
por Gabriel Martins
Um dia frio, de Cláudia Varejão
Um dia frio parece ter um cuidado tão grande com a fotografia que deixa seus personagens em segundo plano. A pouca profundidade de campo é também pouca densidade dos personagens. Não é ruim, mas se atém a certos valores imagéticos que apostam em algum tipo de melancolia existente no vazio daquele dia e que não deixam, talvez pela beleza invasiva e evasiva que a fotografia e a música emanam, nos aproximarmos dos personagens com mais calma e atenção. Praticamente todos os planos trabalham o fora de foco pensando-o mais como uma opção fotograficamente interessante do que um método de valorização do universo do filme. Tem-se, portanto, um filme que é muito mais um teste de câmera que um filme humano – como ele parece pensar ser. Que fique, entretanto, um grande elogio ao elenco, este que parece mais atencioso com seus personagens do que o próprio filme.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte.
Arena, de João Salaviza
Em acréscimo à análise de Leonardo Amaral (aqui), apenas digo que um ponto que chama muito a atenção é como a situação ocorrida no filme explora bem o fato do personagem estar em prisão domiciliar. Entende-se, aí, o porquê do seu vestir de roupas para sair e acertar as contas ser tão penoso. É neste momento que ele percebe que todo o processo de paciência que tem passado de ficar em casa – ele usa um aparelho no tornozelo que provavelmente denuncia sua saída – foi por água abaixo. Ele olha para a cidade do alto experimentando a liberdade e ao mesmo tempo tendo a total ciência do que esta liberdade custará naquele momento.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte.
Canção de Amor e Saúde, de João Nicolau
Logo no seu plano inicial, Canção de Amor e Saúde diz a que veio. É um filme de reenquadramentos, sonho e, principalmente, encenação. Um encantamento com o fantástico é colocado no próprio exibicionismo da câmera que, virtuosa, parece dançar com o espaço. E neste verdadeiro bailar, João Nicolau quer sempre nos surpreender, transformando seus personagens em brinquedos de criança que podem a qualquer momento se metamorfosear em uma nova cena. Brinca-se de cinema, numa proximidade ao Glória ao Cineasta de Takeshi Kitano no que ele tem de livre. Um plano é sensacional: uma garota “acariciando” um cavalo que está longe (ilusão de ótica) ocupa o quadro até que a câmera se afasta revelando o personagem principal vendo esta imagem por uma janela que na verdade é uma reflexão da imagem da garota em um espelho. Um jogo de espaços, de ilusão, é o que esse filme propõe. Uma bola de tênis chega até um lago e conecta duas cenas diferentes. Uma garota na entrada da “Chaves Morais” está de frente e, com um corte, está de costas e logo depois, com outro corte estilo Meliés, some/vai embora. Estas trucagens inocentes e pueris são bastante saudáveis para o filme. Que se extraia, portanto, um prazer quase louco que a ferramenta pode proporcionar de deslumbramento desmedido. Um roteiro que, se tem na diegese um chaveiro, não dá uma chave de resposta, mas de maior imersão dentro do próprio sonho.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte.
Filmes Citados:
Um dia frio (Cold Day, 2009/ Cláudia Varejão)
Arena (idem, 2009/ João Salaviza)
Canção de Amor e Saúde (idem, 2009/ João Nicolau)