Dia 1: Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto

por Marcelo Miranda

O discurso assumido pelo clã Barreto ao se imbuir da tarefa de adaptar para o cinema a infância e juventude do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é de que o filme não tem conotação política, por retratar momentos da trajetória de seu personagem antes dele ingressar na política partidária. Lula, o Filho do Brasil acompanha desde o nascimento do protagonista, no sertão pernambucano, em 1945, até a morte de sua mãe, no final dos anos 70, quando ele estava preso por conta das greves nas fábricas do ABC paulista. Portanto, desde sua concepção, fica clara a vinculação do filme não necessariamente a Lula, mas à mãe – não por menos, o título original era Lula, o Filho de Lindu.

A mudança da filiação do personagem no nome do filme (de “Lindu” para “Brasil”) já explicita o suficiente o viés realmente buscado por Fábio Barreto (diretor) e Luiz Carlos Barreto (produtor): a saga de um herói brotado na terra nacional, que dela saiu e nela venceu, enfrentando todos os tipos possíveis de percalços. O que não pode deixar de ser observado é que a simples decisão de um recorte biográfico é, por definição, uma escolha política. “A gente nem mostra a fundação do PT”, costuma apregoar Fábio. Ora, seria ingênuo da parte dele pensar que, por causa disso, seu filme está destituído de qualquer valor ideológico por apenas se focar no período de amadurecimento do atual presidente. Se quem está na tela é a mesma figura que hoje comanda o país, é simplesmente impossível e sem sentido fingir que os caminhos de sua vida não façam dele o homem que se tornou. O filme enquanto objeto artístico talvez se isentasse da politização, mas nunca da política. Lula é Lula, seja como um bebê em Garanhuns, seja como o sindicalista que sai da prisão para acompanhar o enterro da mãe.

Para se isentarem de quaisquer possíveis acusações de panfletarismo, os Barreto decidiram também retratar o aspecto mais unânime relativo a Lula: a sua imagem-símbolo de um homem do povo, que se virou como pôde na vida e atingiu o mais alto posto do país. Como não se emocionar com uma saga dessas? Mas é justamente nisso que está outra segmentação política de um filme como Lula. Ao omitir as possíveis oposições que a vida do presidente pudesse provocar em platéias contrárias a ele, opta-se pelo garantido: falar do “ser humano”, do “homem vencedor”, como se Lula e a dupla Zezé di Camargo & Luciano (mostrados em chave similar no drama 2 Filhos de Francisco) fossem a mesma coisa. Não são.

Em vista disso, Lula tem, de imediato, dois horizontes para onde olhar. Um deles é o teor realmente político. Não na forma, porque Fábio Barreto – artesão dos piores em atividade no cinema brasileiro – jamais demonstrou talento para quebrar a estética e nem mesmo desenvolver a contendo o minimamente clássico. A política do filme está no encaminhamento que se dá à ideia de que Lula seja uma figura privilegiada pelas circunstâncias e por suas próprias escolhas. Em cena, ficam patentes alguns sub-recortes dentro do recorte maior. Temos Lula como um rapaz antenado, esperto, inquieto – quando criança, segundo o filme, ele é o único da família a sempre ser capaz de perceber a gravidade do entorno onde vive, marcado pela brutalidade do pai, a pobreza extrema e o sofrimento da mãe ao criar tantos filhos. Quando cresce, descobre o cinema e tem uma epifania assistindo a comédias de Mazzaropi. Mais velho, revolta-se com a violência que parece dominar o sindicato de metalúrgicos, enquanto dá uma de garanhão atrapalhado para as duas mulheres com quem se casou.

O acúmulo de situações busca dar conta de que Lula é um personagem anti-Macunaíma: o herói de total caráter, sem falhas evidentes, disposto a encarar injustiças. O Lula de Fábio Barreto é um ser flutuante, que transita por ambientes de forte carga emotiva e política sem se alquebrar o suficiente para cometer algum deslize. Se uma barreira surge, logo ela é superada de maneira triunfante. A falta de sutileza característica de Fábio Barreto aparece, aqui, diretamente na constituição física do personagem. A cada nova vitória diante da adversidade, o ator Rui Ricardo Diaz ganha algum elemento novo ou reforça um anterior: o bigode, o tom de voz, as roupas, a barba – todos esses pequenos detalhes ficam gigantescos diante da necessidade do filme em marcar claramente as etapas pelas quais passa o nosso herói. Vai-se formando um “super Lula”, mesmo que aos atropelos.

É na meia hora final que Lula se rende ao espetáculo massificador. Os famosos discursos do sindicalista ganham ares epopeicos e grandiosos, potencializados pela música crescente e onipresente. Na busca por alguma legitimidade, Fábio Barreto insere trechos de documentários como ABC da Greve (Leon Hirszman) e Linha de Montagem (Renato Tapajós) para ilustrar determinadas passagens que estão sendo recriadas através da ficção. Esse híbrido de “docudrama” não é muito bem resolvido, por servir menos de reforço à cena do que como demonstração do quanto essa mesma encenação é incapaz de reproduzir – ou mesmo de captar – a urgência e o impacto dos acontecimentos ali narrados.

Lula soa esquizofrênico na medida em que Fábio Barreto tenta claramente se afastar da maneira negativamente primitiva com que tratou seus outros filmes e encontrar, aqui, uma certa calma, inexistentes até então numa obra que, até o momento, ele nos legou. Lula tem longos minutos de silêncio, apostando na edição de som e na cenografia do semi-árido nordestino. Mas Fábio Barreto é Fábio Barreto, e logo teremos alguns planos de gosto duvidoso (para não dizer horrendos), o ápice sendo a câmera que sai da boca de Milhem Cortaz enquanto ele grita – imagine o início de Clube da Luta (David Fincher); é mais ou menos aquilo.

Há cenas de potencial poderoso, como o discurso no campo de futebol, quando os trabalhadores espalham a mensagem de Lula através de “ondas orais”. Inseridas a fórceps na ambição de retratar o máximo possível de momentos marcantes do jovem Lula, a emoção tão desesperadamente buscada encontra a frustração no plano seguinte e nos diálogos primários, cuja crença na palavra como propulsora daquele universo se resume a conversinhas mequetrefes de função meramente ilustrativa (aliviadas, vale registrar, pelo carisma do ator protagonista, Rui Ricardo). O filme abafa a si mesmo e, quando termina, fica na memória muito mais pelas questões que a simples existência de um projeto como esse levanta. Como proposta de cinema e forma de olhar para um objeto, resta pouco.

*Visto no 42º Festival de Brasília.

Filmes Citados:
Lula, o Filho do Brasil (idem, 2009 / Fábio Barreto)
ABC da Greve (idem, 1979 / Leon Hirszman)
Linha de Montagem (idem, 1982 / Renato Tapajós)
2 Filhos de Francisco (idem, 2005 / Breno Silveira)
Clube da Luta (Fight Club, 1999 / David Fincher)

 

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