
Deslocar-se, voltar ao prumo
por Ursula Rösele
A Mostra Campo Imperfeito faz um trânsito entre obras dos anos 1970 e contemporâneas, buscando, aparentemente, não somente fáceis interceções interpretativas, mas o deslocamento de um olhar acostumado com um tipo de cinema não somente clássico ou narrativo, mas de obras de fato voltadas para a sala escura e para algum tipo específico de público e mercado. Como já foi comentado em nossa cobertura do programa 1 desta mostra, a intenção dos curadores foi reunir obras que possuem certo diálogo com as artes plásticas, instalações, etc.; vídeos de baixíssimo orçamento realizados com os materiais e equipamentos disponíveis por seus autores. O resultado foi um compêndio curioso de obras que denotam certo diálogo (anos 1970-contemporaneidade) em sua maioria, com o real, com a experimentação das consequências do embate entre os corpos e a câmera que os captura.
O quadro é o limite, como no curta Campo. Limite que impõe determinadas escolhas, gera expectativas, sugere reflexões acerca de seu interior e sua significância, sempre ciente de que esta escolha implica a exclusão de todo um universo de significações exteriores a ele. Sem se esquecer, obviamente, que o campo abriga também um outro lugar, cuja diegese pode deslocar-nos para um além talvez maior que suponhamos existir do lado de fora. Regina Silveira (diretora de Campo) estava presente nesta sessão com outro curta, Artifício, este um tanto menos instigante ou possibilitador de reflexões para além dele. O artifício aqui, seja ele a câmera, aquele que a opera ou para onde ela se foca, é um adesivo que forma a palavra “artifício”. Metáfora para os inúmeros significados da palavra? Simbolismo com as potencialidades do meio cinema? Sim, todas respostas possíveis, mas neste caso a sensação é a de artificialidade, de fato.
Saint Emilion tem uma aura muito próxima de Bill Viola e suas instalações nas quais as imagens nos enganam descaradamente e através de articulações sutis uma imagem transpõe uma outra, a luz e a sombra operam como fortalecedores deste processo ilusório. Tudo ali é processo. Os homens trabalhando, o dia chegando ao fim, o som do trânsito ao fundo. O impacto do curta na tela foi deveras interessante, uma vez que evocou de fato uma sensação de uma instalação na qual imagens e sons confluem nos convocando a uma interação que possibilitará a experiência de um terceiro significado. Nessa ambiência de uma instalação – por ambiência quero dizer de uma sensação causada pela projeção desses filmes na sala de cinema que pareceu evocar o lugar de uma instalação – talvez um dos curtas que pareceu também trazer este universo é Ilustration of Art I. O filme acompanha o processo de cura de uma ferida, do esparadrapo que suja com a rotina diária ao sumiço da cicatriz.
Neste ponto do texto me deparei com uma certa dificuldade de relacionar estes filmes à experiência de uma sala de cinema, talvez por estar tentando justamente associá-los ao meio cinema ao invés de refletir as impressões e sensações de sua exibição em tela grande ainda que alguns pareçam conter estampado este deslocamento de áreas. Fui então ao ensaio escrito pelos curadores da mostra (João Dumans, André Brasil e Eduardo de Jesus) disponível no site do festival (podem lê-lo clicando aqui). Será que fui pega por esta impressão de “um filme ainda por fazer”? Talvez. Mas a ideia de serem filmes abertos e instáveis agrada, causa o desejo de aceitação da provocação, do deslocamento. Não me parecem filmes “menores”, mas experiências diferenciadas que puderam se ver potencializadas de alguma maneira pela proposta deste campo imperfeito, desse lugar aparentemente aquém de nossas expectativas, mas instigante por torná-las impossíveis de se prever. Voltemos, portanto, a esses “pedaços de espaço imaginário”.
Buraco, Luz Negra, How Things Work. Estampam sem receio de julgamentos a artificialidade. Por artificialidade, digo daquilo que não é natural. O cinema, o vídeo, as artes plásticas podem – por que não – confluir exatamente aí. Neste lugar incerto, no qual o simulacro se choca com nossas impressões de real, nos suga desse lugar estável e racional que buscamos a todo tempo. São Paulo e Helsinki têm algo em comum: estabelecimentos comerciais cuja abertura pequena de fato nos lembra um Buraco, mas se diferem em localidades, em seus aspectos culturais, na despretensão dos brasileiros e na frieza dos finlandeses. Por que não uni-los? Por que não pensam nessas relações buscando criar uma interseção tal que o Brasil vira Finlândia e a Finlândia vira Brasil? Com o vídeo isso é possível. Com a sala de cinema é possível nos levar a este universo de ilusões.
Luz Negra, filme – hei de dizer – esquisito. Luz negra é esse lugar de ausência de luz, ou de potência de tornar, no escuro, as coisas visíveis de outra forma (como vemos em boates). Um terreno baldio, muitos buracos, enormes caixas de som sendo enterradas neles. Daí, Nelson Cavaquinho, entoa seu juízo final enquanto o som sai de baixo, da terra, do cerne, abafado. Colisão. O espaço se colide com os objetos, os objetos enfrentam este espaço do qual eles geralmente não fazem parte. O som e a terra se misturam, a imagem se mistura com aquele que a vê, o claro com o escuro, diferentes elementos (mercúrio e um corpo), como em Elements. Em How Things Work a mistura de borracha com metais e algo vermelho nos levam ao corte, ao sangue, à impressão cirúrgica e catastrófica da união desses elementos.
Em Poema o verso é dimensionado para um outro lugar. Deslocado, como as artes plásticas para o cinema, o espectador para esta experiência, o escrito para a película. Confluência de elementos, introdução da duração como um dos elementos de percepção. Buraco Negro, diferente do que seu nome possa evocar, tem algo de sentimento. O som, o vento, o deslocamento do objeto (pó) na superfície. Em sua fusão com o cinema, o pó também gera imagens em uma tela preta, que é a mesa. O som evoca o suspiro, o sexo, um extracampo que guarda um homem e uma mulher.
Para fechar a sessão, Proto-Tide. Ali, a junção de água e fogo, de som e câmera para convocarem o nosso olhar. Defronte à maré, um montinho de carvão aceso e uma combinação que sabemos gerará o fim do processo de algum deles. Ou a água não é suficiente para apagar o fogo, ou o fogo desaparece ao ser tocado pelo líquido. Neste caso o processo dura alguns minutos de um bailado câmera-objetos de fato entorpecente. Creio que eu poderia passar um bom tempo em silêncio acompanhando a fumaça resultante do apagar do fogo e o som calmante da água que o esfria sem pressa. Talvez o sentimento maior de um cinema-instalação tenha sido propiciado por Proto-Tide. A maré-protótipo e a sala de cinema-experimento em uma sutil confluência em que a química desses espaços parece convergir de maneira que até o atrito se perfaz de maneira artística.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.
Filmes Citados:
Campo (idem, 1976/Regina Silveira)
Saint Emilion (idem, 2009/Iian Weisberg)
Artifício (idem, 1976/Regina Silveira)
Buraco (idem, 2007/Gisela Motta e Leandro Lima)
Ilustration of Art I (idem, 1971/Antônio Dias)
How Things Work (idem, 2002/Roberto Bellini)
Luz Negra (idem, 2001/Eduardo Climachauska e Nuno Ramos)
Poema (idem, 1979/Paulo Bruscky)
Buraco Negro (Série B) (idem, 2008/Cinthia Marcelle e Tiago Mata Machado)
Elements (idem, 1972/Iole de Freitas)
Proto-Tide (idem, 2008/Thiago Rocha Pitta)