
Z Mojego Okna /From my Window, de Jozéf Robakowski
por Gabriel Martins
Josef Robakowski diz ter observado a rua durante 20 anos da janela de sua casa. Ele comenta a imagem, contando histórias sobre seus vizinhos que por ali passam e outras pessoas que conhece. É um gesto bastante afetivo este de colocar histórias sobre sujeitos que observa de tão longe. Ali, Josef é uma espécie de guarda que extrai um prazer enorme de observar aquelas pessoas, de tê-las em registro para lembrá-las. E esta atitude, totalmente coerente com a reflexão que se faz a todo o momento sobre a passagem do tempo, ganha uma dimensão ainda mais trágica e poética ao seu final, quando o autor afirma ter parado de filmar ao começarem a construir um hotel que bloquearia a visão da janela. Assim, ele redimensiona todo o filme, que a partir deste evento final torna-se não mais só uma idéia que um diretor teve e realizou, mas uma espécie de marco pessoal, um documento afetivo que não só demonstra um poder enorme de resistência à frieza do concreto, mas que coloca um olhar bastante ciente do seu dispositivo. Josef Robakowski, num misto entre idéia e destino, trava uma luta contra a morte.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.
Perils (Is This What You Were Born For?), de Abigail Child
por Gabriel Martins
A melhor “definição” vem da própria sinopse: “um filme composto apenas de cenas de reação em que toda causa fosse removida”. É isso: um filme sem causa. A imagem nos lembra o primeiro cinema (cientemente homenageado), com todo seu caráter de construção em evidência. Como a ação não se vincula a um tempo do todo, resta a composição do momento e do gesto, cada imagem por si só como uma manifestação de registro. A existência de alguns personagens e protagonistas ainda nos instiga a pensar em que espécie de relação este projeto traz com uma dimensão maior, ou seja, estes fragmentos que tanto parecem pertencer a uma outra coisa podem na verdade serem eles mesmos algo. E daí pensemos: o que é este filme? Ele é um filme ou uma coisa incompleta, um vestígio? Está lá, na lacuna – e a curta duração é ainda mais instigante pois não dá tempo de se acostumar com o processo ali exibido. Abigail Child fez um filme de fuga, onde só sobra o contraplano (ou seria a contra-ação?). Um nada que se faz de um todo para ser, neste nada, o próprio todo.
*Visto no 11º Festival internacional de Curtas de BH.
The Secret Cinema*
por Leonardo Amaral
Em uma sessão em que o dispositivo, mais do que posto em evidência, é o próprio filme - leitmotiv do mesmo -, The secret cinema é a personagem Jane que, no primeiro plano, bate a claquete para se ter início a um empreendimento cinematográfico em que vida e cinema são a mesma coisa. Aliás, o espectador só compreende realmente o significado daquela claquete após ver e perceber todo o filme, pois movimento semelhante se repete com outra mulher, Helen, em novo experimento do cientista-cineasta-psicanalista que experimenta a vida das personagens no cinema.
O filme se inicia com o assédio do patrão, sr. Troppogrosso (o nome faz realmente jus a um homem bastante gordo), em relação a heroína. É exatamente na mistura dos gêneros, em uma ode e ironia ao próprio cinema que o diretor Paul Bartel trabalha, seja na inserção das músicas (com acordes e arranjos parecidos aos de vários filmes clássicos), ou na colocação de artifícios e arquétipos do melodrama, da comédia, do drama, e, até certo ponto, do horror. The secret cinema é tudo isso, com a característica do cinema moderno da fuga (dos personagens, do próprio cinema) e dos rostos filmados de frente, sempre propícios ao contato com o público. O curta-metragem traz para dentro esse espectador, deixando claro que esse também é parte do experimento. Não resta outra opção para a personagem que a loucura dentro de todos os propósitos desse mad movie . Nesse filme louco, a câmera persegue Jane (também trocada pela namorado pelo cinema) que resta acuada em um canto, isolada. No plano subseqüente, enfermeira Helen, ambiciosa, afirma querer dirigir um filme também. O psicanalista, sórdido, a coloca no lugar de Jane, exatamente por saber que o cinema é o lugar do experimento.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.
Film*
por Leonardo Amaral
De cara, no título, vemos evidenciado o dispositivo, mais tarde retornado em outras de suas nuances, quando, ao final, vemos a Samuel Beckett’s film (um filme de Samuel Beckett) seguido dos créditos nos quais vemos a assinatura de direção para Alan Schneider. Em princípio, um pequeno detalhe, mas que, ao ser incorporado ao filme, diz diretamente sobre esse, sobre como essa obra se filia (ou melhor, se constrói) a um tipo de cinema do olhar, olhar esse empreendido e voltado pela figura de seu ator principal, no caso Buster Keaton, velhinho e ao mesmo tempo carregado de cinema. Keaton personifica aqui o cinema, é filmado em primeira pessoa, se mistura com uma câmera subjetiva.
Em um primeiro instante, vemos uma figura peculiar com passados e traçados não menos peculiares a caminhar pelas ruas. A cada transeunte, uma expressão de estranhamento, um olhar que se cruza ao outro, os olhos que dizem praticamente tudo dentro do curta-metragem de Beckett e Schneider. O filme possui uma câmera objetiva que se funde por diversos momentos a outra subjetiva, mas todas elas voltadas àquilo que não se vê. Mais do que criar um clima de mistério e estranhamento (a revelação, ao final, não tem um sentido de reviravolta, ao contrário, é apenas mais um dos recursos de desvelamento do dispositivo), o que existe é um filme sobre a própria tristeza do olhar.
Não por menos, Keaton se esconde e foge da câmera, tampa com toalhas os espelhos da casa e elimina da sala todos os animais que, por ventura, possam observá-lo. É é ao cochilar na cadeira de balanço que a câmera tem a possibilidade circundar tudo aquilo que se tem como atmosfera para encarar Buster Keaton de frente, logo aquele que não pode ver a própria imagem. Olhar diretamente para a câmera é também fundir a esse cine-olho (não o de Vertov, mas o do cinema como um simples olhar personagem-espectador) aquele que recusava a própria imagem. Film é não só o filme de Beckett, de Schneider, de Keaton, é, acima de tudo, o filme de todos aqueles que se propõem a olhá-lo.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.
I, an Actress*
por Leonardo Amaral
Vemos, em um plano, um corpo, uma atriz, em iluminação que lhe expõe uma sombra gigantesca para um texto que parece ser (e que subsequentemente se tem a confirmação) de um término de relacionamento carregado em drama. A atuação de Barbara Lapsley é denotadamente melodramática, repleta em exageros e expressões do rosto e entonações de voz. Mas eis que o diretor George Kuchar, mais do que a dirigir do extracampo, o faz adentrando o próprio quadro para se inserir na cena. O dispositivo agora é a própria encenação evidenciada, levada ao exagero, e, até certo ponto, à farsa.
Eu, uma atriz, seria a tradução do filme, que empreende exatamente essa construção de quem é quem dentro do filme de Kuchar. Mais do que Barbara, é Kuchar a atriz, que invade e se constrói em cena, que toma pra si a personagem. Ao exigir-lhe um esforço dramático exaustivo, o diretor se transforma nela mesma, se vê invadido pela personagem, fator que o faz optar sempre por aquilo que vem a ser o mais exagerado possível dentro da cena. I, an actress é um filme do momento, do desnudamento da cena, da sua reconstrução, do dispositivo trazido para dentro do enquadramento. A construção do filme se dá de tal forma que toda a ambigüidade ganha a tela, não sendo mais possível desvencilhar ali o que se trata de verdade (e isso pouco importa), improvisação, mais uma vez o cinema está no limiar do real. O espaço fílmico, de cena, é também o lugar das experimentações da encenação, do exagero, do falso e da verdade, ou seja, acima de tudo, da ambigüidade.
*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.
Filmes Citados:
Z MOJEGO OKNA / FROM MY WINDOW (idem, 1999/ Josef Robakowski)
PERILS (IS THIS WHAT YOU WERE BORN FOR?) (idem, 1986/ Abigail Child)
The secret cinema (idem, 1968 – Paul Bartel)
Film (idem, 1965 – Alan Schneider)
I, an actress (idem, 1977 – George Kuchar)