
por Ursula Rösele
Castro está sendo perseguido, procurado por todos aqueles que parecem querer dividir o espaço do quadro com ele. A câmera, portanto, servirá de observador atento e participante desta busca interminável. Castro protagoniza uma ação da qual desconhecemos as razões. O filme tem uma estrutura capitular e cada um desses capítulos pertence ao mesmo núcleo de interesse, que dá nome ao filme; Castro. Esta figura curiosa dorme em armários, tem uma esposa, uma amante e acredita que o trabalho atrapalhará tudo, acabará com o amor.
A passagem de um lado a outro é constante. Desde o primeiro plano, os personagens correm de um lado ao outro do quadro e o trem os entrecorta. O filme é, de fato, uma passagem. Passagem por um universo desconhecido, no qual a ânsia pela captura da câmera toma força ainda maior que seu – suposto – enredo. De um lado, está Castro. Do outro, os outros o contracampo, a resposta. Em alguns momentos ouvimos um off de Castro, melancólico pelo que está por vir. Suas frases são repetidas pelos títulos dos capítulos e, de narrador, ele passa a perseguido e com ele se vai esta possível narração onisciente.
Antes da sessão, um dos curadores da Mostra Bafici comentou que Moguillansky é também montador. Isso ficou evidente ao longo do filme, uma vez que seus planos são todos encadeados de maneira harmônica, ainda que os acontecimentos intra-quadro sejam todos desarmônicos e os personagens falhem a todo tempo durante a perseguição a Castro. O curador também comentou da Nouvelle Vague ser a referência maior do diretor de Castro. O filme de fato dialoga em alguns aspectos com Acossado, uma vez que o protagonista é procurado e neste meio-tempo faz um sem-número de atividades pelas ruas, enquanto a câmera acompanha seus passos continuamente. Castro também relembra Jacques Tati, pelo timing de sua narrativa e as gags coreografas pelos seus personagens.
Filme de fato divertido, que denuncia uma não-necessidade de um certo cinema contemporâneo de apresentar a todo tempo respostas formais que acalmem seus espectadores para que possam seguir sua rotina pós-sessão. Um filme sobre o nada de um outro, cuja única informação que nos cabe saber é que está a fugir. Ainda sobra um pequeno espaço para uma certa melancolia que acompanha este personagem, que jamais sorri, sempre está com o olhar perdido no fora de quadro e termina sua corrida defronte uma parede na qual bate seu carro duas vezes sem muito sucesso – supondo ser ele o do suicídio. A câmera finalmente o abandona e se fixa numa estrada de terra em que seu principal perseguidor desiste de segui-lo, quase em uma constatação de que independente do sucesso desta empreitada, haverá uma tristeza impossível de se alcançar.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.
Filmes Citados:
Castro (idem, 2009/Alejo Moguillansky)
Acossado (À Bout de Soufle, 1959/Jean-Luc Godard)