Mostra Curtas Brasil – 2: “A Arquitetura do Corpo”, “Minami em Close-Up, a Boca em Revista”, “Passos no Silêncio” e “N. 27”

A Arquitetura do Corpo, de Marcos Pimentel

por Ursula Rösele

A série 4 de curtas do CineBH 2009 foi toda pontuada por filmes no qual a força maior está na relação da câmera com o corpo filmado. Este registro é feito de perto, nos olhos, na respiração dos atores, na instabilidade dos olhares. Pela ordem da sessão, Arquitetura do Corpo é o último, o que de certa forma passa uma sensação mais serena, uma vez que a força desses corpos se dá não necessariamente em sua relação explícita e proposital com a câmera, mas através de seu movimentar e da dança; ou melhor dizendo, da preparação para uma apresentanção aparentemente decisiva.

Temos um crescendo dessas relações que desemboca fatalmente na arte. Começamos na relação doce entre um homem e uma mulher mais velhos (O Teu Sorriso) e o desfilar de seus corpos se acarinhando enquanto a câmera os acompanha, para seguirmos ao olhar contemplativo de Phiro, a expressão da crença em Reza – este num registro um tanto mais tradicional, porém de muita força expressiva – para o respeito solene de Tempo de Cinzas, a melancolia de Silêncio e Sombras e, enfim, o desaguar dos  corpos em Arquitetura do Corpo.

O filme é muito preciso em seus enquadramentos, de um cuidado rigoroso com esse processo de escolha do que ficará nesse registro restrito do quadro (não por menos seu título se refere a um procedimento arquitetônico), porém, um pouco excessivo em sua duração, o que desequilibra um pouco a relação com o filme. De toda maneira um filme certamente interessante e belo, no qual o contemplar da câmera contrasta (positivamente) com o movimentar dos corpos.

*Visto no CineBH 2009.

 

Minami em Close-up – a boca em revista, de Thiago Mendonça

por João Toledo

O curta metragem de Thiago Mendonça resgata a figura insólita de Minami, quadrinista e criador da revista Cluse-up que, ao longo das décadas de setenta e oitenta, foi responsável por um certo retrato do cinema da boca do lixo, prolífico espaço de produção cinematográfica responsável pelo surgimento de um legítimo gênero brasileiro, a pornochanchada. Mas ao invés de um documentário em busca apenas de seu  conteúdo, de resgatar um momento histórico através dessas figuras do passado, temos um documentário a procura de uma forma.

Thiago parece tentar criar um aspecto gráfico quase como se filmasse uma revista em movimento; esse quê de quadrinesco traz ao filme um aspecto um tanto curioso, às vezes francamente irônico, resgatando a apropriação desvairada dos gêneros americanos, às vezes apologético do cinema ali criado, iconizando certas figuras cuja paixão por aquele período esquecido parecem um tanto acríticas. Mas, no fundo, a imagem nostálgica e grandiosa que esses cineastas da boca pintam do passado – algo nunca desconstruído pelo filme – não chega a ser prejudicial, pois o próprio efeito do tempo no semblante daqueles personagens, a decadência da memória do cinema nacional, o ruir silencioso do bairro aviltado de São Paulo, acabam por dar à imagem o aspecto fantasmagórico que nos deixa meio incertos diante das exposições exaltadas de alguns dos entrevistados.

Grandioso e apodrecido, o universo visto através das páginas da Close-up de Minami é algo que precisa emergir de seu fosso de esquecimento, ainda que traga consigo todas as belas e sujas contradições de um lugar que conseguia unir o marginal e a grande arte nas imagens que fazia de seu tempo, nesse rosto de um momento, face de um Brasil que o Brasil do bom gosto parece querer esquecer.

*Visto na 4ª CineOP.

 

N º 27, de Marcelo Lordello

por Marcelo Miranda

Imagine um filme de Robert Bresson em que o protagonista tem uma dor de barriga na escola, suja-se no banheiro e entra em estado de choque ao tentar evitar que seus colegas entrem a qualquer custo. Guardadas as proporções, é mais ou menos essa idéia que se sobressai neste curioso curta, em que o ascetismo da encenação, a falsa inexpressividade do ator e os longos planos o tornam um trabalho peculiar e de estética bem pensada. Lordello faz de uma situação banal (e passível de ser o pesadelo de qualquer adolescente) um exercício de linguagem e austeridade, que, mesmo com o claro rigor que emana de suas imagens, deixa transparecer certa liberdade na realização, ainda que o controle das cenas por vezes pareça sufocar a proposta.

*Visto no 41º Festival de Cinema de Brasília.

 

Nº 27, de Marcelo Lordello

por Gabriel Martins

 

Notas rápidas sobre Nº 27, revisto na Cine OP: 

 

- Quem se mela, na verdade, é o espectador. Em poucos momentos é possível entrar tanto na pele de um personagem. Tudo isso por causa de um belo uso do extra-campo: ouvimos sempre um som vindo de fora, os outros personagens reagindo de fora para o nosso personagem de dentro. A pressão fica sempre à nossa volta.

 

- No segundo bloco, ele com os pais, novamente o extra-campo age. Ninguém ali, seja professor, pai ou mãe, sabe traduzir ou entender a vergonha - só ele e nós.

 

- Belíssima câmera lenta. O garoto some no meio de uma multidão, um outro garoto passa com a camisa melada, uma garota se solidariza. Um plano quase Gus Van Sant, mas muito brasileiro. Ao espectador resta um silêncio tanto de constrangimento como de compartilhamento. Grande filme.

*Visto na 4ª CineOP.

 

Passos no Silêncio, de Guto Parente

por Rafael Ciccarini

Uma professora de alemão recebe de um de seus alunos, o pedido para que lhe traduza um poema. A partir dessa premissa um tanto quanto simples, se desenvolve Passos no Silêncio, que na verdade acaba por se mostrar antes uma aventura sensorial pela forma com que Guto Parente dá imagens e sons à jornada interior de sua personagem.

De início ressalte-se a ousadia do diretor ao construir um filme que primeiro anuncia uma linha narrativa, uma história propriamente dita, não para ser o fio condutor do filme, mas para a partir dela fazer o filme derivar, deslizar para direções que vão redimensioná-lo estética e conceitualmente (o plano da corrida da personagem em direção ao canal é brilhante),  para, então, retornar ao mote inicial, agora já outro - a tradução é para ela, antes, recriação plena.

*Visto na 12ª Mostra de Tiradentes

Filmes Citados:
A Arquitetura do Corpo (idem, 2008/Marcos Pimentel)
Minami em Close-up – a boca em revista (Idem, 2008/Thiago Mendonça)
No 27 (idem, 2008/Marcelo Lordello)
Passos No Silêncio (idem, 2008/Guto Parente)

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