Mostra Vanguardas e Neovanguardas - 2: “Song of the Godbody”, “Love”, “9/64: O Tannenbaum”, “Three Frame”, “Studies”, “Dirty”, “Black and White Tapes”, “Geography of the Body” e “2 Stage Transfer Drawing”

Palco da Experiência

por João Toledo

 

Se há algo em comum entre todos os curtas agrupados no programa 2 da sessão denominada “vanguardas”, é uma espécie de reivindicação do corpo como espaço por excelência da experiência humana, espaço a ser sacralizado em cada ranhura, tornado protagonista da investigação sensorial da arte, mas ao mesmo tempo dessacralizado, pois tornado objeto de uso e exploração, tornado instrumento palpável e não imagem de culto e adoração distante. Em Song of The Godbody – algo como “canção do divino-corpo” em português – uma narração se sobrepõe às imagens em detalhe de um corpo masculino conclamando o corpo como instrumento único da troca, da experiência; em sua grandiloqüência é possível perceber a intenção de extrair beleza daquilo que em certa medida poderia ser considerado vulgar. Pois em tese, corpo, enquanto ferramenta única e primordial da experiência humana, não pode ser considerado vulgar, menos ainda quando tratado como objeto de reconfiguração estética.

 

Logo em seguida na sessão, em reação à grandiloqüência que reclama a deificação do corpo, o curta 9/64 O Tannenbaum explora o corpo de forma a não somente aproximar a câmera de cada detalhe, mas de propor nele um sem número de intervenções com tintas, formas, alimentos e misturas no corpo, e uma montagem frenética que explode esse corpo em fragmentos de imagens de pura pulsação sensorial – loucura carnavalesca, corpo abusado, experimentado, e não apenas observado, tornado palco, enfim.

 

Já em AI/Love e em Geography of the Body (filme ainda mais impressionante tendo em vista que sua realização data de 1943) a exploração do corpo surge de uma pesquisa estética que dialoga bastante com os outros filmes da sessão, e parte de uma intenção comum de atribuir ao corpo seu devido valor. No entanto, ambos adquirem formas que produzem outros sentidos; versam, de certa forma, sobre o corpo como ente desconhecido, mal explorado, criam uma confusão estética que na pulsação das formas observadas, remetem a partes do corpo que não estão sendo filmadas, filma fragmentos de forma a torná-los enigmas. Mas, nesse emaranhado de recortes – absolutamente desvencilhado de uma idéia de realismo, mas tornando seu lirismo também bastante corpóreo, palpável, real e não-simbólico –, os filmes fazem pulsar um ritmo que, com as associações de formas, cria um estado de lasciva, de sensualidade total, onde já não importa mais o atraente e o repulsivo, pois todos palpitam juntos.

 

Dirty traz algo de diferente; se afasta do detalhe do corpo. Observa duas garotas numa cama a beber uma garrafa de vinho; manipula o tempo da imagem, reprisa momentos que ganham conotações diversas. A sexualidade latente vai se acirrando e isso é construído de maneira bastante interessante, onde a imagem do corpo é destacada do movimento, destacada do tempo, e a construção é feita através da sobreposição de instantes, de acúmulos. A repetição nos leva para trás mas insinua o porvir, nos provoca os sentidos que clamam pelo que vem adiante, e somos praticamente guiados por esses corpos numa narrativa que está inscrita praticamente na forma e movimento do corpo.

 

A sessão, bastante singular e complexa, pois os filmes em sua maioria não se pautam por qualquer tentativa de diálogo com o espectador que possa amenizar a força de suas experiências, ainda tem outros três filmes bastante misteriosos, mas que completam essa noção da reivindicação do corpo como palco da experiência, toda ela. O corpo-pincel em Black and White Tapes, o dorso-tela na transposição da criação visual da parede para o corpo em Stage Transfer Drawing e a força de repulsão e atração do corpo em Three Frames Studies

 

*Vistos no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

Filmes Citados:

AI/Love (Idem, 1962/Takahiko Limura)

Song of The Godbody (Idem, 1977/James Broughton)

9/64 O Tannenbaum (Idem, 1964/Kurt Kren)

Dirty (Idem, 1967/Stephen Dwoskin)

Black and White Tapes (Idem, 1970/Paul McCarthy)

Three Frame Studies (Idem, 1970/Vito Acconci)

Geography of The Body (Idem, 1943/Willard Maas)

Stage Transfer Drawing (Idem, 1972/Dennis Oppenheim)

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