
Unsere Afrikareise, de Peter Kubelka
por Ursula Rösele
Em português, “nossa viagem à África”. Este curta austríaco é uma experiência sensorial que beira o indescritível. A tentativa de encaixar Kubelka em alguma descrição, talvez levaria a algo como um cineasta experimental andando lado a lado de Jean Rouch (comentário que Kubelka certamente rechaçaria). Após algumas pesquisas na internet, foi possível descobrir que Jonas Mekas foi o grande incentivador de Kubelka quando o mesmo deixou sua terra natal, que só foi reconhecer a força de sua obra na década de 1980.
Além da gritante sensorialidade, a palavra resistência também parece caminhar com Kubelka. Unsere Afrikareise é de uma violência impressionante, e a razão de se dizer isso passa distante das imagens de animais sendo mortos em terrenos africanos. A violência aparece estampada na construção estética de Kubelka, na maneira como concatenou imagem, montagem e som neste curta, conseguindo simbolizar em poucos minutos toda uma civilicação colonizada. Os arianos e os africanos, o branco e o negro, aquele que carrega a arma, aquele que serve de tripé para ela. No filme, a dispensa pelo som direto tão caro a Rouch dá lugar a uma articulação complexa em que ouvimos um alemão embaralhado que se mistura a imagens de rostos negros, sorrisos elencados a imagens cruéis de morticínio, nos quais, dificilmente conseguiremos nos abstrair da ideia de uma sessão em que Unsere Afrikareise e Os Mestres Loucos passassem em sequência.
Kubelka abstém-se da narrativa linear e parece descobrir um outro caminho no qual a linguagem, a ligação entre planos e sua junção com o som podem convidar-nos a uma nova experiência perceptiva, na qual o cinema se torna de fato um instrumento de resistência e passa a nos convocar à reflexão das diferenças abissais entre culturas que vimos massacrar e serem massacradas ao longo de toda a existência do homem.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.
Valentin de las Sierras, de Bruce Baillie
por Ursula Rösele
Valentin de las Sierras, curta que também pudemos ver na sessão-surpresa de abertura do festival, destrincha pedaços de um México fascinante, no qual palavras podem servir para descrever, mas jamais para substituir as potencialidades das imagens. Ao som de uma canção nativa, a câmera percorre os rostos, sorrisos, objetos, a terra, a incidência da luz do sol e passeia por esses lugares e seres como uma dança suave que acompanha esta doce apresentação de um espaço. Os corpos parecem dançar com e para a câmera sem se incomodarem com sua presença. Pelo contrário, a convidam para este observar de uma terra e permissão de oferecê-la ao olhar do espectador.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.
Spiral Jetty*, de Robert Smithson
por Leonardo Amaral
Spiral Jetty mune-se de vários artifícios para negá-los logo em seguida: se disfarça de documentário educativo quando na verdade fala de um lugar do qual a veracidade não pode ser necessariamente comprovada; seria um doc geográfico se não fossem as diversas nuances lançadas em tela. Robert Smithson, certamente, quer muito mais a experiência do que qualquer tipo de informação: seu mote textual e explicativo é mero pretexto para se embarcar em uma viagem insólita para uma ilha (ou melhor, um quebra-mar) longínquo, misterioso e fabuloso.
A narração, empreendida pelo próprio cineasta, mais parece a de um conto borgeano, guiado por seus mistérios e não-explicações, cujo intertexto é o que realmente vale: no mapa, o diretor nos leva até o território de Salt Lake, percorremos espaços, tempos remotos para darmos de frente com formações rochosas em formato espiral. A máquina escavadeira a retirar os mineiras nas rochas, contraposta, pela montagem, com as águas que correm lentamente são a metáfora e simbiose do percurso realizado dentro do próprio filme. Smithson nos empreende a descoberta, seja nos caminhos pelo museu arqueológico (em tom rubro) ou, e principalmente, nos vôos do helicóptero que sobrevoa as formações rochosas em espiral.
Chegado ali, o que se quer é a sensação, a exploração da forma, a experiência sensitiva através da câmera, suas angulações e movimentos rasantes. Em certo momento, o narrador nos diz que ali o sol se reflete em várias posições e o movimento deflagrado da câmera nos permite percebê-lo. Em seguida, as sensações de êxtase, vômito, enjôo, tonteira, todos eles empreendidos pela movimentação elaborada por Smithson. Ao final, o homem que ali chega e caminha por todo o percurso até chegar a ponto: eis o ser de frente para o desconhecido. Smithson não nos oferece a expressão do humano, prefere nos conferir o mistério até que o homem retorne e dali a câmera se conceda mais uma vez seu sonho de Ícaro, para ganhar o céu e lá nos oferecer toda a imagem de baixo.
* Visto no 11º Festival Internacional de curtas de BH
Filmes Citados:
Unsere Afrikareise (idem, 1966/Peter Kubelka)
Valentin de las Sierras (idem, 1967/Bruce Baillie)
Spiral Jetty (idem, 1970 – Robert Smithson)
Os Mestres Loucos (Les Maîtres Fous, 1955/Jean Rouch)