
Cântico das Criaturas, de Miguel Gomes
por João Toledo
Miguel Gomes, hoje um dos mais relevantes e instigantes jovens diretores de cinema – senão o mais –, faz em Cântico das Criaturas o que parece mover toda sua obra; um filme que funciona como um trajeto de constante libertação das amarras do processo de criação cinematográfica, fazendo com que surjam na tela um, outro, e mais outro filme desenvolvendo-se em paralelo, em camadas sobrepostas. Sem nunca perder de vista a graça, a alegria pulsante do processo criativo e da realidade buscada, onde a ironia, um tanto inocente, não parece capaz de ferir nada que a cerca. A criação parece se dar sempre despreocupada em relação à explicitação de seu processo; mostrar a claquete ou criar um cenário feito de pinturas não se configura como vontade de explicitar o caráter de construção das imagens, mas talvez de permitir a elas as reminiscências do processo de criação, que deixa suas marcas, sua invasão ao mundo real, e é apenas justo que nos permita ver onde está a mão do diretor.
O filme oscila entre âmbitos claramente interessados numa mise-en-scène de absoluta precisão e outros onde a câmera livre vaga por uma realidade que, se não é manipulada do lado de trás da câmera no processo de intervenção no real, é alterada no íntimo de sua mais plena verdade por todo o aparato cênico que a invade inevitável - pelo trovador que segue a cantar por todos os cantos de Assis, e por esse olho privilegiado que o persegue enquanto persegue também a cidade.
E esse processo de transformação da realidade permeia todo o filme e busca refletir sobre as mudanças que a realidade exerce em nós assim como as que exercemos na realidade – trata-se de uma forma de pensar toda a criação e seu propósito maior. E, nesse sentido, relativizar em Francisco o amor absoluto e impassível por tudo o que há na terra não é uma forma de negar ou mudar a história da religião, mas de transformar a visão do amor numa possibilidade que abarca também a tristeza e a crueldade da vida, e de todos os seres. Sendo assim, filmar Francisco é uma forma de falar de si, e dessa constante contradição humana tão belamente presente nos filmes de Gomes. Pois, no que o universo ao redor se impõe aos filmes, revela-se o amor por esse universo na vontade de tê-lo filmado, mas também a vontade de permitir a ele se revele em sua plenitude, seja na beleza criadora ou na força destrutiva de sua existência, sem a imposição de uma visão.
Há uma dupla camada de cada parte do filme, que poderia se dividir entre o humano e o divino, mas que prefiro pensar como o sublime e o mundano, e que abrigam essa visão de um amor pleno pela existência sem que uma necessidade de pureza – que às vezes determinado ranço religioso impõe às coisas – venha diminuir a beleza imanente de todas as contradições da vida. É um filme, pois, sobre a beleza, a criação, a vida. E está tudo isso na melodia simples, no ritmo marcado do violão, que lembra o som de Johnny Cash a seguir estável como um trem, e no tom rude da voz do trovador enquanto exprime toda a beleza do poema de São Francisco que evoca a importância de todas as coisas.
Está também na cena do bosque, nos olhos de Clara, plenos de amor e sofrimento, em Francisco, que duela entre a profunda tristeza e a inabalável devoção – ou na própria forma, onde o sublime esbarra no caráter inevitável de representação. E está também na seqüência final, na qual a imagem revela a força incomensurável da natureza, todo seu furor de vida, duro e impiedoso, mas também magnífico, nessa amálgama de imagens cruas e cruéis, as vozes de crianças que narram os bichos com toda a inocência emprestam à imagem a maravilha sublime que habita toda a vida, mesmo na dor, mesmo na morte.
*Visto no 11º Festival de Curtas de Belo Horizonte
Corpo e Meio, de Sandro Aguilar
por João Toledo
A julgar por seu único filme exibido no festival, Sandro Aguilar, um dos três sócios da produtora portuguesa O Som e A Fúria, é o que menos reivindica a liberdade e a reinvenção de formas ao adentrar o plano da criação. Corpo e Meio é certamente o curta mais preso a paradigmas da narração cinematográfica mais formal e usual – ainda que não possa nunca dizer que isso, por si, só, diminua a expressividade de um filme. Existe um enorme cuidado e apego à criação de cada imagem, um rigor formal bastante evidente, principalmente nos detalhes que invadem os planos todos, como a fumaça, a rude luz azulada, a água e o fogo, às vezes em forma de faíscas. Há uma idéia de equilíbrio muito presente no campo da criação dos quadros, que faz seu personagem dissolver na imagem, tornar-se parte dos elementos que ali pulsam.
Esse sujeito perdido, que atravessa seu dia quase que levado pela vida, pelos elementos que o cercam, por uma inércia ou impulso de vida e morte, sai e volta para casa sem que haja qualquer transformação visível. Está claro que existe ali algum tipo de entrave na relação entre ele e a mulher – ou aquela que parece ser sua mulher –, e sua atração pelo fogo denota qualquer coisa que um impulso destrutivo. Porém, esses índices todos que o filme nos dá se revelam perdidos – são setas inoperantes, que não apontam para lugar nenhum. A eventual leitura psicológica dos personagens se demonstra falha, incompleta, não chega de fato a criar um espaço de compartilhamento com o espectador. Estamos ali diante da imagem também perdidos como o personagem, tentando encontrar as chaves nos permitirão solucionar o enigma – mas esse enigma, a vida em cena, não se responde, não se soluciona, não se conclui. Nos resta a sensação, a imagem, a dúvida.
*Visto no 11º Festival de Curtas de BH
Filmes Citados:
Cântico das Criaturas (Idem, 2006/Miguel Gomes)
Corpo e Meio (Idem, 2001/Sandro Aguilar)