Mostra Campo Imperfeito – 3: “X”, “Drive Thru # 1”, “Vocês”, “Filme de Foda”, Homenagem a Steinberg”, Os Peixes Também Morrem sem Anzol”, “Deus não está Morto” e “O Mundo Bate do Outro Lado da Minha Porta”

por Gabriel Martins

 

Na série Campo Imperfeito 3: O Corpo e a Cena, existe um encontro de certos valores em todos os filmes que nos ligam imediatamente a um espaço de desconforto e rejeição. É uma sessão pesada, para, digamos, “expulsar” o público – e, felizmente, foram pouquíssimos os abandonos da sessão. Este conjunto está aí exatamente para questionar esse abandono. O abandonar, o se incomodar, está profundamente ligado a um problema de forma. O olhar – no sentido de apreensão - não está acostumado com a falta de clareza.

 

Ou melhor, não está acostumado com a não explanação de idéias. A clareza velada, que na verdade é uma opção com o fim de forçar o espectador a algum tipo de reflexão, permanece obscura se existe de um lado uma armadura que oprime a leitura poética. Esta tal incomunicabilidade existente – muitas vezes não é o diretor que faz o filme incomunicável, é o espectador que o torna – acaba gerando uma anulação de vários filmes. Também, visto este comportamento existente, alguns realizadores caem em certo prazer do velar sentidos, seja pela maneira como isso possibilita uma liberdade técnica, seja pela maneira como pode ser legitimado em alguns nichos – a leitura do entorno do filme e menos do filme em si.

 

É uma bela escolha a abertura da sessão com X. Minimalista, associa três espaços: sangue, olho e tesoura. Sendo talvez o filme mais claro da sessão, faz ode ao cinema. Montar, tesourar, sangrar, destruir essa tal armadura citada acima. Parece dizer: é preciso rasgar o olho, estilo Buñuel, para viver esta sessão. Se não colocar uma mínima abertura dentro do espaço de conforto por nós criado, tudo passa e nada fica. Uma obra sobre o terror e a aflição de ver, tanto metaforicamente como fisicamente, o nosso olho em perigo.

 

Em Drive Thru # 1 existe uma espécie de fragmento aparentemente deslocado de alguma vídeo-instalação ou algo parecido, pois a construção do filme se dá em ritmo lento, quase em loop, e tem algo de bastante material em si que remete a esta outra modalidade. Discute-se ali o deslocamento, o carro em meio a montes e montes de terra sendo invadido pelas mesmas. E neste sufocamento, nesta repetição de movimentos (pá jogando terra), transborda uma relação entre espectador-imagem de, exatamente, deslocamento. Não há muito que fazer com aquela situação a não ser observá-la como situação que é. E talvez esteja aí a questão, na reflexão do processo.

 

Vocês, de Arthur Omar, é um filme bem localizado e simbólico dos 70 (como outros da sessão), mas que demonstra tanta vitalidade que torna difícil não se deixar levar pelas várias idéias contidas no gesto. Metralhadora de balas e de imagens. Como outros trabalhos do diretor como a obra-prima O Som e Ressureição, há uma vontade enorme de se experimentar no sentido quase científico – testar o que o aparato cinematográfico pode fazer. Neste caso, são as luzes-tiros estroboscópicas, elemento que certamente provoca um efeito para além de seu simples experimento. Se em um momento X cortou os nossos olhos, Omar agora nos metralha por completo.

 

Em uma sessão repleta de imagens provocantes e angustiantes, um dos filmes que mais provoca reação de incômodo é Filme de Foda que, ironicamente, tem sua força quase que exclusivamente no uso da palavra. Uma cena simples: mesa, som e cadeiras. Um casal entra ali e trava uma conversa altamente erótica sobre coisas que farão com o outro em um ato sexual. Este nunca é consumado em tela, não sendo por isso menos agressivo e pornográfico. O sugerir muitas vezes é mais erótico que o mostrar, exatamente porque ele se vale de algo que é ilimitado: a imaginação humana. Também, Filme de Foda demonstra o quanto a palavra é agressiva e incômoda. O fato de o filme ser legendado tornou a coisa ainda mais complicada e dura, pois se lia palavras como “cu” e “boceta”, que parecem trazer algo em si de proibido. Se é mostrado uma “boceta” como imagem, ela será aquela “boceta”. Se o personagem fala “boceta”, e mais, se se lê “boceta”, talvez se remeta a todas as “bocetas” já vistas e não vistas e ao quanto esta e outras palavras incomodam. Esta sexualidade e erotismo se esvaziam ao longo do filme, tal a maneira como a repetição de plano e contraplano e o jogo de palavras se banaliza de tão incessante. E a proposta é interessante exatamente por isso, por ser constrangedora no seu início, mas se tornar algo quase banal na continuidade da idéia. Talvez o desconforto exista exatamente porque em algumas situações ainda não se fale abertamente de certas coisas.

 

Uma análise bastante caótica é feita em Homenagem a Steinberg. Pessoas são escondidas por sacos na cabeça que, simbolicamente, nos levam a um outro espaço cênico: uma série de construções metafóricas através de objetos de cenário e figurino. A construção é menos narrativa e mais ensaística, ainda assim não levando a uma construção precisa de idéias. Se de um lado a obra se beneficia pela comicidade inerente à situação, de outro se prejudica pela forma como o aleatório da construção acaba se tornando irregular no processo (algo visto também em outros momentos da sessão). Se houvesse algum rigor, mesmo sendo este a própria falta de rigor, a idéia em si, como matéria nos elementos ali colocados, poderia ter sido ainda mais potencializada. Fica uma sensação de que o espaço ali construído, em toda sua homenagem ao desenhista Steinberg, acabou sendo esvaziado do ponto de vista cinematográfico.

 

Algo próximo acontece em Os Peixes Também Morrem Sem Anzol, filme que, se evidencia um trabalho forte de cena, talvez não consiga atravessar a barreira da sua idéia inicial. É carregado de símbolos, apresenta uma proposta que facilmente comporia uma vídeo-instalação pela potência do ato. Mas vale pensar até quando o ato em si, o grosso do leit motiv, desdobra-se enquanto filme. Neste caso, a situação parece permanecer em torno do ensaio imagético, um círculo em um mesmo propósito – novamente um flerte com a vídeo-instalação que, como forma, não tem exatamente começo e fim. Ainda que problemático, Os Peixes Também Morrem Sem Anzol é certamente merecedor de um espaço pelo que provoca enquanto relação de corpo e cena, que é o tema maior da sessão. Entretanto, a maneira como é filmado torna-se menos interessante que a situação ali ocorrente (ainda que estas coisas estejam inevitavelmente indissociáveis).

 

Deus Não Está Morto é explosão. Muita coisa, muita coisa. É imagem que não pára mais, somada com efeitos, regionalismos, mangue, uma soma do tudo. De tanta informação a digerir, sobra uma relação sensorial, ou pelo menos a observação de uma busca por relação sensorial do diretor com suas imagens. É essa a percepção de um ritual religioso, algo por si só emocional e situado em um outro plano que não o da organização e da lógica. E o filme, se pretende algo neste aspecto, é bem sucedido. Vale pensar o quanto é interessante partir de um objeto para construir sua estética da maneira como aqui é feito. Creio que no excesso do filme pouco reste além do turbilhão que, mesmo interessante como expressão, pode se esvaziar em sua própria matriz.

 

O último filme da sessão resume o que ela tem de interessante e também o que tem de ruim. O mundo bate do outro lado da minha porta tem a força de uma evocação ao encontro do homem com a natureza, a não-negação do mundo, mas tem a fraqueza de uma aposta quase cega somente na situação, indo pouco além dela. É belo ver a proposta partir um ensaio belíssimo de imagens, sem dúvida uma situação bem fotografada, que brinca com ilusão de ótica e com a presença do corpo no espaço. Mas a idéia se perde ao se insistir em algo que é devidamente compreendido em um tempo menor. A longa duração aí não é arma (como é em Drive Thru # 1), mas é persistência. E nesta persistência chega um momento em que não há mais interesse da própria câmera, esgotando as maneiras de se filmar essa situação. E por mais que o relevante ali seja o centro da idéia, a situação elaborada, é preciso chamar atenção para a construção fílmica – que é exatamente o que nos traz aquela situação. Se mais rigoroso, mais elegante, o filme poderia fazer da situação um verdadeiro espaço cênico cinematográfico.

 

E isto resume um pouco do que é esta sessão. Corpos em cena, corpos e a cena, e um problema cinematográfico no meio de tudo isso. Com falhas e virtudes, algo é certo: o incômodo presente em colocar o desconforto como chave para quase todos os filmes provoca sentimentos no espectador. Bom ou ruim, estes sentimentos são sentimentos, e precisam ser instaurados para que se crie espaço ao desconhecido. Na crítica, e esta edição do festival é particularmente uma edição de “colocar em crise”, é vital a existência dessa situação.

 

*Vistos no 11º Festival de Curtas de Belo Horizonte

 

Filmes Citados:

X (idem, 1976/ Ana Maria Maiolino)

Drive Thru # 1 (idem, 2007/ Matheus Rocha Pitta)

Vocês (idem, 1979/ Arthur Omar)

Filme de Foda (idem, 2006/ Wagner Morales)

HOMENAGEM A STEINBERG: VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA DESTEINBERG: AS MÁSCARAS N° 1 (idem, 1975/ Nelson Leirner)

Os Peixes Também Morrem sem Anzol (idem, 2004/ Ivan Morales Jr.)

Deus Não Está Morto (idem, 1974/ Chico Liberato)

O Mundo Bate do Outro Lado da Minha Porta (idem, 2006/ Ticiano Monteiro)

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