Mostra Festival internacional de Cinema de Locarno – 1: “Zoo”, “Twist” e “The Flying Shepherd”

Zoo*, de Richard Billingham

 

por Leonardo Amaral

 

Richard Billingham tem como primeiro trabalho Zoo, tendo antes trabalhado nas artes plásticas e fotografia. E é exatamente por seus trabalhos anteriores que seu curta-metragem tem, acima de tudo, uma relação de enquadramento impressionante. Billingham traz da fotografia a noção do quadro como a substância-prima para o cinema, já que, em grande parte do filme, não utiliza sons e menos ainda o extracampo. Em Zoo, o que está em quadro já é essencial e é nesse sentido que o diretor inglês trabalha.

 

Ele divide seu filme em episódios, sendo que cada um deles recebe o nome de um dos animais que o cineasta se coloca a observar. Vemos, em um primeiro momento, um elefante filmado em teleobjetiva, artifício esse que nos permite ver as ranhuras de sua epiderme; um movimento do animal nos permite adentrar o seu olhar, penetrado e penetrante em relação à câmera. A seguir outros animais, como, por exemplo, um gorila que se alimenta de algo, e, em seu processo alimentar, come e regurgita várias vezes um bolo de alimento. Billingham trabalha dentro do tempo dos seres que se propõe a observar e filmar, sem qualquer imposição, dando a eles uma dignidade admirável.

 

O enclausuramento das celas, mas também do enquadramento nos dão conta de como esses bichos, mais do que exibições em zoológicos, são seres contidos num espaço, fator que faz com que tenham de sobreviver somente ali. As repetições dentro do plano, o tempo morto, são todos simbólicos nessa representação da ausência de liberdade. A inversão é colocada por Billingham: um tigre é visto por jovens, para os quais ele mostra os dentes. A agitação dos adolescentes passa a perturbar o pobre mamífero, que se mostra inquieto, para depois avançar em relação ao vidro. De alguma forma, bárbaros são aqueles que estão do lado de fora do vidro, acuado é aquele tolhido de seu espaço retido em enquadramento fixo. É bem verdade, Richard Billingham faz um filme triste de um certo tipo de realidade, sem qualquer tipo de manipulação ou discurso ecológico, ele o faz simplesmente através do poder da imagem.

 

* Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH

 

 

The Flying Shepherd*

 

por Leonardo Amaral

 

O cinema romeno atual tem uma capacidade impressionante de fazer filmes repletos de camadas de realidade, sem nelas existam obviedades: está tudo intrínseco, mas ao mesmo tempo substancialmente capaz de falar de uma série de questões relativas a toda uma passagem de tempos. Até por causa de um passado recente marcado por uma vida dura e restritiva, a realidade de hoje é cheia dessas nuances do passado que convivem com um presente em que se vê uma abertura para todo o mundo, inclusive para que dele venham outras visões, outras formas. Um pouco também o que acontece no Brasil, país que, assim como a Romênia, alcança um desenvolvimento maior agora, sem deixar, no entanto, de conviver com velhas culturas e questões do passado.

 

É nesse sentido que Catalin Musat trabalha em seu curta-metragem. Estamos em um campo imenso no interior da Romênia; nos arredores vemos somente o verde do pasto, o azul do céu e duas casinhas no meio do nada onde residem Jean, Mihail e Patru, três pastores que passam o dia todo a trabalhar na condução, alimentação e cuidados com a criação de ovelhas. Vivemos ali um outro tipo de relação com o tempo. A câmera fixa e os planos longos, mais do que dar vazão a essa realidade, são a própria experiência temporal, orientada sob a monotonia existente naquele campo.

 

No entanto, o campo fora comprado por alemães com objetivo de ali construir uma área de pouso para aviões pequenos ou outros equipamentos de vôos. Vemos os primeiros contatos entre as duas culturas, o choque da tecnologia com o arcaico: grande representação está no plano em que Jean tenta manusear um pequeno controle dos alemães, e a situação, para além de ser engraçada, é o grande reflexo desse conflito que permeia todo o filme sem, no entanto, chegar a romper em relação a um dos dois lados. Musat filma o convívio, com nuances conflitivas, pacificas, mas que implicam, de alguma forma, uma na vida da outra. Para que os aviões decolem e pousem, é preciso o pastoreio das ovelhas. Por sua vez, elas precisam ser recolhidas para não causarem acidentes.

 

Seguindo dentro desse limiar entre ficção e documentário, o filme de Catalin se constrói dentro do próprio processo, sem tomadas partidárias ou ‘culturais’. Estamos dentro do próprio convívio e ambos são afetados por fenômenos naturais, como a chuva torrencial que impede vôos, mas também que as ovelhas possam ser levadas ao campo para pastar. Num espaço pequeno, em um trabalho com o tempo, Catalin Musat faz um filme sobre transições, sobre os choques de seu país, rico em acontecimentos, como o de um meio rural longe de qualquer civilização sendo obrigado a conviver com a tecnologia de uma forma bastante próxima.

 

Ao final, o caminhar de Jean, após ver os amigos que resolvem pegar um dos monomotores para se arriscar a voar, seguido de um corte seco para os créditos, é a confirmação das ambigüidades que acompanham as relações, cabendo ao cinema deixar com que essas se impregnem em tela e lá se potencializem na imagem.

 

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH

 

 

Twist, de Alexia Walther

por Gabriel Martins


Ao início de Twist, um homem declama uma quase epopéia, compartilhando memórias através de um relato de um feito “histórico” importante (algo como migrações, conquistas e percursos pinçados da mimetização de capítulos perdidos de algum registro de séculos passados). Este exórdio, aparentemente empregado ironicamente em relação ao personagem e cenário, na prática se reduz a uma anunciação a um próximo momento paradoxalmente icástico daquilo que se figura como uma espécie de ação “libertária” em um sítio de experimentação sensorial através da dança. Há, portanto, a proclamação de um feito, evocando a grandiosidade presente na aura daquele que executa a locução e nos outros que posteriormente irão atribuir a este valor “heróico” uma enlevação espiritual e sensitiva através da prática do twist referenciado no título.


Após a fala inicial, um mini espetáculo de dança é iniciado sendo que, em sua realização, os quatro homens se movem em um estado de celebração “freestyle” onde cada um sincroniza seus espasmos coordenados e conscientes da forma como se sente melhor (dentro dos padrões da dança), participando coletivamente desta experiência de redenção que celebra uma espécie de niilismo debochado.


Em certo ponto o humor surreal toma conta, deixando-nos a mercê da idéia maluca que inevitavelmente se torna a imagem de quatro adultos seguindo fielmente uma coreografia claramente planejada. É uma alusão sarcástica frente à falsa seriedade da narração inicial, praticamente dizendo que ali o que vale é se entregar, se soltar, se submeter ao embalo da dança. Uma submissão ao arroubo de um movimento que, se possui algo de especial, é a possibilidade de envolver os corpos na inércia da música e assim provocar um afrontamento a qualquer valor importante - e talvez falso - que possa ser admitido para este contexto em específico.

 

*Visto no 9º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

Filmes Citados:

Zoo (idem, 2008 – Richard Billingham)

The flying shepherd (Ciobanul Zburator, 2008 – Catalin Musat)

Twist (idem, 2006/Alexia Walther)

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