesclada à ânsia de viver a qualquer custo, venha o que vier de dentro ou fora da própria cabeça. Trabalhando o cenário com acuidade na mistura de tempos e espaços, esta pérola pernambucana já nasce como um dos trabalhos mais instigantes da nova safra de curtas brasileiros.

 

*Visto no 41º Festival de Cinema de Brasília.

Superbarroco: um curta que não é curto*, de Renata Pinheiro

por Ursula Rösele

Para um filme:(...) o cinema atinge sempre o seu melhor quando o homem-cineasta consegue dobrar a máquina ao seu desejo e, dessa forma, nos fazer entrar no seu sonho.” (François Truffaut)

Para o outro: “Para mim, o cinema era o mundo. Um mundo diferente do que me circundava, mas só eu conseguia vê-lo na tela, junto com a plenitude, a necessidade, a coerência, enquanto fora dela amontoavam-se elementos heterogêneos que pareciam ter sido reunidos por acaso, coisas da vida, que pareciam desprovidas de qualquer forma.” (Ítalo Calvino)

 

Superbarroco é, em essência, um não-ser necessário. É dois e é super. Extrapola as concepções da arte barroca, transformando-se em um filme do autista do mundo e o filme para o autista de um mundo ideal. Dito “não-ser”, pois Superbarroco não é por definição coisa alguma e abrange um todo dele mesmo e de quem o assiste. É um sonho, e nos faz entrar dentro dele.

 

O autista do mundo olha para ele com estranheza, caminhando como se recém-caído ali. Faz seu caminho reunindo deste mundo o que pode ir para o seu. E caminha e sobe e inicia seu projetar ao elevar-se em uma imagem de uma igreja barroca, mas não entrar nela. Sobe por ela e vai além-barroco. Nessa projeção contínua, esse autista encontra seu mundo ideal. Para ele, o cinema era o mundo. 

 

O filme parece ser um idílio da solidão, que necessita do outro filme nele mesmo para imergir no prazer lúdico do não pertencer. Encontra nas ruínas, nos silêncios, a imagem que se funde, como se a solução para a utopia fosse o cinema no próprio cinema. Ali, como na arte barroca, estão conciliadas luzes e sombras, alegrias e tristezas, espírito e matéria. Há um corpo presente, há o corpo ausente evocado por aquele a todo tempo. Como se a saudade atingisse seu apogeu na própria representação cinematográfica.

 

Ali se eternizam os sentires e as vidas que se vão. Cinema é saudade em movimento, é o morto eternizado, o fotograma queimado que se repete ad infinitum sempre que assim desejarmos. O passado, quando projetado, se torna o presente no instante. O grito é sentido no canto em sopro, as palavras não têm importância, somente as imagens, os sentidos, os efeitos ilusionistas. Uma quase homenagem a Méliès, no belíssimo raccord da água do chuveiro projetada no corpo nu, para este mesmo corpo na água que escorre nele, já fundida, “posta em cena”.

 

A catarse final não é final para o (s) filme (s), o é para nós, meros espectadores da vida que poderia ser. No comemorar desse corpo ausente, o preparo, a maquiagem, os convidados que estão no filme-outro, este talvez ideal. Há um brinde nesse ilusionismo, pois além de dois, eles comportam o que a vida jamais conseguiria: a ambigüidade da existência e não-existência, fundidas numa mesma imagem, projetadas numa mesma tela, formando um três (os filmes e nós). Aberta a convidar todo aquele que ousar sonhar ali.

 

*Este filme é de Pernambuco e foi exibido na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Sem trocadilhos com o próximo asterisco, é uma pérola do curta-metragem contemporâneo e uma pena que eu não possa, neste texto, mostrá-lo a todos que o lêem. De toda forma, a quem tiver a oportunidade, não deixe de assisti-lo.

 

**Barroco: termo de origem espanhola ‘Barrueco’, aplicado para designar pérolas de forma irregular.

 

Osório, de Heloísa Passos e Tina Hardy

por Ursula Rösele

Osório, também profundamente inserido no tema central da mostra, “o personagem no cinema”, chega a ele de uma maneira diferenciada, procurando aos poucos um personagem que, apesar de estar de certa forma no papel da moça que aparece já em primeiro plano, surge também na Praça General Osório (Curitiba – PR) e em tudo aquilo que ela abrange – inclusive a moça. É um filme que faz uma fusão espaço-personagem que os unifica sem deixar de dar atenção à subjetividade de cada um.

O mundo ali parece um pouco restrito (simbólico e espacialmente), num espaço reduzido pelos seus limites, os do apartamento, da quadra de futebol dos garotos que jogam na chuva, do muro que separa o parque do resto. A escolha do enquadramento para a praça (vista da janela apartamento) é curiosa, pois evidencia essa espécie de “prisão” que parece ser a da solidão, da moça, daqueles que caminham a sós na noite, do próprio parque na madrugada. A praça, como personagem, é vista de um ponto também complexo, de um “lugar” que não participa do que vê. Temos uma quase divisão de tela, uma vez que do lado direito está a praça, separada por um muro e do lado esquerdo, a rua, que, apesar de não fazer parte do filme, fortalece o sentimento de solidão que ele possui.

O olhar solitário, então, encontra ainda um outro lugar, de certo conforto dessa solidão, de compartilhamento de sentimentos. Da moça ao observar a praça vazia, da praça ao abrigar os solitários que por ela transitam.

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

O Menino que Plantava Invernos, de Victor Hugo Borges

 

por João Toledo

 

Cada vez mais circunscrito ao universo que, conscientemente, Victor Hugo fez virar seu paradigma – um apossamento da estética e ideal expressionista como forma única possível de expressão de suas idéias – chega-se cada vez mais a uma espécie de esvaziamento crítico da forma que passa a ser tratada como um meio, um veículo apenas, um gênero determinado a priori e guiado sem grande motivação própria. A forma aqui existe apenas como valor de face, como uma máscara de desinfantilização de um universo infantilizado, e essa estratégia de abordagem vulgariza o sombrio para torná-lo não mais que uma maneira de aproximação, em tese, “diferenciada” ou “criativa”. O tal sombrio está ali a serviço de nada; apenas como facilitador de sua penetração no âmbito fabular. O que está lá a amparar a escolha não é senão a permissividade de certas estranhezas servindo de piadas.

 

A intenção aqui não é negar a criatividade do instante cênico, claramente eficiente dentro da obra de Borges, mas de questionar seu fator motivador, que revela uma espécie de piloto-automático de quem acredita em determinado tipo de abordagem como se dotada a priori de um intrínseco valor crítico da realidade. É preciso chegar sempre à forma como meio único de expressar algo, e não seguir cegamente um modelo. A fábula nunca se sustenta de fato enquanto processo narrativo, ela é feita apenas de momentos, lampejos de criatividade, imagens que se acumulam enquanto instantes de algum interesse, mas criando uma trajetória meio esparsa, pouco centrada, um tanto perdida na idéia de antes ser interessante que produzir sentido. A cumplicidade com o público existe, se dá no âmbito da cena, mas se dispersa no todo.

 

*Visto no 11º Festival de Curtas de Belo Horizonte

 

Sumi, de Marina Fraga

por Ursula Rösele

 

Um país a nós estranho, uma língua que por si só dá vazão ao imagético que a câmera irá buscar. Em seus ideogramas, podemos encontrar significados e mergulhar naquilo que não significa literalmente. Aliado ao som, à expressividade que sua edição no cinema pode alcançar, os movimentos, barulhos da tinta, do espaço e das vozes, nos convidam a um universo que, se não explicitado pela palavra, é capaz de fazer movimentar na imagem.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Triangulum, de Melissa Dullius, Gustavo Jahn

por João Toledo

 

Tão inesperado e estranho, o universo criado por Triangulum parece escapar a definições pré-formatadas, mais imediatas, de uma forma cinematográfica. Somos atirados logo de cara ao universo dos personagens e dali vamos colhendo elementos que nos permitem dialogar com eles, em meio ao processo de constantes aproximações e afastamentos. Se existe algo a guiar aqueles seres é essa constante procura por algo e ao mesmo tempo uma força repelente que os afasta de qualquer coisa e de si mesmos. De uma beleza pouco óbvia, pouco usual, guiada pelo despudor da imagem claramente manipulada em meio ao flerte com o âmbito da realidade, o filme segue sua saga insana na paisagem pulsante de mistério do Egito. Mas não se trata de um Egito qualquer. Os personagens não exatamente vagam por um universo imediato que os cerca; o universo que vemos a circundá-los é por eles criado e está a eles circunscrito, é por eles tornado possível e, em última instância, visível.

 

Por entre espaços estranhos da cidade, eles vagam, os dois rapazes e a garota, plenos de um amor que os une e os aparta. Lá eles buscam um espaço para dividir, que seja um tapete no lúdico sobrevôo da cidade do Cairo. Vagam, machucados, se perdem, se desencontram, se reconciliam. A cada imagem, uma esfinge invisível nos posa um enigma. Não chegamos nunca muito próximos dos personagens, eles são intangíveis, inalcançáveis, mas acompanhamos suas buscas sem rumo, sem destino, como quem empreende uma busca também. Uma busca sem direção, sem fim, cuja resposta está no caminho, num belíssimo caminho.

 

*Visto no 11º Festival de Curtas de Belo Horizonte

 

Filmes Citados:

O Menino que Plantava Invernos (Idem, 2008/Victor Hugo Borges)

Triangulum (Idem, 2008/Melissa Dullius, Gustavo Jahn)

Superbarroco (idem, 2008/Renata Pinheiro)

Um Cão Andaluz (Um Chien Andalou, 1929/Luís Buñuel)

Osório (idem, 2008/Heloísa Passos e Tina Hardy)

Sumi (idem, 2008/Marina Fraga)

 

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